‘Onças brasileiras’ devem sair ganhadoras de acordo UE-Mercosul
fev, 09, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202607
Apesar de contarem com participação menor da União Europeia em suas exportações totais, Estados conhecidos como “onças brasileiras” devem sentir um impacto positivo maior do acordo comercial do bloco com o Mercosul. É o que aponta um relatório do Futura Inteligência, instituto de pesquisa da Apex Partners.
A ideia de “onças brasileiras” faz referência aos “tigres asiáticos”, grupo de países que lideraram o crescimento daquele continente na segunda metade do século XX. No caso brasileiro, as “onças” representam Estados que apresentam um conjunto de fatores como desenvolvimento econômico consistentemente acima da média nacional, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) mais elevado, eficiência governamental e estabilidade institucional.
A Apex considera como “onças brasileiras” os Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Goiás e, em menor medida, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
As onças brasileiras tiveram 12,9% de suas exportações destinadas à UE em 2025, uma participação inferior aos 14,3% observados para o Brasil como um todo no período, aponta o relatório.
Ainda assim, diz, a expectativa é de um impacto positivo mais expressivo do acordo na economia das onças, porque a pauta exportadora desses Estados tem participação maior de commodities e produtos da agroindústria, segmentos que tendem a ser mais beneficiados com a entrada em vigor das novas regras comerciais.
A participação da agroindústria no valor das exportações para a UE é de 67,4% entre as onças, ante 23,8% nos demais Estados, segundo a Apex.
Os três principais produtos exportados pelas onças à UE taxados atualmente são café não torrado (US$ 6,2 bilhões), farelos de soja e outros alimentos para animais (US$ 3,2 bilhões) e tabaco (US$ 1,1 bilhão). Esses produtos enfrentam tarifas médias de exportação de 4,2, 1,6% e 5,6%, respectivamente. Com o acordo, boa parte do café deve ter uma eliminação imediata das tarifas, enquanto farelos de soja/outros alimentos para animais e tabaco passarão por uma eliminação gradual, segundo a Apex.
Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre) também aponta a região Centro-Oeste como a de maior ganho potencial com acordo, pela produção de carne e soja, além de ver ganhos líquidos claros para o Sul, forte em carnes, fumo e alimentos processados. Ambas são regiões que contam com Estados onças.
Mas o levantamento do FGV Ibre chama a atenção também para o ganho potencial do Nordeste, principalmente pela produção de frutas tropicais, mel e açúcar.
“Além disso, o Nordeste importa pouco da UE, o que tende a estimular mais as exportações da região do que gerar ameaças por meio das importações, já que a região não possui parque industrial significativo que possa ser fortemente afetado pela concorrência externa”, afirma Flávio Ataliba, pesquisador associado e coordenador do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Nordeste do FGV Ibre.
Diferentemente do Norte – que tem produtos naturais com potencial de exportação à UE, especialmente os ligados à floresta amazônica, mas que vai enfrentar problemas nas barreiras não tarifárias do acordo, com exigências sanitárias e fitossanitárias -, o Centro-Oeste já atende a muitos desses critérios, aponta Ataliba. Por lá, diz, o desafio maior será a produção se condicionar à agenda ambiental e de rastreabilidade da produção.
Já no Nordeste, as dificuldades estruturais se relacionam à capacidade dos produtores de escoar sua produção para a Europa, afirma. “Isso envolve infraestruturas ferroviárias e rodoviárias adequadas, além de maior eficiência logística nos portos da região para viabilizar as exportações.”
Parte das vantagens das onças brasileiras, como Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná, é exatamente já ter uma infraestrutura logística para ajudar a escoar o potencial aumento das exportações, aponta a Apex.
Apesar de muitas cidades nos Estados onças também já terem um IDH relativamente elevado, Orlando Caliman, diretor econômico da Apex Partners, diz ver potencial de ganhos com o acordo para a sociedade de uma forma mais ampla, não apenas para grandes latifundiários.
