
Taxação dos EUA sobre China favorece Brasil, diz Iedi
mar, 10, 2025 Postado porSylvia SchandertSemana202511
Um amplo aumento de tarifas na importação de produtos chineses pelos Estados Unidos pode abrir oportunidades para os embarques brasileiros. Uma sobretaxação nessa linha poderia dar maior espaço para o Brasil elevar participação no mercado americano em um conjunto de 2.863 produtos coincidentes da pauta de exportação brasileira e chinesa com destino aos EUA.
Esses produtos correspondem a US$ 457,2 bilhões em exportações chinesas aos EUA. O valor indica o tamanho das oportunidades que podem ser aproveitadas, caso os produtos chineses percam competitividade no mercado americano com um eventual aumento de tarifas. Isso representa 91% do total de exportações da China para os EUA. No caso do Brasil, os produtos correspondem a 68% do que é exportado aos americanos, no total de US$ 25, 4 bilhões.
O levantamento é do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), com base em dados de 2023, os mais recentes disponibilizados pelo TradeMap.
“Talvez seja forte falar que o estudo mostra um mercado potencial, mas é um mercado que estaria disponível para disputa se a produção chinesa perdesse competitividade no mercado americano. Mais do que valores, o que é mais relevante é a diversidade no conjunto de produtos coincidentes. Haveria um espaço de trabalho importante”, diz Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi.
“Evidentemente não conseguiremos aproveitar isso integralmente porque a China não seria deslocada completamente desses mercados. Vale a ressalva de que não é porque o nosso produto ganha competitividade, em razão de sobretaxas aos produtos chineses, que teremos condições de ocupar esse mercado”, pondera.
O gráfico abaixo revela os dez produtos mais exportados do Brasil em contêineres do Brasil para a China em 2024, segundo dados da Datamar.
Exportações em contêineres para a China | Brasil | 2024 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
E os dados levantados, diz, não podem dar impressão de que algo seria automático.“Para penetrar em cadeias, é preciso ter condições, por exemplo, de entregar um determinado volume de produção a um determinado preço, com uma determinada regularidade. Isso tudo demanda um certo planejamento e estratégia de ocupação de mercado.”
Há muita incerteza, diz Cagnin, sobre os rumos efetivos da política tarifária do presidente americano, Donald Trump. Em razão disso, o estudo considera algumas hipóteses. A primeira delas é que haveria aumento de tarifas apenas para produtos chineses, não atingindo as exportações brasileiras.
A segunda hipótese é que a imposição de alíquota adicional seria capaz de corroer a competitividade do produto chinês em comparação com o produto brasileiro. Na prática, diz Cagnin, há a possibilidade de a China seguir mais competitiva do que o Brasil, mesmo com maiores tarifas sobre suas exportações para os EUA. “Tudo vai depender também da alíquota que poderá ser aplicada sobre a China. Dependendo dela, os chineses podem continuar tendo competitividade superior à nossa, mesmo com as sobretaxas americanas.”
“O estudo considera que os bens já exportados pelo Brasil aos EUA sinalizam que há competitividade brasileira suficiente vis-à-vis outros países”, explica Cagnin. As alíquotas sobre bens chineses, portanto, abririam potencial efetivo neste caso, diz.
O economista pondera que uma alíquota de importação americana adicional a produtos “made in China” também pode prejudicar a exportação brasileira, caso o Brasil exporte para a China, por exemplo, uma matéria-prima que é processada e depois embarcada aos EUA. “Há efeitos indiretos que não estão captados no estudo”, diz.
O levantamento, observa, é um exercício no qual considerou-se que a ênfase para taxações do governo de Trump seja sobre a China. “Mas não podemos descartar o fato de que pode haver ações protecionistas mais amplas, abarcando um número maior de países, ou mesmo que as tarifas seja aplicadas por produto”, diz. Aço e madeira, por exemplo, já foram alvo de ordens executivas de Trump e podem atingir várias origens, inclusive o Brasil.
Há também, diz, outros canais não comerciais pelos quais a aplicação de tarifas por Trump pode ter impacto na economia brasileira. As tarifas mais elevadas devem ter efeito inflacionário nos EUA, resultando em menor afrouxamento da política monetária americana. Isso pode resultar em depreciação do real ante o dólar, com pressão inflacionária adicional no Brasil e consequente manutenção de juros em níveis mais altos.
O estudo, frisa, restringiu-se aos efeitos comerciais. “Olhamos quais produtos que os chineses exportam e que o Brasil também exporta.” Ele explica que o estudo usou um grau de especificidade maior, que considera as classificações dos produtos a seis dígitos. Só para dar uma ideia, o site da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) possibilita a pesquisa sobre importação de produtos a dois, quatro, seis e oito dígitos. Quanto maior o número de dígitos, mais específica é a classificação do produto.
