Atraso da IMO transforma descarbonização em disciplina
mar, 11, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202611
Em 18 de outubro do ano passado, os Estados-membros da Organização Marítima Internacional (IMO) votaram por um adiamento de um ano do Net-Zero Framework (NZF), lançando dúvidas consideráveis sobre o caminho do setor de navegação rumo à descarbonização. A campanha para derrubar o NZF foi liderada pelos Estados Unidos e pela Arábia Saudita, enquanto no último ano o presidente Donald Trump também reverteu diversas outras metas ambientais.
Desde a votação de outubro, o secretário-geral da IMO, Arsenio Dominguez, vem conduzindo uma delicada campanha para suavizar e ajustar a linguagem do NZF, reunindo-se com os Estados-membros para encontrar uma forma de aprovar a legislação de alguma maneira em outubro deste ano.
A IMO vai se concentrar em “fazer as coisas acontecerem” em 2026, afirmou Dominguez em sua mensagem de Ano Novo. Ele prometeu que 2026 será um “ano de implementação; passando de planos para ações concretas e progresso mensurável”. Conseguir aprovar o NZF seria um feito diplomático notável para o panamenho à frente da organização.
O ruído vindo da Casa Branca em torno de questões ambientais tem obscurecido as prioridades verdes para muitos no setor marítimo. A palavra “pragmatismo” aparece com destaque nas entrevistas com líderes da indústria sobre o tema ambiental neste ano.
Relevância perdida?
Emanuele Grimaldi, presidente da International Chamber of Shipping, afirma que a decisão adiada sobre o NZF “ampliou os riscos para alguns atores, ao mesmo tempo em que oferece maiores possibilidades estratégicas para outros”.
Mark O’Neil, que lidera o Columbia Group, revelou à reportagem que nunca acreditou que o NZF fosse realista dentro do que descreve como “o cenário geopolítico trumpista e a perspectiva econômica global pós-covid”.
“Eu acredito que o impulso pela descarbonização vai enfraquecer ainda mais à medida que as economias globais buscam segurança energética e se ajustam à nova Realpolitik”, prevê O’Neil.
O capitão Kuba Szymanski, secretário-geral da InterManager, entidade que representa gestores de navios, afirma que 2025 foi um ano de desaceleração nos investimentos verdes, principalmente porque outras prioridades econômicas exigiram apoio.
“Isso não significa que a sustentabilidade tenha perdido relevância — mas sim que o ritmo e a sequência dos investimentos estão sendo reavaliados”, explica.
“Nos últimos 12 meses, os desenvolvimentos de políticas e o adiamento de marcos regulatórios importantes reforçaram a necessidade de pragmatismo, especialmente fora da Europa”, afirma Mikael Skov, CEO da Hafnia, a maior proprietária de petroleiros de produtos do mundo. Skov enfatiza que a Hafnia não vai apostar em tecnologias ou combustíveis antes de haver demanda clara dos clientes, clareza regulatória e infraestrutura de suporte.
O mesmo argumento é reforçado por Roger Holm, presidente da Wärtsilä Marine, um dos maiores produtores mundiais de motores marítimos.
“Os principais obstáculos já não são as tecnologias em si, mas a disponibilidade de combustíveis, a prontidão da infraestrutura, os custos e a clareza regulatória — todos variando significativamente conforme a rota comercial”, afirma Holm. “Essa realidade está moldando estratégias de investimento mais cautelosas e graduais.”
Holm, assim como outros entrevistados para o relatório, acredita que nos últimos 12 meses os investimentos verdes se tornaram “mais pragmáticos e mais disciplinados”.
“A indústria deixou para trás a ideia de uma solução única e universal e passou a investir em alternativas que geram valor mensurável hoje, mantendo opções abertas para o futuro”, disse Holm.
Essa mudança de mentalidade é particularmente evidente quando os armadores analisam decisões sobre navios em meia-vida operacional, acrescenta Holm.
“Em vez de esperar por total clareza sobre combustíveis ou regulamentação, muitos estão priorizando eficiência como o investimento verde mais imediato e confiável.”
Arthur English, CEO da norueguesa G2 Ocean, a maior operadora mundial no segmento open hatch, afirma que continua acreditando firmemente na necessidade de descarbonização do setor marítimo. No entanto, o prazo para que combustíveis verdes estejam disponíveis e acessíveis foi ampliado, tornando impossível prever quando os navios preparados para amônia e metanol da empresa efetivamente converterão seus sistemas.
Seletivo e disciplinado
Alex Karydis, diretor da armadora alemã Hanse Bereederung, afirma que a abordagem ambiental de sua empresa se tornou mais seletiva e mais disciplinada.
“Estamos menos interessados apenas em branding verde e mais focados em desempenho mensurável, dados verificáveis e impacto comercial sempre que possível”, afirma.
Os investimentos verdes agora precisam demonstrar não apenas benefício ambiental, mas também aceitação dos afretadores e resiliência financeira, o que Karydis chama de “resiliência de balanço”.
Hakki Deval, sócio-gerente da operadora turca de granel seco Devbulk, afirma que, no último ano, sua empresa passou a ver investimentos verdes não mais como melhorias opcionais, mas como um componente estratégico central para a competitividade.
“Afretadores, bancos e reguladores estão se alinhando em torno de expectativas claras de emissões”, afirma, destacando que a abordagem da Devbulk continua pragmática e orientada por dados.
“Focamos em tecnologias comprovadas de eficiência energética com prazos realistas de retorno”, diz Deval, enfatizando que a descarbonização precisa ser executada “de forma sensata e sustentável”.
Retorno rápido
Rob Mortimer, CEO da Fuelre4m, especialista em tecnologia de tratamento de combustíveis, ecoa muitos dos entrevistados neste relatório:
“O próximo ano deve ser sobre pragmatismo: baixo investimento de capital, retorno rápido e soluções escaláveis. Se não gerar ganhos operacionais rapidamente, não é um investimento sério.”
Concluindo, Josephine Le, diretora-geral da The Hood, plataforma de mídia social para marítimos, afirma:
“Atrasos e incertezas podem estar tornando tudo mais confuso, mas o posicionamento verde será a única forma de permanecer no grupo de armadores preferenciais para afretamento — se não pelo planeta, ao menos pelo mercado.”
Todos os olhares estarão voltados para a sede da IMO em Londres em outubro.
Fonte: Splash 247
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