Navegação

Crise na IMO expõe divisões globais sobre descarbonização marítima

out, 20, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202544

Os historiadores da navegação que acompanham a Organização Marítima Internacional (IMO) precisariam voltar mais de 40 anos no tempo para encontrar um revés comparável ao que ocorreu na sexta-feira, com a paralisação do Net-Zero Framework (NZF).

Na sexta-feira, os Estados-membros votaram por adiar por um ano a implementação do NZF, lançando dúvidas consideráveis sobre o caminho do transporte marítimo rumo à descarbonização.

Foram 57 votos a favor do adiamento, 49 contrários e 21 abstenções. A divisão profunda entre os países indica uma possível fragmentação regional ainda maior das regulamentações sobre emissões marítimas — o que adiciona complexidade e incerteza para o setor — e talvez represente um alívio temporário para os motores convencionais.

Em 1984, a conferência diplomática sobre o projeto da Convenção Internacional sobre Responsabilidade e Compensação por Danos Relacionados ao Transporte Marítimo de Substâncias Perigosas e Nocivas (Convenção HNS) falhou em adotar a legislação. Uma versão revisada só foi apresentada dez anos depois, entrando em vigor em 1996.

Esse é apenas um exemplo de como qualquer adiamento na IMO pode se estender por mais de uma década.

Reação do mercado

Segundo analistas do banco de investimentos Jefferies, a indecisão da semana passada pode levar o setor a voltar aos motores convencionais nas novas encomendas de navios e até em parte dos que já estão em construção.

“Esperamos que muitos estaleiros mudem seus novos navios de ‘capazes de operar com combustível duplo’ para apenas ‘preparados para combustível duplo’, reduzindo o investimento inicial, especialmente nas entregas a partir de 2027. Se há algum benefício na paralisação da IMO, é que os custos do transporte marítimo podem cair”, afirmou o Jefferies em nota a clientes.

Divisão política

Dr. Martin Kröger, CEO da Associação Alemã de Armadores, afirmou no LinkedIn que o fracasso da última sessão do Comitê de Proteção do Meio Ambiente Marinho não se deve à falta de ambição do setor, mas ao fato de que “a política superou o pragmatismo.” “De um lado, a abordagem regional da União Europeia continua minando o sistema global que ela diz apoiar. Do outro, Estados Unidos e Arábia Saudita, guiados por seus interesses energéticos e petroquímicos de curto prazo, bloquearam o avanço de um marco global credível”, desabafou Kröger.

Temor de fragmentação regulatória

Patrick Verhoeven, diretor-geral da Associação Internacional de Portos e Portuários (IAPH), alertou: “Não sabemos aonde esse adiamento vai nos levar, mas tememos que abra espaço para mais medidas nacionais e regionais, ampliando o emaranhado regulatório e gerando consequências indesejadas.”

A World Shipping Council, que representa o setor de transporte de contêineres, afirmou que a IMO deve usar esse ano adicional para fechar lacunas e garantir um acordo global eficaz.

Sotiris Raptis, secretário-geral da Associação Europeia de Armadores, declarou: “A regulação global é essencial para assegurar igualdade de condições e viabilizar a transição energética do transporte marítimo internacional. Continuaremos trabalhando com nossos parceiros para garantir um acordo sobre o NZF.”

Pressão ambientalista

Dra. Alison Shaw, gestora da IMO na ONG Transport & Environment, disse que o adiamento deixa o setor marítimo “à deriva na incerteza.” “O mundo não pode permitir que intimidação e interesses particulares ditem o ritmo da ação climática. Países ambiciosos em relação ao clima devem aproveitar este momento para formar uma maioria sólida em apoio à descarbonização significativa. Serão eles os beneficiados pela economia do futuro, não pelos jogos geopolíticos do passado.”

A Sustainable Shipping Initiative (SSI) afirmou que o resultado da votação expôs as vulnerabilidades da IMO, a crescente politização das decisões e o consenso fragmentado entre regiões. “Antecipamos impactos mais amplos, conforme as administrações nacionais reagirem, as regulações regionais evoluírem e os mercados financeiros receberem sinais contraditórios sobre a direção de longo prazo”, alertou a SSI.

Conclusão

Em suas palavras finais na sexta-feira, um Arsenio Domínguez visivelmente abalado — secretário-geral da IMO — fez um apelo aos delegados: “Meu pedido é que não repitam a forma como negociamos esta semana. Isso não ajuda vocês mesmos, e não ajuda a organização.”

Fonte: Splash 247

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