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Entrevista: DatamarLab aposta na ciência para transformar dados de comércio exterior em inteligência aplicada

jan, 19, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202604

Concebido como um braço estratégico da Datamar, o DatamarLab nasce com a proposta de se tornar um centro de excelência em pesquisa aplicada, desenvolvimento de soluções tecnológicas e formação prática de talentos voltados à Inteligência de Cargas do Comércio Exterior. Em um cenário marcado por disrupções logísticas, competição crescente e pressões por sustentabilidade, o laboratório aposta na integração entre ciência, dados e tecnologia para transformar informação em inteligência acionável.

Sob a liderança de Walter Teixeira Lima Junior, pesquisador em Sistemas Cognitivos Artificiais e Robótica Social na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultor do projeto, o DatamarLab reúne pesquisadores acadêmicos e especialistas de mercado, combinando rigor metodológico e aplicação prática. Nesta entrevista, o professor detalha os fundamentos da iniciativa, a aproximação entre ciência e mundo corporativo e o papel da tecnologia na construção de decisões mais eficientes e sustentáveis.

Pergunta: Como você definiria o DatamarLab e qual é a importância desse projeto?

Resposta: O DatamarLab é a junção do conhecimento científico de ponta com a experiência de mercado acumulada pela Datamar ao longo de décadas. A ideia é trabalhar na sinergia entre esses dois mundos. Existe hoje uma barreira muito grande dentro das empresas entre o conhecimento científico e a prática corporativa, o que nos torna, muitas vezes, dependentes de tecnologias desenvolvidas no exterior, sem considerar plenamente a nossa realidade. Um projeto interdisciplinar como o DatamarLab cria um espaço onde diferentes áreas do conhecimento podem dialogar. A tecnologia é frequentemente vista como algo excessivamente complexo, mas o ser humano lida com múltiplas dimensões ao mesmo tempo. Não existem inteligências artificiais que entreguem respostas prontas, mas sim caminhos possíveis, que precisam ser avaliados sob critérios de eficiência, sustentabilidade e atenção ao contexto particular de cada decisão tomada.

P: O DatamarLab se propõe a ser um centro de excelência em pesquisa aplicada e formação de talentos, algo ainda pouco comum no ambiente corporativo. O que o mundo empresarial pode aprender com a ciência?

A ciência oferece metodologia, diretrizes conceituais e rigor no desenvolvimento de projetos. Muitos dos avanços mais relevantes surgem a partir de pesquisas experimentais, que permitem testar hipóteses antes de levá-las ao mercado. Na indústria, quando um novo modelo é adotado, ele já precisa funcionar de forma eficiente. A pesquisa científica permite justamente antecipar esse processo, criando soluções que já nascem mais maduras e colocam as empresas à frente da concorrência. Hoje, o excesso de expectativas em torno da inteligência artificial generativa tem prejudicado decisões estratégicas. Há uma ideia disseminada de que essas ferramentas são uma panaceia, que resolvem qualquer problema, o que não é verdade. No DatamarLab, o foco está no que é factível, no que está ancorado na realidade. Muitas empresas acabam paralisadas ao investir em soluções que não evoluem. A ciência ajuda a apontar tendências de forma realista e a conectá-las às necessidades concretas do mercado.

Como surgiu a parceria com a Datamar e por que a empresa foi escolhida para esse projeto?

Existe uma pressão crescente de stakeholders para que as empresas adotem inteligência artificial, muitas vezes de forma desconectada da realidade operacional. Essa pressão acaba recaindo sobre as áreas de tecnologia com expectativas irrealistas. A ciência é fundamental para trazer esse debate de volta ao terreno do possível. A Datamar, como provedora de dados, ocupa uma posição estratégica porque trabalha com informações ancoradas na realidade do comércio exterior. Dados de qualidade são essenciais para a tomada de decisão humana. Existem tarefas que apenas as máquinas conseguem executar e outras que dependem inteiramente do julgamento humano, especialmente em mercados complexos como o atendido pela Datamar. O laboratório parte desse entendimento para aprimorar processos e gerar competitividade, respeitando o contexto em que as decisões são tomadas.

Que tipos de técnicas, ferramentas e metodologias o DatamarLab pretende aplicar ao integrar inteligência artificial e machine learning à análise de dados de cargas?

O projeto parte da junção entre a expertise marítima da Datamar e o conhecimento em inteligência artificial. Um terceiro eixo fundamental é a simbiose humano-máquina, em que o ser humano permanece como tomador de decisão, apoiado pela tecnologia. As ferramentas oferecem bases estruturais e conceituais, mas interagem com os usuários em um processo de aprendizado mútuo. Estamos lidando com problemas complexos, nos quais a decisão humana ainda é insubstituível. A Datamar teve a coragem de apostar nesse caminho, unindo sua experiência de mercado ao conhecimento científico para desenvolver produtos experimentais que, posteriormente, podem ser transformados em soluções aplicáveis.

Como o DatamarLab enxerga o papel da tecnologia na agenda de sustentabilidade logística?

A sustentabilidade é hoje um ponto central e passa também pela dimensão da percepção humana. Muitas dessas noções ainda estão em consolidação. Durante muito tempo, por exemplo, acreditou-se que a água era um recurso infinito. Isso demonstra que o conhecimento que temos sobre sustentabilidade é constantemente atualizado. A inteligência artificial, isoladamente, não resolve essas questões. Quando associada ao ser humano, porém, ela pode ampliar a capacidade de percepção e análise, abrindo caminho para novas interpretações. A IA trabalha a partir do passado, enquanto o ser humano projeta o futuro, porém nem sempre de forma realista. Com bases de dados estruturadas e inteligentes, alinhadas ao entendimento da realidade, o processo decisório se torna mais eficiente. A tecnologia, nesse contexto, ajuda a destravar decisões mais conscientes sobre rotas, uso de infraestrutura e impactos ambientais.

Por fim, como o DatamarLab pode influenciar a forma como o comércio exterior da América do Sul será analisado e operado nos próximos anos?

O principal impacto do DatamarLab é mostrar que é possível olhar para o futuro de forma realista, com processos baseados em conhecimento científico estruturado. Esse direcionamento é o que vai orientar o laboratório e contribuir para uma nova forma de analisar, planejar e operar o comércio exterior na região, sempre conectando ciência, dados e mercado.

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