Novas tarifas mexicanas aprofundam temores de guerra comercial global
jan, 05, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202602
Após isenções parciais das amplas elevações tarifárias dos Estados Unidos, o Brasil inicia 2026 enfrentando novos aumentos de tarifas sobre suas exportações. Desta vez, os impostos mais altos vêm do México — adotados em um cronograma acelerado. Proposta pelo governo mexicano em setembro de 2025 e aprovada pelo Congresso no início de dezembro, a medida entrou em vigor na quinta-feira, 1º de janeiro de 2026, impondo tarifas de até 35% sobre importações de vários países com os quais o México não mantém acordos de livre-comércio, incluindo o Brasil.
O aumento tarifário, que segundo estimativas preliminares da Confederação Nacional da Indústria (CNI) pode afetar US$ 1,7 bilhão das exportações brasileiras, é amplamente visto como um efeito em cascata do choque tarifário imposto ao Brasil em 2025 pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O México foi o sétimo maior destino das exportações brasileiras em 2024 e, até novembro de 2025, ocupou a sexta posição, somando US$ 7,1 bilhões em embarques. Mais do que prejudicar o comércio com um mercado relevante para o Brasil, porém, as tarifas mexicanas podem criar um precedente para medidas semelhantes, alimentando uma guerra tarifária com consequências globais — não apenas para fluxos e custos comerciais, mas também para as relações internacionais de forma mais ampla.
O governo mexicano afirmou que as tarifas têm como objetivo fortalecer a produção doméstica e proteger cerca de 350 mil empregos em setores sensíveis como calçados, têxteis, vestuário, siderurgia e indústria automotiva.
Um estudo da CNI concluiu que a China deve ser o país mais afetado pelas medidas, seguida por outras nações asiáticas como Coreia do Sul, Índia e Tailândia. O Brasil deve ser o quinto mais impactado. O relatório aponta que as tarifas mexicanas podem atingir 232 produtos brasileiros, totalizando US$ 1,7 bilhão, o equivalente a 14,7% das exportações do Brasil para o México em 2024.
Confira a seguir um histórico das exportações brasileiras via contêineres para o México a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:
Exportações Brasileiras via Contêineres para o México | Jan 2022 – Nov 2025 | TEU
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demo)
Questionado, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) reiterou nota divulgada em 12 de dezembro, após a aprovação das tarifas pelo Congresso mexicano, afirmando que “tem mantido contato com as autoridades mexicanas para tratar dos possíveis efeitos das alterações tarifárias”.
O problema, alertam especialistas, é que a iniciativa do México pode ser apenas o início de uma onda de novas medidas tarifárias, quase sempre justificadas como forma de proteger a indústria doméstica.
“A decisão do México de impor tarifas contra o Brasil é, infelizmente, o primeiro passo para consolidar no mercado internacional uma prática de ações tarifárias unilaterais”, afirmou José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). “Nesse cenário, qualquer outro país pode adotar tarifas livremente, sem saber quais serão as consequências, muito menos se a imposição de tarifas mais altas gerará ou não reciprocidade de outros países.”
Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de comércio exterior, observou que o protecionismo global vem aumentando, dando continuidade a medidas iniciadas por Trump. “Acabamos de ver o anúncio de uma tarifa de salvaguarda sobre a carne bovina pela China. O mundo inteiro vem ampliando suas medidas de proteção.”
Barral também citou a decisão da Índia de impor, por três anos, uma tarifa de 11% a 12% sobre determinados produtos siderúrgicos. O governo indiano anunciou a medida em 30 de dezembro como parte de um esforço para conter embarques provenientes da China. “Isso terá um grande efeito no mercado internacional”, disse. “Infelizmente, reflete a disseminação de medidas protecionistas pelo mundo — e o México agora segue esse caminho.”
“O padrão das guerras comerciais não é bilateral”, disse Livio Ribeiro, economista e sócio da consultoria BRCG. “Elas acabam se tornando guerras comerciais que se espalham gradualmente, empurrando-nos para um mundo mais autárquico, com tarifas mais altas e fluxos comerciais restringidos em algum grau. O mundo para o qual caminhamos é um novo equilíbrio com menos cooperação, custos mais elevados e o apelo sedutor de proteger a indústria doméstica — algo que nunca funcionou e não vai funcionar agora.”
Para Castro, da AEB, o aumento tarifário do México é um “precedente perigoso”. Segundo ele, pode levar países a impor tarifas mais altas para compensar o que outros já adotaram. “No início, basicamente, Trump impôs tarifas. Já estamos enfrentando as tarifas do México, e outro país pode surgir de repente. Isso pode levar a um desequilíbrio tarifário global, o que é ruim para o comércio mundial.”
“O México estava sob pressão dos Estados Unidos para adotar essas medidas”, disse Barral, da BMJ. Ele observou que ainda é necessário avaliar o impacto sobre setores abrangidos por acordos específicos entre Brasil e México, como os setores automotivo e de determinados produtos químicos. “O Brasil terá de acelerar acordos de livre-comércio por meio do Mercosul.”
Atualmente, o Brasil não possui um amplo acordo de livre-comércio com o México. No entanto, conta com os chamados Acordos de Complementação Econômica (ACEs), como o que abrange o setor automotivo.
O principal alvo das novas tarifas mexicanas é a Ásia — especialmente a China —, disse Ribeiro. “A medida é muito mais direcionada à Ásia, sob o argumento de proteger a indústria doméstica e alinhar a política tarifária do México à dos Estados Unidos. Há oposição interna no México, com preocupações sobre aumento de custos e impacto na inflação. Claramente, isso não vai levar à reindustrialização mexicana.”
Ribeiro afirmou que o perigo de uma guerra comercial surge quando começa uma reação em cadeia, na qual todos passam a taxar todos sob o argumento de proteção e equalização tarifária. “Infelizmente, é exatamente isso que estamos vendo no caso mexicano. É uma medida ruim, mas não será isolada. Nesse sentido, devemos esperar políticas semelhantes de outros países. Essa é a principal questão que precisamos observar daqui para frente. Em guerras comerciais, você sempre sabe como elas começam — nunca sabe como terminam”, disse Ribeiro, que também é pesquisador associado do FGV Ibre.
Fonte: Valor International
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