“No Espírito Santo, o tamanho médio das propriedades é de 33 hectares; em Santa Catarina, de 32 hectares. São pequenas propriedades, no Espírito Santo, de café, mamão, gengibre; em Santa Catarina, de frutas, frango. Muitos já produzem, inclusive, com certificação. Eu acho que o pequeno produtor tem chance até de se antecipar aos ganhos potenciais lá na frente.”
Para o Nordeste, no entanto, Ataliba diz que o cenário é mais complexo. “É uma região que, historicamente, apresenta condições inferiores em termos de capital humano e de mão de obra qualificada, o que pode dificultar a inserção internacional. Além disso, como a atividade econômica no Nordeste é mais pulverizada, há maior dificuldade de regulação de todos esses exportadores”, afirma.
Em 2025, a UE representava US$ 49,8 bilhões das exportações (14,3%) do Brasil e US$ 50,3 bilhões das importações (17,9%). A expectativa, segundo a Apex, é de crescimento de cerca de 3% tanto nas exportações quanto nas importações do Brasil até 2040.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estimou, por causa do acordo, um aumento de 0,46% no PIB do Brasil até 2040. Caso a projeção se concretize, o Brasil seria o país com maior ganho percentual de PIB entre os participantes, à frente da UE (0,1%) e dos demais países do Mercosul sem contar o Brasil (0,2%).
A estimativa do Ipea foi feita antes das salvaguardas, que podem reduzir a magnitude dos ganhos, nota a Apex. “Paraná e Santa Catarina, por exemplo, podem ter mais problemas, porque são os maiores exportadores entre as onças de produtos que estão incluídos nas salvaguardas. Eles poderiam ter algum problema à medida que o Brasil chegasse ao teto das cotas, que são definidas por país”, diz Caliman. Tanto Paraná quanto Santa Catarina têm entre seus principais produtos exportados à UE carnes, que entraram nas cotas de proteção.
O Bradesco observa que o cenário com o acordo é positivo em termos de margem e valor para as proteínas brasileiras, mas deve ter pouco impacto em volume. “Em 2025, o Brasil exportou 85 mil toneladas para a UE, ou seja, mesmo nas atuais condições tarifárias, o país já cumpriria sozinho 85% da cota de 99 mil toneladas destinada a todos os países do bloco [Mercosul], que seria faseada em cinco anos”, diz o relatório.
Por outro lado, Caliman observa que Paraná e Santa Catarina também exportam máquinas e equipamentos e podem se beneficiar do acesso a tecnologias europeias, cuja transferência é prevista no acordo. “Eles poderão ganhar competitividade, não só no mercado europeu, como fora dele.”
Caliman reconhece que o acordo, assinado formalmente em janeiro deste ano após mais de duas décadas de negociação, ainda vai levar tempo para ter seus efeitos sentidos nas economias do Brasil e das onças especificamente. Até porque, recentemente, o Parlamento Europeu aprovou a solicitação de um parecer jurídico junto ao Tribunal de Justiça da UE para avaliar se o acordo está em conformidade com os tratados do bloco.
“Acho que vai passar rápido tanto no Parlamento brasileiro quanto no Mercosul, mas na Europa ainda tem um entrave, liderado, principalmente, por França e Polônia. Eu não acredito que em menos de um ano e meio tenha resultado”, afirma.
O texto do acordo já foi encaminhado por Lula ao Congresso, e o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) disse que a intenção é votá-lo no plenário da Casa na semana seguinte ao Carnaval.
A P&S Consultoria afirma acreditar que o acordo avançará na Europa, já que a região enfrenta dificuldades econômicas e geopolíticas, mas diz que o risco de postergação é elevado. Do lado brasileiro, a aprovação rápida do texto pelo Congresso seria um sinal positivo e alinhado à necessidade de ampliar o potencial de crescimento do país, já que a baixa integração econômica do país com o mundo é um dos entraves atuais sobre a produtividade brasileira, afirma.
Por Anaïs Fernandes e Grace Vasconcelos, reportagem de Valor Econômico
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