Economia

Acordo Milei-Trump ameaça presença brasileira na Argentina

nov, 24, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202548

O acordo de cooperação em comércio e investimento entre os governos do americano Donald Trump e do argentino Javier Milei, anunciado em 13 de novembro, preocupou dirigentes da indústria brasileira pela possibilidade de mudanças nas cadeias produtivas, além da potencial perda de competitividade do Brasil no mercado vizinho.

A tratativa pode prejudicar o comércio brasileiro em diferentes níveis, segundo especialistas. O Brasil exporta para os argentinos, principalmente, itens da indústria de transformação, que respondem por mais de 90% dos embarques. De janeiro a outubro deste ano, o setor gerou US$ 14,9 bilhões em receita. A grande dúvida é quanto o comércio brasileiro pode perder.

Para os Estados Unidos, o Brasil envia majoritariamente grãos e óleos. Com o acordo, o país poderia perder vendas em alguns desses segmentos nos dois mercados. Ao mesmo tempo, com a competitividade em risco, teria mais dificuldade para direcionar produtos que hoje entram com facilidade na Argentina devido ao Mercosul.

Até outubro, o Brasil registra superávit de US$ 5,1 bilhões com a Argentina, o terceiro maior do país, atrás apenas de China (US$ 24,9 bilhões) e Holanda (US$ 7,8 bilhões). No mesmo período, quase 6% das exportações brasileiras foram destinadas ao mercado argentino. Nas importações, mais de 4,5% vieram da Argentina.

Um dos primeiros efeitos diretos do acordo Argentina–EUA é a possível perda de espaço dos produtos brasileiros, com a entrada de similares americanos mais baratos no país vizinho, afirma a professora de relações internacionais do Ibmec, Marcela Franzoni. Um dos setores mais ameaçados é o de veículos leves, acessórios e motores, que representaram 45,5% das exportações brasileiras para a Argentina entre janeiro e outubro.

Confira abaixo um histórico das exportações brasileiras via contêineres para a Argentina a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:

Exportações Brasileiras via Contêineres para a Argentina | Jan 2022 a Set. 2025 | TEU

Fonte: DataLiner (Clique aqui para solicitar uma demo)

Franzoni afirma que a indústria brasileira, pouco competitiva em vários segmentos, corre o risco de perder ainda mais espaço em mercados tradicionais, num momento em que as exportações para a China continuam altamente concentradas em petróleo e grãos.

Além disso, o comércio entre Brasil e Argentina é consolidado em produtos muito semelhantes, com destaque para o setor automotivo. Por isso, qualquer possibilidade de novos parceiros nessa área, como os Estados Unidos, abala contratos.

Ela também destaca um segundo impacto direto: o acordo “coloca em xeque a continuidade das normativas do Mercosul” e evidencia uma tendência — não apenas argentina — de defender a transformação do bloco em um tratado de livre-comércio com menor estrutura institucional. Isso ocorre porque as exportações individuais de países do Mercosul para a China aumentaram, enfraquecendo a lógica de integração produtiva regional.

Segundo Franzoni, o movimento argentino sinaliza pressão por abertura unilateral, ao mesmo tempo em que reforça uma característica histórica da diplomacia latino-americana: a dificuldade de construir negociações multilaterais robustas.

A vantagem do Brasil está justamente na capacidade produtiva de commodities, o que exige que a Argentina mantenha proximidade com os exportadores brasileiros, afirma Federico Servideo, presidente da Câmara de Comércio Argentina–Brasil.

Ele pondera que os efeitos concretos desse acordo ainda são incertos, pois faltam detalhes e novas reuniões entre Trump e Milei. Uma delas está marcada para 6 de dezembro, quando o presidente argentino viajará a Washington para o sorteio da Copa do Mundo.

Servideo ressalta que são justamente esses detalhes que definirão o impacto real sobre os fluxos comerciais, principalmente porque, até agora, o acordo se mostrou desigual para os argentinos, exigindo contrapartidas amplas — entre elas, a aceitação automática de todas as normas técnicas americanas. Isso significa que qualquer medicamento aprovado nos EUA passaria a ser aceito automaticamente na Argentina.

