Economia

Argentina vê chance em tarifas ao Brasil, mas teme desvio de exportações

ago, 01, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202532

Representantes de câmaras industriais e empresariais argentinas receberam o anúncio das tarifas de 50% a produtos brasileiros pelo governo de Donald Trump com um misto de interesse em possíveis oportunidades de aumentar exportações para os Estados Unidos, e de temor de uma maior disputa com produtos brasileiros em outros mercados e até na própria Argentina.

“Pode ser uma oportunidade para a Argentina se conseguirmos substituir os produtos que o Brasil introduz no mercado dos Estados Unidos”, diz à CNN Salvador Femenía, porta-voz da Came (Confederação Argentina da Média Empresa).

Ele salienta, no entanto, que a situação pode gerar um problema para o empresariado argentino se, devido à proximidade e da maior abertura comercial do país sob o governo de Javier Milei, o Brasil tentar desviar para a Argentina parte da produção que até o momento era destinada aos EUA.

“É um temor que temos. Estamos em um momento de abertura, com muitos produtos de todas as partes do mundo entrando na Argentina. Muitas coisas que produzimos aqui também são fabricadas no Brasil”, explica.

Na prática, a preocupação da confederação é que diante deste cenário, mais mercadorias brasileiras passem a entrar no mercado argentino, o que pode afetar parte da produção local do país.

Outro ponto ressaltado pelo porta-voz é a recente valorização do peso, que pode tornar os produtos brasileiros mais competitivos que os argentinos no mercado interno do país de Milei.

Exportações de carne

Os empresários que atuam com venda de carne bovina também olham para a relação entre Brasil e EUA com atenção. Para a Ciccra (Câmara da Indústria e Comércio de Carnes e Derivados da República Argentina), a diminuição da presença de carne brasileira – mais barata que a da Argentina – pode ser uma oportunidade para melhorar os preços do produto vendido para o mercado americano.

Hoje, os EUA são o terceiro destino das exportações de carne argentina, com apenas 5,6% das vendas.

“Se o Brasil se retirar do mercado americano, se diminuírem muito as exportações ou aumentarem muito os custos, temos uma oportunidade para melhorar os preços de venda”, explica Miguel Schiariti, presidente da Ciccra.

Para o representante, a situação também abre a possibilidade de maiores vendas para os EUA, mas isso exigiria um aumento do estoque pecuário da Argentina, fortemente reduzido durante as administrações de Cristina Kirchner, que estabeleceu impostos e restrições à exportação de alguns cortes de carne.

Por outro lado, nas vendas para a China, principal comprador da carne bovina argentina, o conflito entre os EUA e o Brasil poderia representar um problema para a Argentina. Isso porque a maior presença do produto brasileiro a melhores preços deve impactar nas vendas para o gigante asiático, que consome 62,9% das exportações de carne bovina da Argentina.

“Não posso fazer futurologia, mas empresários com quem conversei avaliam que se o Brasil redirecionar exportações de carne dos EUA para a China, poderia gerar complicações, porque os preços do Brasil seriam menores dos que estamos vendendo para este país”, expressa.

Avaliação setor por setor

Já Román Guajardo, presidente da União Industrial da Região Rosário, importante polo industrial argentino, explica que diferentes setores ainda estão em fase de avaliação dos possíveis impactos da ordem executiva assinada por Trump nesta quarta-feira (30).

“Aqui na nossa região, que é uma das mais representativas do setor industrial do país, tem empresários vendo como oportunidades, e outros vendo como uma ameaça”, afirma.

Por um lado, explica Guajardo, a preocupação se dá justamente pelo excedente de produção brasileiro a melhores custos de produção e maiores volumes, que pode ser desviado dos EUA para outros mercados, inclusive com permeabilidade na própria Argentina e a preços mais vantajosos para o consumidor.

“Esse excedente tem que ir para algum lugar. Então setores com produtos muito parecidos aos vendidos pelo Brasil encaram a aplicação das tarifas de 50% ao Brasil pelos EUA com preocupação”, diz.

Mas segundo ele também a avaliação por alguns setores de que o momento é uma chance para que a Argentina passe a vender para o mercado norte-americano produtos que antes não conseguia frente à mercadoria brasileira, que por escala e custo de produção é mais barata.

O presidente da união industrial ressalta, no entanto, que o impasse entre EUA e Brasil ainda é muito insipiente e não há certezas sobre a real abrangência da medida até o início da sua aplicação, no dia 6 de agosto.

“Estamos acompanhando a situação e trabalhando com os associados para avaliar caso por caso e entender os possíveis impactos”, conclui.

Para além da conjuntura

Para o presidente da Fecoba (Federação de Comércio e Indústria de Buenos Aires), Fabián Castillo, o momento pode ser de oportunidade para a Argentina expandir presença no mercado norte-americano com manufaturados, como produtos têxteis, calçados e móveis, de maior valor agregado.

“A Argentina não tem produção suficiente para abastecer um grande mercado de consumo, como são os Estados Unidos. Essa situação com o Brasil pode fazer com que abramos os olhos para a necessidade de maiores incentivos ao crédito para pequenas e médias empresas, para obter máquinas mais modernas e aumentar nossa capacidade de atender esta demanda”, explica.

Fonte: CNN

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