Ásia ganha espaço no comércio do Brasil em meio à mudança de política de Trump
fev, 02, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202606
A política comercial e externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impulsionou um movimento estratégico da China e de outros países asiáticos em direção a novos mercados, aprofundando sua dominância nas importações brasileiras no período pós-pandemia. Essa mudança deixou outras regiões, incluindo os vizinhos sul-americanos do Brasil, com participação comercial reduzida.
Economistas afirmam que essa transformação fortaleceu a complementaridade das relações comerciais entre o Brasil e os países asiáticos. A questão agora é como esses laços resistirão às atuais mudanças geopolíticas.
Os países asiáticos representaram 38,9% das importações do Brasil em 2025, acima dos 33,6% em 2019. Esse salto de 5,3 pontos percentuais ocorreu enquanto outras regiões perderam espaço.
A participação da União Europeia caiu 0,9 ponto. Oriente Médio, África e Oceania recuaram 0,1 ponto cada, e a América do Norte caiu 3,3 pontos. A participação da América do Sul diminuiu 1,8 ponto, incluindo uma queda de 1,3 ponto para o bloco do Mercosul. A única região que ganhou participação além da Ásia foi a América Central e o Caribe, que subiu de 0,4% para 0,7%.
No total, as importações brasileiras cresceram 50,8% entre 2019 e 2025, enquanto as compras da Ásia dispararam 74,4%. A China liderou, com alta de 96,9%, alcançando US$ 70,93 bilhões em 2025.
Confira a seguir um histórico das importações brasileiras da China a partir de janeiro de 2022. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:
Importações brasileiras via contêineres da China | Jan 2022 a Nov 2025 | TEU
Fonte: DataLiner (Clique aqui para solicitar uma demo)
A Índia ficou em segundo lugar entre os fornecedores asiáticos, com um total menor, de US$ 8,35 bilhões, mas um forte aumento de 84,1%. O país superou Coreia do Sul e Japão, que ocupavam a segunda e terceira posições em 2019. As importações desses dois países cresceram apenas 5% e 27,7%, respectivamente, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
Exportações
No lado das exportações, as mudanças na participação regional foram menores e mais distribuídas. A Ásia absorveu 43,1% das exportações brasileiras em 2025, alta de 0,9 ponto em relação a 2019.
A participação das exportações para a África subiu 1 ponto e para a União Europeia 0,7 ponto. O Mercosul ganhou 0,7 ponto com a retomada das vendas para a Argentina, mas a América do Sul como um todo caiu 0,3 ponto. O Oriente Médio teve queda semelhante, enquanto as exportações para a América do Norte, afetadas pelas tarifas americanas, recuaram 2,1 pontos.
Incertezas futuras
Incertezas pairam sobre o futuro desses padrões comerciais. Um aguardado acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul foi assinado em 17 de janeiro, mas quatro dias depois o Parlamento Europeu decidiu enviá-lo para revisão jurídica, processo que pode levar dois anos. Paralelamente, a UE assinou um acordo separado com a Índia no fim de janeiro.
Ligia Maura Costa, professora da FGV EAESP, afirmou que o novo acordo com a Índia pode reduzir ainda mais a disposição política da UE para avançar com o tratado do Mercosul, especialmente diante da resistência interna do setor agrícola.
Economistas também observam o que alguns chamam de “Doutrina Donroe” — uma adaptação da Doutrina Monroe por Trump que coloca as Américas no centro da política de segurança dos EUA. Isso, somado às altas tarifárias americanas, pode remodelar ainda mais a dinâmica do comércio global.
André Valério, economista do Banco Inter, disse que o impacto dependerá de como o restante do mundo reagir. Segundo ele, Trump busca uma nova ordem mundial baseada em esferas de influência.
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirmou que as políticas comerciais de Trump estão estimulando o protecionismo global. China e México já impuseram tarifas que afetam produtos brasileiros, e outros países podem seguir o mesmo caminho. O Brasil continua vulnerável às mudanças na relação entre EUA e China.
No ano passado, a China aumentou as compras de soja brasileira, mas novos acordos entre EUA e China poderiam beneficiar produtores americanos e prejudicar as exportações do Brasil. “O Brasil precisa de uma estratégia de comércio exterior”, disse Castro. “Hoje o mundo age, e o Brasil apenas reage.”
Valério acrescentou que, em 2025, diante da onda tarifária americana, exportadores brasileiros buscaram novos mercados e parcerias. Ele acredita que o melhor caminho para o Brasil é diversificar e firmar novos acordos comerciais para fortalecer sua integração global. “Está ficando claro que os EUA já não são mais o primeiro aliado.”
Ele acrescentou que a China surge como um parceiro comercial mais estável e economicamente mais forte.
Alta de bens duráveis asiáticos
Em 2025, o Brasil registrou um aumento incomum nas importações de bens de consumo duráveis da Ásia, como eletrodomésticos e pequenos eletrônicos, disse Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador do FGV Ibre. A tendência inclui veículos elétricos chineses, cujas importações começaram em 2024 e devem continuar.
Em resposta à guerra comercial de Trump, China e outros países asiáticos passaram a diversificar mercados. Mesmo com a queda nas exportações para os EUA, a China terminou 2025 com crescimento total das exportações e superávit comercial recorde.
Dados do governo chinês mostram alta de 5,4% nas exportações totais, apesar da queda de 19,9% nas vendas aos EUA.
Segundo Ribeiro, Brasil e Ásia — especialmente a China — estão cada vez mais complementares em seus perfis comerciais. Esse processo ocorre há quase uma década, e é natural que a Ásia, principalmente a China, se torne o principal parceiro comercial do Brasil.
Valério acrescentou que a presença crescente da China no Brasil reflete um aumento de investimentos recentes. Após a forte queda dos juros em 2020, os investimentos em infraestrutura cresceram e o mercado de capitais amadureceu, elevando a formação bruta de capital fixo para cerca de 17%–18% do PIB, patamar que historicamente gera demanda por importações.
“Como a China é o núcleo industrial do mundo, grande parte desse investimento se traduziu em importações vindas da China e do restante da Ásia”, disse.
Johanna Guevara Mendez, consultora de comércio internacional, afirmou que as importações brasileiras da China se diversificaram rapidamente desde a pandemia, quando o país também passou a fornecer vacinas.
Do lado das exportações, investimentos chineses no agronegócio brasileiro — especialmente na soja — também são relevantes. Em 2025, 79% das exportações brasileiras de soja tiveram a China como destino, segundo a Secex.
Ribeiro destacou ainda uma nova tendência: investimentos chineses no Brasil às vezes incluem planos de usar o país como plataforma de exportação, especialmente para bens duráveis, como veículos. “Podemos ver o Brasil se tornar uma base para exportações chinesas para a América Latina e outras regiões do hemisfério sul, possivelmente até a África”, afirmou.
Imagem gerada por inteligência artificial
Fonte: Valor International
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