Diversificação marca exportações aos Estados Unidos
maio, 23, 2025 Postado porDenise VileraSemana202521
Ainda que o Brasil registre déficit comercial com os Estados Unidos há 15 anos, as transações entre os dois países permanecem vitais. E o fato de os EUA terem perdido o posto de maior parceiro comercial para a China, em 2009, não muda uma verdade essencial. Enquanto o gigante asiático compra basicamente commodities, a maior economia do mundo absorve itens tecnológicos e produtos da indústria de transformação, sendo imprescindível para a indústria nacional.
Segundo a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham), trata-se de uma pauta bastante diversificada, que não se reproduz nas vendas a outros mercados. São 51 itens industriais que integram 70% das exportações aos EUA, de aviões a máquinas, passando por produtos químicos. No caso da União Europeia, são 22 produtos nessa proporção. Para a China, três, e todos commodities (soja, petróleo e minério de ferro).
“A balança comercial Brasil-EUA já foi muito mais composta por produtos manufaturados”, diz José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Enquanto nos anos 1990 as exportações eram basicamente de itens industriais, como autopeças, hoje há um peso maior de commodities. O petróleo lidera, representando 14% das vendas brasileiras para os Estados Unidos.
E a relação comercial está em alta. As exportações bateram recorde em 2024: US$ 40,3 bilhões. “A corrente [soma de importações e exportações] foi de US$ 81 bilhões, uma expansão de 8,2% com relação ao ano anterior. Os EUA representam 15,5% das nossas importações e 12% das nossas exportações”, reforça a economista Carla Beni, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Ela avalia que os produtos exportados pelo Brasil, como o aço, podem ser atingidos pelas novas tarifas do governo de Donald Trump. Mas, nesse caso específico, é um item que o país exporta para cem países. Apesar do peso da economia americana, há alternativas. Em qualquer item, ela afirma, trata-se de avaliar como importadores vão se comportar.
Se os compradores conseguirem repassar integralmente os custos aos consumidores internos, diminuindo sua margem de lucro, o efeito será pequeno. Se diminuírem os pedidos, os exportadores brasileiros precisarão encontrar novos mercados ou vender mais internamente. Seria um problema no caso do mel, por exemplo, em que as vendas para os EUA são muito importantes, argumenta.
Nesse quebra-cabeça, ainda é cedo para avaliações definitivas, inclusive porque os EUA estão negociando nos bastidores com vários países, o que pode mudar substancialmente o cenário drástico anunciado em 2 de abril. Além disso, mudanças podem ocorrer lentamente, pois há contratos já firmados, e a busca de novos parceiros, fornecedores ou compradores é um processo moroso.
Confira abaixo os principais produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos no primeiro trimestre de 2025. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:
Principais produtos exportados aos Estados Unidos | Jan 2022 – Mar 2025 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar um demo)
Os números deste ano são atípicos e não podem ser tomados como tendência. Ainda assim, são positivos. As exportações para os EUA atingiram US$ 3,57 bilhões em abril, alta de 21,9% na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). Importações somaram US$ 3,79 bilhões, expansão de 14% sobre o mesmo mês de 2024.
Já as exportações de aço (produtos semiacabados, lingotes e outras formas primárias de ferro ou aço), tarifadas em 25% a partir de março, caíram 23,2% em abril, assim como as de alumínio (73%), contra o mesmo mês de 2024. Nos quatro primeiros meses do ano, o Brasil aumentou suas exportações aos EUA em 3,7% e cresceu as importações em 14,6%.
São cifras ainda provisórias. “A China antecipou compras de soja do Brasil, para garantir alguns meses de abastecimento. Foram cargas e mais cargas antes dos prazos”, exemplifica Beni. Como os próprios EUA se anteciparam às tarifas, os dados de importação de produtos brasileiros também são deturpados, pondera.
E como ficam os preços? “Quando se trata de produto manufaturado, o preço é definido pelo exportador. Quando se trata de commodities, é definido pelo mercado ou pelo importador”, afirma Castro. Por isso, argumenta, os produtos manufaturados enviados pelo Brasil podem ser os mais atingidos.
Para o executivo da AEB, é preciso levar em conta que haverá exceções. Muitos produtos manufaturados no Brasil exportados para os EUA representam operações entre matriz e filiais. “Haverá um tratamento preferencial entre elas. Possivelmente o preço vai ser menor do que se estivesse vendendo para outra empresa”, avalia.
Outros itens do Brasil podem se beneficiar, acrescenta a professora da FGV. No caso de café torrado, por exemplo, que representou 4,7% das exportações em 2024, o país tem mais facilidade em encontrar outros compradores. E dificilmente os consumidores americanos absorverão um grande aumento de preços. É um caso de desvantagem para eles.
“É de se imaginar que o fluxo China-EUA seja menor. Isso traz oportunidades para o Brasil. No agro, por exemplo, o prêmio da soja nos portos brasileiros nunca esteve tão alto em relação a Chicago”, diz Nelson Ferreira, sócio sênior da consultoria McKinsey. É possível substituir importações americanas da China, e substituir importações chinesas dos Estados Unidos. Nos EUA, há abertura para os setores de mobiliário, vestuário, calçados e alguns eletrônicos, aposta. O Brasil deve enfrentar uma competição natural com México, América Central e países do sudeste asiático.
A composição básica do comércio brasileiro com os americanos não deve ser afetada. Por outro lado, no caso de o governo brasileiro retaliar com tarifas, isso poderia prejudicar a indústria nacional, pois bens de capital, como máquinas e equipamentos, subiriam de preço, assim como produtos farmacêuticos e veterinários. A economista da FGV vê pouca possibilidade de retaliação, no entanto.
Ela usa o exemplo do carvão, que é o sétimo produto importado pelo Brasil (3,5%). “A gente adquire carvão dos EUA para produzir aço, que exportamos para eles. Fazemos isso porque o nosso carvão tem baixa qualidade, baixa combustão”, explica. Desse modo, se a produção brasileira de aço for afetada, os exportadores americanos que vendem carvão poderão pressionar o governo Trump. E, como lembra Beni, os setores de energia, incluindo petróleo e gás, são fortes apoiadores do presidente americano.
Fonte: Valor Econômico
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