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Exportadores brasileiros correm para embarcar aos EUA enquanto janela tarifária se estreita

fev, 27, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202609

Em meio a um clima de incerteza, setores que escaparam do choque tarifário dos EUA de 40% e 50% e que agora estão sujeitos a uma nova tarifa adicional global de 10% — em vigor desde terça-feira (24) — devem tentar antecipar exportações para os Estados Unidos para aproveitar a alíquota atual, mais baixa.

A preocupação não é apenas que a nova tarifa possa subir para 15%, como mencionou o presidente dos EUA, Donald Trump, mas também que os produtos voltem a ser alvo de uma nova e pesada sobretaxa, desta vez com base na Seção 301.

Cálculos da Secex, a Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram que, antes de uma decisão da Suprema Corte dos EUA derrubar o choque tarifário imposto com base no IEEPA — a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional —, 22% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano estavam sujeitas a tarifas adicionais de 40% ou 50%.

Após a decisão judicial e as ordens executivas que removeram as tarifas baseadas no IEEPA, cerca de 25% das exportações brasileiras para os EUA enfrentam uma tarifa de 10%, que pode subir para 15% caso Trump leve adiante o que tem dito.

As novas tarifas têm como base a Seção 122 de uma lei comercial dos EUA dos anos 1970. Outros 46% das exportações brasileiras, segundo a Secex, não enfrentam sobretaxa, enquanto os 29% restantes estão sujeitos a tarifas adicionais que variam de 10% a 50% sob a Seção 232, que aplica encargos extras a produtos como aço, alumínio e madeira.

Impacto da Seção 301

Apesar da carga tributária atual mais favorável, a Abimaq — associação brasileira que representa fabricantes de máquinas e equipamentos — trabalha com um cenário em que a alíquota de 10% sobe para 15% e em que o Brasil sofre um desfecho desfavorável na investigação da Seção 301 já aberta contra o país.

José Velloso, presidente da Abimaq, observou que a Seção 301 pode impor sobretaxas específicas ao Brasil, enquanto a tarifa global de 10% da Seção 122 se aplica a todos os fornecedores.

“Um aumento de uma tarifa adicional de 10% para 15% pode parecer pequeno agora, mas os Estados Unidos são a maior economia do mundo, com o maior déficit comercial, que depende de importações. Para o importador americano, essa incerteza entre 10% e 15% não é pequena. É uma insegurança enorme. Acredito que a nova tarifa vá para 15%, mas não dá para afirmar com certeza nem quando isso acontecerá”, disse.

“Trump joga com a incerteza”, afirmou Vera Kanas, advogada de comércio exterior e sócia do escritório VK Law. “Hoje a sobretaxa global é de 10%, amanhã pode ser 15%, que é o nível máximo permitido pela Seção 122.”

Na avaliação de Kanas, a Seção 122 não pode ser usada para justificar tarifas com base no déficit comercial dos EUA. Ela explicou que a Seção 122 está ligada a questões de balanço de pagamentos e que há o risco de o Congresso dos EUA não endossar as tarifas, que foram impostas por 150 dias. “O período pode ser prorrogado por mais 150 dias ou o tema pode voltar à Suprema Corte.”

Calçados veem vantagem

Haroldo Ferreira, presidente-executivo da Abicalçados, associação da indústria calçadista brasileira, disse que os calçados brasileiros estão agora mais competitivos nos EUA. Isso ocorreu após a retirada do choque tarifário baseado no IEEPA e a adoção da nova tarifa da Seção 122, que substituiu uma sobretaxa de 50%.

A alíquota global, afirmou, “elimina a vantagem tarifária que outros países produtores, especialmente asiáticos, tinham sobre os produtos brasileiros no mercado norte-americano”. Ainda assim, a associação afirmou que o novo ambiente tarifário gerou “otimismo cauteloso”.

Até a entrada em vigor do choque tarifário, em julho de 2025, as exportações brasileiras de calçados para os EUA cresceram 15,3% em pares em relação ao mesmo período de 2024. Sob a sobretaxa, as exportações para os EUA caíram 23,4% em volume entre agosto e dezembro de 2025, na comparação com os mesmos meses de 2024, informou a Abicalçados.

Investigação no horizonte

Outra fonte de incerteza, segundo Velloso, é a Seção 301, a lei dos EUA que fundamenta a investigação aberta no ano passado contra o Brasil. As acusações envolvem práticas consideradas injustas ou discriminatórias que afetam o comércio dos EUA e abrangem uma ampla gama de temas, desde comércio digital e serviços de pagamento eletrônico como o Pix, até direitos de propriedade intelectual e questões ambientais.