Cagnin lembra que produtos manufaturados continuam tendo diferenças maiores para além dessas classificações de comércio internacional. “Sabemos que o design não é o mesmo, que o serviço pós-venda não é o mesmo. E sabemos que, por exemplo, a exportação pode contar com um mecanismo de financiamento que um país tem e outro não. A qualidade pode ser diferente e podem existir condições contratuais de longo prazo.” Há assimetrias, portanto, mesmo em produtos que estão na mesma classificação. “Há todas essas ressalvas, mas a pauta coincidente não é desprezível. Nesse nível mais detalhado de produto usado no estudo, temos pouco mais de 2,8 mil produtos. É bastante coisa”, diz.
O estudo também avaliou os produtos de setores que o Brasil exporta mais aos Estados Unidos. “Ou seja, dentre os produtos coincidentes, o que é mais importante na pauta brasileira aos americanos. Consideramos que o fato de o Brasil ser um exportador mais relevante em alguns desses produtos revela uma competitividade que a nossa produção tem no mercado americano desses itens, o que mitiga um pouco os fatores qualitativos que podem diferenciar um produto manufaturado de outro.”
O estudo do Iedi elenca, dentre o conjunto de produtos coincidentes, nove setores que são mais relevantes nas exportações brasileiras aos americanos. Esses setores reúnem 1.104 produtos e representam 30% da exportação brasileira aos EUA.
O estudo destaca que dois dos nove setores são de alta tecnologia: aeronaves e espaçonaves e suas partes, além de produtos óticos, fotográficos, cinematográficos e de medição. Os químicos orgânicos são o terceiro setor, já entre os de alta e média tecnologia.
O grupo de aeronaves e suas partes possui 13 produtos cujas exportações chinesas somaram US$ 676,2 milhões em 2023. É o único setor, diz o estudo, em que o Brasil exporta aos EUA valor maior que o embarcado pela China. Em 2023 a exportação brasileira nesse grupo aos americanos foi de US$ 1,97 bilhão, quase três vezes o vendido pelos chineses, correspondente a 5,3% da pauta de embarques do Brasil aos americanos.
A aviação, observa Cagnin, é um dos poucos setores de alta tecnologia em que o Brasil tem presença consolidada. “A Embraer está aí há muito tempo. Desse ponto de vista, o que vale mais é a perspectiva. Temos visto a China acumular, construir capacidade produtiva e tecnológica na área de aviação e de forma relativamente rápida. A tendência é que os chineses ganhem cada vez mais presença no mercado internacional. A China está correndo atrás e sabemos que quando ela faz isso, a velocidade é alta. Então nesse setor, a importância é consolidar e ocupar a maior parte do terreno possível, para dificultar uma entrada futura da China.”
Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o estudo do Iedi deve ser considerado para elaboração de política industrial e definição de estratégias: “Há dificuldade para ocupar espaços no mercado americano”. Em 2024, segundo dados da Secex, o Brasil exportou US$ 40,4 bilhões aos EUA. Para a China, principal mercado brasileiro, foram US$ 94,4 bilhões.
Não podemos esquecer, diz Castro, que o empreendedor precisa ter percepção de que a perspectiva de oportunidades maiores de exportação é real. Caso contrário, observa, não haverá investimento para produção e exportação. “E neste momento, a incerteza sobre como a política de Trump pode afetar o Brasil aumenta as incertezas.”
Para Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, os dados levantados pelo Iedi são interessantes, mas é preciso considerar também que, para manter mercado, a China pode reduzir muito os preços, porque alguns setores chineses ficam fora da economia de mercado.
O custo de produção no Brasil é muito maior do que na China, afirma Castro. Mesmo se forem alvos de sobretaxa, diz, os chineses ainda serão capazes de ter um preço muito menor do que o do Brasil.
Barral avalia que dentro do que pode resultar da política protecionista de Trump, pode haver mais oportunidades aos brasileiros com a retaliação que o Canadá e a China podem eventualmente aplicar contra os Estados Unidos, principalmente no que o Brasil já exporta, como commodities agrícolas.
Outros quatro setores apontados pelo estudo do Iedi estão na média tecnologia: máquinas e aparelhos elétricos; reatores nucleares e caldeiras, máquinas e aparelhos mecânicos; produtos inorgânicos e, por fim, veículos.
Ao contrário do grupo de aeronaves, o levantamento mostra que é no setor de máquinas e aparelhos elétricos que o Brasil exporta muito menos que a China. “Os produtos coincidentes que exportamos deste setor representam somente 1% dos desembarques chineses nos EUA. Ou seja, há muito espaço para ser ocupado caso a China passe a exportar menos destes bens”, diz o estudo.
O levantamento também destaca, na baixa intensidade tecnológica, os artigos de ferro e aço. Também elenca o setor de madeira e seus artigos, grupo que concentra produtos intensivos em recursos naturais e trabalho.
Fonte: Valor Econômico
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