Economia

Mercosul pode ter acerto provisório em acordo com o Canadá

mar, 12, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202611

Mesmo considerado em um estágio avançado e perto da conclusão, o acordo entre Mercosul e Canadá ainda tem temas sensíveis a serem alinhados, como o acesso a carne, lácteos, frango e ovos, além de divergências sobre regras de indicação geográfica. A estratégia é fechar um entendimento viável no curto prazo, aproveitando o atual contexto internacional, e deixar eventuais aprofundamentos para revisões futuras – mas sem abandonar a ambição nas conversas, disse uma fonte.

As negociações para um acordo de livre-comércio avançaram na última rodada, realizada em fevereiro, e, embora ainda existam temas sensíveis a serem resolvidos, a avaliação de negociadores é que essas divergências não devem impedir a conclusão do tratado, esperada para este ano. A expectativa é que haja mais duas ou três rodadas técnicas para a finalização.

Entre os principais pontos em discussão, estão o acesso a mercados em setores considerados delicados pelos dois lados – como carne, lácteos, frango e ovos, -, além de divergências sobre regras de indicação geográfica. No caso das carnes, o Canadá tende a demonstrar maior sensibilidade, já que os países do Mercosul, especialmente Brasil, Argentina e Uruguai, são altamente competitivos nesse segmento.

Confira a seguir as principais mercadorias exportadas do Brasil ao Canadá em janeiro de 2026, em termos de Wet Metric Tons (WTMT), segundo dados da Datamar:

Principais Exportações ao Canadá | Jan 2026 | WTMT

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração) 

Do lado canadense, uma dificuldade adicional surgiu após mudanças na legislação aprovadas em junho do ano passado que passaram a impedir que o governo ofereça volumes tarifários ou reduções de tarifa para produtos como frango, lácteos e ovos. Esses itens têm grande relevância para os países do Mercosul, o que exige soluções negociadas entre as partes.

Outro tema sensível é o tratamento das indicações geográficas, um tipo de certificado para produtos e serviços característicos do seu local de origem. O modelo de acordos comerciais adotado pelo Canadá segue a lógica do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta). Já o Mercosul passou a incorporar esse mecanismo em acordos mais recentes, como o firmado com a União Europeia, o que exigirá algum tipo de convergência.

Na área industrial, o Canadá tende a mirar setores como máquinas, equipamentos, autopeças e automóveis no mercado brasileiro. Nesses casos, o foco do Mercosul é garantir prazos de adaptação mais longos para a indústria local, permitindo uma abertura gradual do mercado ou o estabelecimento de cotas.

Todos esses temas também fazem parte das negociações de acesso a mercados e devem ser calibrados nas etapas finais do acordo. Segundo fontes do governo, divergências desse tipo são comuns em acordos comerciais e costumam ser tratadas nas rodadas finais, quando os temas mais sensíveis são “encapsulados” para resolução no fechamento das tratativas. Por causa disso, o Brasil mantém otimismo quanto à conclusão do tratado.

A avaliação entre fontes do governo Lula é que o atual contexto internacional favorece a conclusão de novos acordos comerciais. Em meio a um cenário de maior fragmentação econômica e busca por diversificação de parceiros, inclusive diante da ofensiva tarifária dos Estados Unidos, diferentes países têm demonstrado maior disposição para avançar em negociações.

Além disso, o acordo recente entre Mercosul e União Europeia passou a servir como referência para outras tratativas. Na avaliação de fontes envolvidas nas negociações, o fato de o bloco sul-americano já ter concluído entendimento com um parceiro relevante ajuda a calibrar expectativas e facilita a dinâmica das negociações. Como mostrou o Valor, o governo já esperava destravar novos parceiros após o tratado com os europeus.

Nesse contexto, além do Canadá, as conversas com os Emirados Árabes têm caminhado bem, enquanto as discussões com Índia e Vietnã ainda estão em estágio inicial. O bloco também mantém diálogo exploratório – fase anterior à definição dos termos de referência de uma negociação – com o Japão.

Há também a avaliação de que setores altamente competitivos e com margens mais estreitas, como o automotivo e o de máquinas e equipamentos, tendem a impulsionar seus governos por acordos comerciais à medida que novos tratados passam a entrar em vigor. Esse movimento pode estimular novas aproximações do Mercosul com parceiros relevantes, como Reino Unido e Coreia do Sul.

O entendimento do governo brasileiro é que é necessário aproveitar essa “janela de oportunidade” para avançar nos acordos, que vão além da redução de tarifas. Esses tratados também envolvem mudanças regulatórias, harmonização de normas e redução de burocracias, que em alguns setores podem ter impacto econômico até maior do que o próprio corte tarifário. Negociações recentes, por exemplo, já estimularam adaptações na legislação do Mercosul, avaliam fontes, como avanços em mecanismos de auto certificação e regras de compras governamentais.

Por Giordanna Neves e Sofia Aguiar para o Valor Econômico

 

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