Brasil vê ‘efeito dominó’ após acordo com UE, e Canadá é próxima aposta
jan, 20, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202604
O governo brasileiro espera que a assinatura do acordo de livre-comércio entre Mercosul e União Europeia, neste sábado (17), inaugure uma espécie de “efeito dominó” para negociações de mesma natureza entre o bloco sul-americano e outros países. Isso porque o Brasil já tem sido procurado para acelerar tratados comerciais semelhantes desde o fim de 2025. O mais promissor deles é a negociação entre Mercosul e Canadá. Sobre este caso, o Valor apurou que as conversas estão avançadas, e a expectativa do Itamaraty é assinar uma zona de livre-comércio com o governo canadense ainda em 2026.
“O acordo com o Canadá tem, por si, um forte impacto político, por ser parte do bloco econômico USMCA [Acordo Estados Unidos-México-Canadá]. Por se tratar de um acordo de livre-comércio, e não uma união aduaneira ou mercado comum, os países-membros podem negociar individualmente. A expectativa natural do acordo com o Canadá é o acesso a mais um mercado, e em alguns setores de produtos agrícolas e primários a substituição de uma fatia do comércio entre Canadá, EUA e México por produtos advindos do Mercosul”, afirma Gustavo Monferrari Viana, sócio tributário e de comércio exterior da Simões Pires Consultoria.
A derrubada das barreiras tarifárias com o Canadá empolga negociadores brasileiros, que consideram simbólica a possibilidade de fechar acordo com um vizinho dos Estados Unidos. O presidente americano, Donald Trump, capitaneou o tarifaço contra Brasil, Canadá e diversos países no ano passado em uma escalada contra o multilateralismo defendido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nos últimos meses, segundo interlocutores, Lula desenvolveu afinidade e se aproximou significativamente do primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, o que tem aberto caminho para que a negociação avance.
Partiu de Carney, por exemplo, o convite para que Lula participasse no ano passado da reunião do G7, como é conhecido o grupo que reúne sete grandes economias desenvolvidas do planeta. O Brasil não faz parte do grupo e, portanto, não tem direito a participar desses encontros normalmente.
Em 2025, o Canadá foi um dos 40 mercados que registraram recorde de compras de produtos brasileiros, junto de países como Índia, Turquia, Paraguai, Uruguai, Suíça, Paquistão e Noruega. Em números absolutos, o Brasil exportou US$ 7,2 bilhões para os canadenses, ao longo do ano passado, e importou US$ 3,1 bilhões em produtos, o que torna a economia brasileira superavitária na balança comercial entre os dois países.
Atualmente, as exportações brasileiras para o Canadá são baseadas principalmente em minérios, como ouro em estado bruto, e alumina calcinada, mais conhecida como óxido de alumínio. Esses produtos saem, principalmente, de Estados como Minas Gerais, em primeiro lugar, Bahia, Maranhão e Pará.
Segundo fontes da área internacional do governo, negociadores do Canadá devem passar por Brasília, no mês que vem, justamente como forma de realizar uma nova rodada de negociações com o bloco sul-americano. O Brasil também convidará para esse encontro representantes da diplomacia de Paraguai, Argentina e Uruguai, outros países que precisam chancelar os termos do acordo.
Um segundo desdobramento positivo do acordo entre Mercosul e União Europeia é a possibilidade de o Brasil destravar uma negociação com o Reino Unido, formado por Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte. O Valor apurou que integrantes da chancelaria brasileira receberam sinais de que o bloco teme ficar para trás por causa da proximidade física com a UE. Por isso, segundo interlocutores, a região já estaria dando mais celeridade às conversas com os países sul-americanos.
Há ainda outro caso derivado do acerto com os europeus. Trata-se do Japão, terceiro maior parceiro comercial do Brasil na Ásia depois de China e Índia. Uma fonte com acesso às tratativas explicou que recentemente a diplomacia japonesa, que sempre apresentou resistências a esse tipo de acordo com o Mercosul, passou a enviar sinais de que pode ser mais maleável na mesa de negociação. Não está claro, no entanto, se há espaço, de fato, para discutir uma zona de livre-comércio com o Japão ou se os asiáticos vão preferir um acordo de comércio preferencial (ACP).
Isso mostra que, após anos de isolamento, o Mercosul pode estar vivendo uma nova fase em sua história geopolítica. “O Mercosul estava isolado. O último acordo tinha sido em 2011, com a Palestina, e 2010, com o Egito. Passaram-se mais de 12 anos até assinarmos com Singapura em 2023, depois com o EFTA [formado por Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça] e agora com a União Europeia. Estamos encaminhando acordos com os Emirados Árabes Unidos e aumentando linhas tarifárias de preferência”, ponderou ao Valor o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Serviços, (Mdic), Geraldo Alckmin.
Para Marsílea Gombata, pesquisadora sênior do Núcleo de Pesquisa em relações internacionais da Universidade de São Paulo (Nupri-USP) e professora de Relações Internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), “curiosamente, o protecionismo do governo Trump parece estar levando o Brasil a uma nova fase em termos de política comercial”.
“O Brasil, conhecido por seu protecionismo, agora busca acordos de livre-comércio a fim de garantir suas exportações”, diz a especialista.
Ainda que esteja inaugurando uma etapa nova, o bloco sul-americano tem, historicamente, experimentado desavenças ideológicas que acabam solapando desenvolvimentos conjuntos. Na atual composição do bloco, por exemplo, Lula tem divergências escancaradas com o presidente da Argentina, Javier Milei. A dúvida, segundo os especialistas, é se isso pode atrapalhar a conclusão de novos acordos, como no caso do Canadá.
“Chegar até aqui na costura Mercosul/UE não foi fácil e exigiu convencimento de parte do setor manufatureiro. Resta saber se haverá convergência entre todos os países do Mercosul para que outros acordos como o do Mercosul/União Europeia avancem. Desavenças políticas-ideológicas têm dificultado o historicamente desconcertado caminhar do Mercosul. A ideia de uma zona de livre-comércio com o Canadá não parece um tópico de simples discussão”, diz.
Desde o ano passado, o Mercosul já costurava acordos de livre-comércio com Indonésia, México, Vietnã, Coreia do Sul, Emirados Árabes e Líbano e, por fim, Índia, inclusive com uma missão do governo brasileiro agendada para fevereiro em Nova Déli. Mas a assinatura do acordo com a União Europeia e a cruzada de Trump contra o multilateralismo deram nova tração para negociações com países que, segundo diplomatas brasileiros, podem levar o Mercosul a um novo e mais competitivo patamar comercial.
Fonte: Valor Econômico
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