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Os portos que ainda mantêm o Golfo funcionando — por enquanto

maio, 06, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202619

Mesmo com sinais de uma possível desescalada entre Washington e Teerã, os efeitos da guerra no Golfo já deixaram marcas profundas na logística da região. E nenhuma delas é tão visível quanto a nova centralidade assumida pelos portos Fujairah e Khor Fakkan, nos Emirados Árabes Unidos. Antes secundários, os dois portos passaram a ser peças-chave para manter em funcionamento parte do comércio do Golfo após a interrupção da navegação pelo Estreito de Ormuz.

Fontes ouvidas pela Reuters disseram que Estados Unidos e Irã podem fechar em poucos dias um memorando para encerrar o conflito. Ainda assim, o histórico recente recomenda cautela. E, mesmo que haja acordo, a reorganização forçada das rotas comerciais já expôs novas fragilidades na infraestrutura logística regional.

É nesse contexto que Fujairah e Khor Fakkan ganharam protagonismo. Localizados na costa do Golfo de Omã, fora da rota mais diretamente afetada por Ormuz, os dois portos absorveram parte do tráfego que antes passava por outros pontos do Golfo e ajudaram a evitar uma paralisação ainda maior do abastecimento.

Em Khor Fakkan, a movimentação explodiu. Segundo a Reuters, o volume de contêineres processados aumentou cerca de 25 vezes. O porto virou a principal porta de entrada da costa leste dos Emirados para cargas que antes seguiriam diretamente para Jebel Ali, em Dubai. Isso inclui desde alimentos e medicamentos até mercadorias de uso cotidiano. O fluxo de caminhões, que antes girava em torno de 100 por dia, chegou a 7 mil.

Fujairah, por sua vez, passou a ter papel decisivo na estratégia energética do país. O porto está na ponta do oleoduto de petróleo bruto de Abu Dhabi, o que permitiu à ADNOC continuar exportando durante o conflito. Sem essa estrutura, a alternativa dos Emirados para manter suas vendas externas de petróleo praticamente desapareceria.

Mas a mesma solução que garantiu algum grau de continuidade comercial também concentrou riscos. Ao deslocar parte relevante da operação regional para dois portos na mesma faixa costeira, os Emirados criaram novos pontos de vulnerabilidade. Essa exposição ficou mais clara com os ataques recentes a Fujairah. Um primeiro ataque com drones, em 14 de março, provocou incêndios e interrompeu o carregamento de petróleo. Na segunda-feira, houve nova ofensiva. O episódio ajudou a empurrar o Brent para perto de US$ 115 por barril, com alta de cerca de 6%.

Segundo a Reuters, a Marinha da Guarda Revolucionária iraniana divulgou na segunda-feira um mapa ampliando a área que afirma controlar no entorno de Ormuz. A nova zona inclui trechos relevantes da costa emiradense voltada para o Golfo de Omã — justamente a área que vinha funcionando como rota alternativa para o comércio regional. Até agora, especialistas do setor disseram que os dois portos seguem operando, mas o recado geopolítico foi direto.

Para países como Catar, Kuwait e Bahrein, a situação é ainda mais delicada. Como suas saídas marítimas dependem integralmente de Ormuz, qualquer pressão prolongada sobre Fujairah e Khor Fakkan torna o escoamento muito mais difícil. Nesse cenário, uma das poucas alternativas passa a ser o transporte terrestre a partir da costa saudita no Mar Vermelho — uma solução mais cara, mais lenta e sem estrutura para absorver, de forma eficiente, o volume do comércio regional.

A tensão militar segue elevada. Os Emirados disseram que seus sistemas de defesa aérea interceptaram mísseis e drones iranianos pelo segundo dia consecutivo na terça-feira. Teerã negou os ataques, mas advertiu que responderá com força caso o território emiradense seja usado como base para ações contra o Irã.

No plano econômico, os efeitos já começam a se espalhar. O FMI alertou que a economia mundial pode enfrentar um quadro bem mais adverso se o conflito se prolongar até 2027 e o petróleo subir para US$ 125 por barril. Segundo o Fundo, o cenário hoje já se aproxima de uma trajetória de crescimento global mais fraco, inflação mais alta e custos crescentes para insumos como fertilizantes, com reflexos esperados também sobre os preços dos alimentos.

Os impactos não ficam restritos aos grandes fluxos de energia e carga. Em Dubai, a desorganização das cadeias de suprimento já chegou aos restaurantes. O fechamento de fato de Ormuz elevou em até 70% o custo do frete aéreo em algumas rotas, dificultando a compra de ingredientes importados e pressionando os custos do setor. Segundo uma pesquisa citada pela Reuters, a demanda em 400 restaurantes dos Emirados caiu, em média, 27%, enquanto o custo com fornecedores subiu 13%. Em resposta, chefs reduziram cardápios, ampliaram o uso de insumos locais e passaram a apostar mais em menus fechados e kits de refeição.

Ainda há algum alívio desde o cessar-fogo de 8 de abril, segundo profissionais do setor ouvidos pela Reuters. Mas a sensação predominante é de que, mesmo que a guerra arrefeça, o mapa logístico do Golfo já mudou. Fujairah e Khor Fakkan continuam mantendo a região em funcionamento — por enquanto.

Fonte: artigo de Andrew Mills para a Reuters

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