“As exceções fragilizam o acordo do ponto de vista argentino”, diz Servideo. Ele acrescenta que a negociação pareceu desequilibrada, com a Argentina fazendo 12 concessões, enquanto os EUA fizeram apenas uma, além de seis pontos ainda sem consenso. Por outro lado, entende que a atração de investimentos americanos, em meio a uma crise econômica, acelerou a tratativa, especialmente após o empréstimo-ponte de US$ 20 bilhões dos Estados Unidos à Argentina, em outubro, como parte de um plano de estabilização econômica.

Alguns setores argentinos podem ser beneficiados, como o de carnes, que poderia aumentar embarques aos EUA de 20 mil para 80 mil toneladas. Mas, para isso, o país precisa recompor os rebanhos, o que não é simples — cenário que favorece, de forma indireta, o Brasil, explica Servideo.

Ele defende que o maior impacto do acordo ocorrerá no fluxo de investimentos. Embora reconheça risco potencial para algumas vendas brasileiras, avalia que, por ora, o impacto comercial será limitado, já que “a economia argentina equivale a apenas um quarto da brasileira”.

José Velloso, presidente da Abimaq, concorda. O principal cliente externo do Brasil no segmento de máquinas e equipamentos são os EUA, posição que oscilou recentemente por causa do tarifaço. Em 2024, 26% das exportações brasileiras do setor foram destinadas aos Estados Unidos, enquanto a Argentina respondeu por 9%.

Mesmo que o acordo entre as Casas Branca e Rosada aumente a competitividade dos EUA no mercado argentino, especialmente com redução tarifária, no caso de máquinas e equipamentos o impacto tende a ser limitado. A parceria com o Brasil continuará forte, já que o segmento é isento de tarifas, o que inviabiliza perda significativa de mercado.

O Brasil é o principal fornecedor da Argentina no setor, com 24,9% do mercado (US$ 16,1 bilhões) entre janeiro e outubro. Os EUA forneceram US$ 5,8 bilhões (9% do total). A China é o segundo maior fornecedor, com US$ 15 bilhões — alta de 61,3% sobre 2024 e 23,1% do total, segundo o Indec, órgão similar ao IBGE argentino.

A Argentina perdeu competitividade industrial nas últimas duas décadas e passou a depender mais de produtos importados de Brasil, China e EUA, o que reduz sua capacidade de competir com manufaturados americanos e torna improvável uma substituição automática de fornecedores com o novo acordo.

Nos dez primeiros meses de 2025, os EUA representaram 9,2% das importações argentinas, atrás de China (10,8%) e Brasil (14,9%), segundo o Indec. Os destaques foram combustíveis e energia, com alta de 62,5% nas vendas americanas ao país em relação ao mesmo período de 2024.

Com base nos dados, Servideo observa que há um objetivo estratégico claro dos EUA: reduzir a dependência argentina em relação à China. “Trump quer substituir a presença chinesa, não a brasileira”, afirma. Mesmo assim, parte da indústria argentina vê riscos, devido à falta de investimentos internos em modernização e competitividade. O empresariado argentina espera a abertura econômica, com oportunidades nos setores de energia e mineração, prioridades do governo Milei.

Sobre o acordo Mercosul–União Europeia, Servideo afirma que ele não atrapalha de forma significativa, mas tampouco fortalece o bloco. Ele vê a integração produtiva como caminho inevitável, especialmente nas cadeias automotiva, química e energética, em um contexto no qual a Argentina precisa crescer, reforçar reservas e melhorar sua capacidade de pagamento.

Apesar do distanciamento político entre Lula e Milei, Franzoni avalia que a institucionalidade do Mercosul tende a prevalecer sobre divergências temporárias. E, mesmo com Trump se aproximando de lideranças ideologicamente alinhadas, como Milei, o custo de a Argentina sair do bloco é muito alto diante da crise econômica atual.

Fonte: Valor Econômico

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.