Velloso lembrou que esteve em Washington, D.C., em setembro, no Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), para acompanhar o processo. A defesa do Brasil na investigação, disse, foi “muito boa”.

“No entanto, assim como a abertura do caso foi política, acredito que o desfecho também será político. Portanto, apesar da defesa sólida e das acusações serem infundadas, acredito que o Brasil perderá. Nesse caso, o governo dos EUA pode impor qualquer alíquota sobre qualquer produto brasileiro, a qualquer momento”, afirmou.

Nesse cenário, ele espera que o alvo sejam produtos que estavam sujeitos ao choque tarifário antes da decisão da Suprema Corte.

O principal setor atingido pelas sobretaxas de 40% e 50% do IEEPA, segundo Velloso, foi o de máquinas e equipamentos. Ele teme que o caso da Seção 301 seja decidido no fim de maio ou em algum momento de junho.

Por isso, disse que sua orientação às empresas do setor tem sido tentar antecipar vendas aos EUA, se possível com embarques até meados de abril, por volta do dia 15. Isso parte do pressuposto de que todo o processo de exportação até o desembarque nos EUA leva, em média, 45 dias.

Corrida para embarcar antes

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirmou que a recomendação geral é antecipar exportações sempre que possível, embora isso exija negociação com o importador norte-americano e as oscilações cambiais não ajudem.

Ele também observou que muitos produtos isentos da tarifa geral de 10% são commodities, o que tende a reduzir a participação de bens de maior valor agregado nas exportações brasileiras para os EUA.

Para Kanas, a preocupação com a Seção 301 é justificada. Ela descreveu o dispositivo como uma ferramenta que dá a Trump uma base legal mais sólida para impor tarifas.

“Ela já foi usada antes porque tem uma base jurídica mais consistente, é pouco provável que seja contestada pela Suprema Corte e pode resultar em tarifas bastante elevadas”, disse.

Além disso, afirmou que advogados nos EUA veem as tarifas da Seção 301 como difíceis de revogar.

Ela lembrou que Trump ameaçou recentemente alguns parceiros comerciais, como a União Europeia, para manter acordos firmados sob tarifas que depois foram derrubadas pela Suprema Corte.

A Seção 301, explicou, exige uma investigação prévia, e abrir um processo para cada país pode demandar tempo e trabalho do governo dos EUA. Para o Brasil, porém, a investigação foi aberta em 15 de julho do ano passado e já está avançada. “Eles podem querer usar o Brasil como exemplo para outros países”, disse Kanas.

Seção 232 aumenta a complexidade

Velloso também afirmou que o cenário tarifário ficou mais complexo. Parte do setor de máquinas e equipamentos continua sujeita às tarifas da Seção 232, observou. A Seção 232 impõe sobretaxas específicas justificadas como proteção à indústria de aço e alumínio dos EUA.

O aço e o alumínio já estavam sujeitos a tarifas de 50% sob a Seção 232, disse. Mas em 30 de julho de 2025, o governo dos EUA incluiu determinados produtos intensivos em aço na Seção 232, afetando máquinas para construção de estradas e o chamado “yellow iron”, que inclui equipamentos de construção, mineração e terraplenagem.

Dados da Datamar mostram que, ao longo de todo 2025, o Brasil exportou apenas 5.448 TEUs de aço para o parceiro ao norte, uma queda de 35,4% em relação a 2024.

Veja a seguir o volume registrado mês-a-mês dos embarques de aço do Brasil aos Estados Unidos desde janeiro de 2022, segundo informações da plataforma de inteligência exterior DataLiner.

Exportação de Aço aos EUA | Jan 2022 –  Dez 2025 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração) 

“Como resultado, quando a máquina é embarcada para os EUA, a documentação de exportação precisa informar quanto o aço representa no custo da máquina”, explicou. Em uma máquina em que o aço representa 20% do custo, por exemplo, aplica-se uma taxa de 50% — a tarifa da Seção 232 — sobre esses 20%. Os 80% restantes pagam 10%, a tarifa geral atualmente aplicada ao Brasil.

As exportações da Abimaq totalizaram US$ 14 bilhões em 2025, com os EUA permanecendo como principal mercado, com US$ 3,2 bilhões. Antes do choque tarifário, as vendas para os EUA chegaram a US$ 4 bilhões, disse Velloso. A queda não foi maior porque havia contratos já firmados para comércio intragrupo.

Além disso, como as exportações do setor são voltadas a aplicações específicas, importadores norte-americanos continuaram comprando do Brasil. Se o choque tarifário tivesse persistido, afirmou, os contratos intragrupo poderiam não ter sido renovados ao longo do tempo e compradores dos EUA poderiam ter buscado novos fornecedores.

Fonte: Valor Econômico

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