Regras de Comércio

China sinaliza interesse de longo prazo em acordo comercial com o Mercosul

dez, 22, 2025 Postado porSylvia Schandert

Semana202552

A China, segunda maior economia do mundo, continua sinalizando a diplomatas do Mercosul seu interesse em negociar um acordo de livre comércio com o bloco sul-americano, mesmo reconhecendo que, por ora, esse entendimento ainda está fora de alcance.

Pessoas familiarizadas com o tema disseram ao Valor que Pequim tem comunicado flexibilidade e disposição para manter o assunto na agenda, embora não espere avanços no curto prazo. O governo chinês parece adotar uma postura paciente, preparando o terreno para um eventual acordo no futuro.

O contexto atual é de realinhamento do comércio global, com países buscando cada vez mais acordos preferenciais como forma de diversificar exportações e se proteger dos efeitos de políticas unilaterais adotadas pelos Estados Unidos.

Em meio à instabilidade global, ideias que antes pareciam irreais passaram a ser ao menos consideradas com mais seriedade. O Mercosul, por sua vez, demonstra sinais de frustração com os sucessivos adiamentos da União Europeia na conclusão do aguardado acordo birregional.

Durante anos, o Uruguai tentou negociar um acordo bilateral com a China. Embora autoridades chinesas tenham demonstrado interesse, ficou claro posteriormente que esse movimento seria diplomaticamente inviável, pois poderia desagradar o Brasil e comprometer a coesão do Mercosul. Um acordo exclusivo com Montevidéu atingiria o cerne da unidade do bloco.

Mesmo anteriormente, um acordo preferencial entre China e Mercosul já era considerado complexo. Agora, pode se tornar ainda mais difícil, à medida que as exportações chinesas continuam em forte expansão. Em 2024, o Brasil registrou o maior aumento percentual de importações de produtos chineses entre os parceiros globais, com alta de 22%.

Neste ano, as exportações chinesas para o Brasil seguem crescendo em ritmo superior ao das exportações brasileiras para a China, reduzindo o superávit comercial do Brasil na relação bilateral. A maior parte das medidas antidumping em vigor no país tem como alvo produtos chineses.

Fatores políticos dentro do Mercosul também representam desafios, especialmente o alinhamento mais próximo da Argentina com os Estados Unidos. Washington tem adotado uma versão nova e mais assertiva da Doutrina Monroe e busca conter a influência chinesa na região.

Apesar da oposição dos EUA, o desempenho exportador da China continua a causar apreensão entre seus parceiros comerciais. Em novembro, o país registrou um superávit comercial de US$ 1 trilhão, sinal de sucesso na diversificação de mercados de exportação com produtos competitivos em preço e qualidade.

Ao mesmo tempo, Pequim começa a impor restrições ao acesso ao seu próprio mercado. Uma das preocupações emergentes entre parceiros comerciais é uma investigação em andamento que pode resultar em cotas de importação para a carne bovina. Caso se confirme, o Brasil estaria entre os países mais afetados.

O setor industrial brasileiro manifesta há anos desconforto com o fluxo comercial com a China. Ainda assim, em 2023, quando o país asiático sinalizou pela primeira vez interesse em um acordo com o Mercosul, representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmaram que as negociações não precisariam começar por um acordo de livre comércio completo. Eles sugeriram alternativas, como um entendimento focado em facilitação de comércio.

A posição estratégica da China no comércio global foi construída, em parte, por meio de uma ampla rede de acordos de livre comércio, que garantem preferências tarifárias mútuas para empresas chinesas e seus parceiros.

Atualmente, Pequim mantém 23 acordos de livre comércio em vigor, abrangendo 30 países e blocos regionais, como a ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático), que reúne 11 economias em rápido crescimento. Outros 10 acordos estão em negociação e oito encontram-se em fase de estudo.

Na América Latina, a China já possui acordos comerciais com Chile, Peru, Costa Rica e Equador. Há negociações em andamento com Honduras e Panamá, além de um estudo de viabilidade em curso com a Colômbia.

Apesar dos obstáculos atuais, a China avança de forma constante para a órbita do Mercosul — com a paciência que um regime autoritário permite — mantendo aberta a possibilidade de um acordo comercial preferencial no futuro.

Fonte: Valor Econômico

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