Economia

Exportações da China colocam país em rota de colisão com a Europa

dez, 12, 2025 Postado porSylvia Schandert

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As exportações chinesas estão levando o país a um conflito iminente com a Europa. O presidente francês, Emmanuel Macron, descreveu o desequilíbrio comercial com a China como “insuportável”, afirmando que o que está em jogo é “uma questão de vida ou morte para a indústria europeia”. Para a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, os vínculos do bloco com a China “atingiram um ponto de inflexão”.

A magnitude dos desequilíbrios comerciais com a União Europeia ficou clara recentemente, quando Pequim anunciou que seu superávit com o bloco atingiu um recorde próximo de 300 bilhões em 2025. Atualmente, o valor das exportações chinesas para a UE é mais que o dobro das importações, à medida que os vendedores chineses redirecionam produtos que enfrentam tarifas nos Estados Unidos.

“O choque da China na Europa está realmente começando a se fazer sentir”, disse Andrew Small, diretor do programa Ásia do Conselho Europeu de Relações Exteriores. “O que vimos nos últimos meses são níveis muito maiores de urgência — nem tudo vem a público, mas reuniões de crise sérias estão acontecendo.”

Segundo Small, que já assessorou von der Leyen em assuntos relacionados à China, o desfecho pode representar a maior revisão da política da UE em relação a Pequim em pelo menos uma década. Distraída nos últimos anos pela guerra na Ucrânia e, mais recentemente, pelas tarifas de Donald Trump, a UE voltou sua atenção para a China e prepara o que Small descreve como um pacote “represado” de medidas.

O bloco revelou neste mês um plano para garantir que suas indústrias não sejam ultrapassadas por concorrentes globais, à medida que a competição com os EUA e a China se intensifica. A Comissão Europeia, braço executivo da UE, também propôs a criação de um centro de segurança econômica para lidar melhor com tensões comerciais e enfrentar a ameaça de produtos baratos inundando o mercado único.

Espera-se ainda que a UE proponha critérios para investimentos estrangeiros que envolvam transferência de tecnologia, uso de conteúdo local e cadeias de valor internas.

O alerta surge enquanto outras grandes economias erguem barreiras comerciais. Legisladores mexicanos aprovaram nesta semana novas tarifas sobre importações asiáticas.

O tempo está contra a Europa. Economistas do Goldman Sachs estimam que a concorrência das exportações chinesas reduzirá o crescimento do PIB da Alemanha, Espanha e Itália em pelo menos 0,2 ponto percentual por ano entre 2026 e 2029.

O impacto das exportações chinesas pode atingir quase um terço dos empregos na zona do euro, segundo economistas do Banco Central Europeu, o que significa que mais de 50 milhões de trabalhadores podem ser afetados.

“A hostilidade externa contra os produtos exportados pela China vai aumentar, especialmente na Europa”, disse Stephen Jen, CEO do fundo Eurizon SLJ Capital, sediado em Londres. “Essa combinação de comércio explosivo e um renminbi desvalorizado é insustentável.”

Para a China, há poucas alternativas. A economia de 20 trilhões de euros da UE é um dos poucos mercados grandes o suficiente para absorver os produtos que antes eram destinados aos EUA.

Em Bruxelas, os riscos de um confronto ficaram claros neste ano, quando as tensões comerciais aumentaram entre China e Estados Unidos. Pequim então usou sua dominância em terras raras, afetando indústrias importantes — de veículos elétricos a turbinas eólicas — e provocando paralisações de produção em empresas europeias.

Embora a UE tenha destinado pelo menos 3 bilhões de euros ao longo do próximo ano para reduzir sua dependência das matérias-primas chinesas, na prática isso levará muitos anos até produzir efeitos significativos.

“Uma das razões reais para o avanço tão rápido das exportações chinesas é que o renminbi está significativamente desvalorizado em relação ao euro”, afirmou Jens Eskelund, presidente da Câmara de Comércio da UE na China. Isso funciona como um “subsídio” às exportações e reduz o poder de compra dos consumidores chineses.

Para cada contêiner que a Europa exporta para a China, quatro retornam no sentido contrário, disse Eskelund, destacando que esse desequilíbrio não apenas cresce, mas está se acelerando.

O superávit comercial da China com a Europa disparou durante a pandemia, quando consumidores passaram a comprar mais produtos para se adaptar ao confinamento e ao trabalho remoto.

Ao mesmo tempo, as empresas chinesas avançaram na cadeia de valor e começaram a competir mais diretamente com empresas estrangeiras em setores de alta tecnologia, como dispositivos médicos e carros de luxo. Com as importações chinesas estagnadas, a retomada das exportações tornou a relação comercial ainda mais desigual.

Como resultado, a China agora representa 7% das exportações da UE, mas fornece quase um quarto de todas as importações vindas de fora do bloco. O superávit chinês com a UE e o Reino Unido já responde por quase um terço de todo o seu saldo comercial global, que ultrapassou 1 trilhão pela primeira vez.

Essa assimetria significa que as empresas europeias estão perdendo vendas para a China e enfrentando mais concorrência doméstica de produtos baratos. Além disso, competem mais fortemente em outros mercados internacionais, à medida que empresas chinesas ampliam rapidamente o envio de carros e outros produtos para o resto do mundo.

A Alemanha é o epicentro dessa mudança nas relações comerciais com Pequim. Em 2019, a China registrava um déficit de 25 bilhões com a maior economia europeia. Nos primeiros 11 meses deste ano, isso se transformou em um superávit de 23 bilhões, devido ao colapso das importações alemãs.

O resultado é uma economia alemã estagnada, afetada por cortes de empregos e pela concorrência crescente da China dentro e fora do país. A indústria alemã tem eliminado mais de 10 mil postos de trabalho por mês neste ano, segundo a agência federal de estatísticas, Destatis.

Combinada a preços elevados de energia e desafios como o envelhecimento populacional, essa fraqueza levou os assessores do chanceler Friedrich Merz a reduzir a previsão de crescimento da Alemanha para abaixo de 1% no próximo ano.

A vantagem chinesa não se limita a produtos manufaturados de alta tecnologia, como veículos elétricos. Empresas do país continuam dominando a produção de bens de consumo baratos, roupas e calçados.

Os envios de produtos de baixo valor por sites de comércio eletrônico aumentam a cada ano desde a pandemia e cresceram mais 56% nos primeiros dez meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2024.

O rápido aumento das exportações “pode estar criando uma falsa sensação de segurança de que o foco atual da política chinesa em segurança e autossuficiência — enquanto colhe os benefícios de sua posição dominante no comércio global — é correto e sustentável”, segundo relatório recente da Câmara de Comércio da UE.

À medida que cresce a pressão por uma resposta, os países podem “não apenas usar instrumentos comerciais já existentes, como tarifas antidumping, mas também desenvolver novas ferramentas e abordagens para lidar com o que está se tornando uma situação grave e insustentável”, disse Wendy Cutler, ex-negociadora comercial dos Estados Unidos e atualmente integrante do Asia Society Policy Institute.

“Podemos ver a UE e outros adotarem novas medidas para limitar as importações chinesas ao longo do próximo ano”, afirmou.

Imagem gerada por Inteligência Artificial

Fonte: Valor Econômico

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