Argentina emerge como vencedora da disputa EUA-China com pacote de US$ 20 bi e exportações recordes de soja
out, 01, 2025 Postado porLucas LorimerSemana202541
A guerra comercial em curso entre os Estados Unidos e a China revelou um vencedor inesperado: a Argentina.
Em um triângulo geopolítico pouco previsto, os Estados Unidos concederam um pacote de resgate de US$ 20 bilhões à Argentina, a China redirecionou suas compras de soja para longe dos agricultores americanos e os exportadores argentinos aproveitaram a oportunidade para conquistar uma fatia importante do maior mercado consumidor de soja do mundo.
Esse alinhamento deixou os produtores americanos indignados, a administração Trump dividida internamente e a China com maior poder de barganha em sua disputa com Washington.
China evita soja americana
Durante décadas, os agricultores dos EUA abasteceram a China, maior consumidora global de soja, com dezenas de milhões de toneladas por ano. Esse fluxo foi interrompido.
Desde maio, importadores chineses cessaram todas as compras de soja dos EUA, em retaliação às tarifas impostas por Washington. Como resultado, as exportações americanas para seu maior cliente evaporaram, criando um excedente doméstico e derrubando os preços na Bolsa de Chicago.
Esse vácuo foi preenchido pela América do Sul.
O Brasil, já fornecedor dominante da China, reservou 12 milhões de toneladas para embarque no final de 2025. Agora, a Argentina avançou agressivamente no mesmo espaço, apoiada por políticas governamentais favoráveis e por um aumento oportuno da demanda chinesa.
Milei aproveita oportunidade com a China
Em meados de setembro, o governo do presidente Javier Milei suspendeu temporariamente os impostos de exportação sobre soja, milho, trigo e seus derivados. As alíquotas, que chegavam a 26% para soja em grão e 24,5% para óleo e farelo de soja, foram reduzidas a zero. O resultado foi uma enxurrada de declarações de vendas.
Em apenas dois dias, a Argentina registrou quase US$ 7 bilhões em exportações de grãos, mais da metade destinadas à China.
O “feriado fiscal” coincidiu com um acordo em Nova York, no qual o presidente dos EUA, Donald Trump, prometeu a Buenos Aires um pacote financeiro de US$ 20 bilhões.
O objetivo era estabilizar o peso e reforçar as reservas, além de reduzir a dependência econômica da Argentina em relação a Pequim.
Mas o efeito imediato foi, no mínimo, paradoxal: a soja argentina, de repente mais barata e isenta de impostos, tornou-se a principal escolha dos compradores chineses que buscavam evitar fornecedores americanos.
China paga, Argentina vende
A resposta de Pequim foi rápida. Em poucos dias, cerca de 40 cargas — equivalentes a 2,66 milhões de toneladas de soja — foram reservadas para embarque em novembro e dezembro, a maior parte destinada diretamente a portos chineses. Essas vendas representaram mais da metade da demanda de curto prazo da China e elevaram os pedidos de exportação argentinos ao maior nível em sete anos.
A China deixou claro que pretende evitar os EUA. No ano passado, importou 105 milhões de toneladas de soja, incluindo 22 milhões dos americanos. Mas, nesta temporada, traders chineses indicaram que podem depender quase inteiramente da América do Sul até a próxima safra brasileira, prevista para o início de 2026.
Para a Argentina, a mudança significa bilhões de dólares em novas receitas; para Washington, um revés político e econômico.
O pacote de ajuda gerou indignação entre os agricultores americanos, que se veem como dano colateral do embate geopolítico.
A Associação Americana da Soja (ASA) criticou abertamente a decisão de Washington, alertando que os US$ 20 bilhões oferecidos a Buenos Aires acabam, na prática, subsidiando um concorrente enquanto os produtores americanos enfrentam preços em queda e mercados encolhendo.
Os futuros da soja em Chicago já recuaram para US$ 10,10 por bushel, pressionados pelo aumento repentino das exportações argentinas e pela ausência dos compradores chineses. A temporada de colheita no Meio-Oeste agravou o problema, com silos lotados de grãos sem compradores.
Agricultores em estados-chave como Iowa, Indiana e Minnesota — bases eleitorais tradicionais dos republicanos — expressaram preocupação de que os subsídios federais não consigam substituir a demanda de longo prazo da China.
Atritos no governo Trump
As consequências não ficaram restritas ao campo. Divisões dentro da administração Trump se aprofundaram nas últimas semanas, após imagens mostrarem o secretário do Tesouro, Scott Bessent, lendo uma mensagem durante a Assembleia Geral da ONU.
A mensagem, supostamente encaminhada pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins, lamentava que os EUA tenham socorrido a Argentina apenas para que Buenos Aires eliminasse as tarifas de exportação, reduzindo os preços para a China justamente no momento em que os agricultores americanos normalmente estariam vendendo.
O texto alertava de forma direta: “Isso dá mais poder de barganha à China contra nós.”
O vazamento evidenciou tensões internas: enquanto alguns veem o pacote como estratégia para limitar a influência chinesa na América do Sul, outros consideram que ele prejudica diretamente os produtores americanos.
China e EUA brigam, Argentina ganha
A dinâmica está clara.
O boicote chinês à soja americana não apenas atingiu os agricultores dos EUA, mas permitiu que a Argentina estreitasse seus laços com Pequim, apesar da ajuda financeira de Washington.
Embora o pacote de resgate estivesse condicionado ao fim da linha de swap cambial de US$ 18 bilhões da Argentina com a China, a realidade imediata é que os chineses estão enchendo seus silos com grãos argentinos — e não americanos.
Para Pequim, a estratégia é duplamente eficaz: garante o suprimento essencial e, ao mesmo tempo, cria um atrito entre Washington e seu lobby agrícola.
Para Buenos Aires, a disparada das exportações de soja significa entrada de divisas e maior confiança de mercado. Para os agricultores americanos, representa mais uma temporada de frustração e perdas.
Duplo ganho para a Argentina
O alinhamento incomum de ajuda financeira dos EUA e vendas recordes para a China colocou a Argentina em posição única.
O país recebe dólares de Washington para estabilizar sua economia e, ao mesmo tempo, yuans da China para impulsionar suas exportações. Para Milei, o resultado valida sua aposta de suspender impostos e explorar as tensões internacionais em benefício do país.
Para os agricultores americanos, os acontecimentos mostram a vulnerabilidade do setor agrícola aos conflitos geopolíticos. Sem acesso à demanda maciça da China, enfrentam excesso de oferta, preços em queda e crescente pressão política sobre o governo Trump às vésperas das eleições legislativas de 2026.
No balanço da guerra comercial, a Argentina emergiu como vencedora improvável — impulsionada pelo dinheiro dos EUA, pela demanda chinesa e por um mercado global remodelado pelo conflito entre as duas maiores economias do mundo.
Fonte: First Post
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