Indústria de transformação aprofunda déficit comercial no 1º trimestre no Brasil
maio, 07, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202619
Enquanto o superávit comercial total do Brasil cresceu 47,6% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2025, a indústria de transformação registrou déficit de US$ 19,7 bilhões, ampliando em 1,2% seu saldo negativo na mesma comparação. As exportações de manufaturados avançaram apenas 2,8%, menos da metade do ritmo das exportações totais do país, que cresceram 7,1%. Já as importações de bens industriais subiram 2,3%, um ponto percentual acima da alta das importações totais.
Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), com base em números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC). O estudo analisou o desempenho comercial da indústria de transformação em quatro faixas de intensidade tecnológica, seguindo critérios da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE): alta, média-alta, média e média-baixa tecnologia.
Segundo o relatório, apesar do bom desempenho exportador em setores como o de fabricação de aeronaves — que também registrou queda nas importações — houve aumento das compras externas em segmentos importantes, como automóveis e produtos farmacêuticos. O grupo de média-baixa tecnologia, que costuma compensar os déficits das faixas mais intensivas em tecnologia, continuou superavitário, mas com saldo menor do que o observado no primeiro trimestre de 2025.
De janeiro a março, o déficit da indústria de transformação foi parcialmente contido pelo avanço das exportações nos setores de alta tecnologia, especialmente na indústria aeronáutica, afirmou Rafael Cagnin, economista-chefe do IEDI. No período, as exportações brasileiras de manufaturados somaram US$ 43,9 bilhões, o maior valor já registrado para um primeiro trimestre em dólares correntes e US$ 1,2 bilhão acima do resultado de igual período de 2025. Desse aumento, 59,6% vieram da alta na receita com exportações de aeronaves.
Cagnin observou que as exportações de aviões tendem a oscilar bastante, porque envolvem produtos de alto valor e dependem do cronograma de entregas da Embraer. Ele também destacou uma base de comparação relativamente fraca. No início de 2025, disse, já cresciam as tensões comerciais em meio à expectativa sobre a política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ainda assim, as aeronaves ficaram de fora do pacote tarifário mais amplo adotado por Trump e acabaram, na prática, protegidas de medidas comerciais mais duras. “Isso permitiu que o setor continuasse operando com relativa normalidade”, afirmou.
Além disso, a Embraer ampliou suas entregas no primeiro trimestre de 2026, sobretudo na aviação comercial. “Há uma carteira represada entre os grandes fabricantes globais de aeronaves, e a Embraer conseguiu ganhar participação de mercado nesse ambiente. A empresa vem inovando, avançando em segmentos maiores de aeronaves com desempenho energético competitivo”, disse Cagnin. Segundo ele, a companhia também tem ampliado sua atuação em defesa e segurança, segmento que ganha tração com o aumento dos gastos militares no mundo. “Embora se trate de apenas um trimestre, o período reflete estratégias de diversificação de portfólio construídas ao longo das últimas décadas.”
Mesmo com o avanço das exportações de aeronaves, o grupo de alta tecnologia fechou o primeiro trimestre com déficit de US$ 11,4 bilhões, ainda mantendo o padrão historicamente negativo do segmento, embora em nível melhor do que os US$ 12,5 bilhões de déficit registrados um ano antes. Além da indústria aeronáutica, esse grupo reúne setores como farmacêutico e eletrônico. Nos dois casos, as importações avançaram de forma relevante entre janeiro e março, com altas de 21,6% e 5,3%, respectivamente, na comparação anual. No conjunto do grupo, porém, as importações recuaram 2,5%, também influenciadas pela queda de 45,7% nas compras externas de aeronaves.
O principal ponto de atenção, segundo Cagnin, apareceu no segmento de média-alta tecnologia. Esse grupo — que inclui armas, automóveis, máquinas e equipamentos e instrumentos médicos, entre outros — teve queda de 4% nas exportações no primeiro trimestre ante igual período de 2025. Mas o economista destacou que o movimento das importações preocupa mais: elas cresceram 3,6%, puxadas em grande parte pelo setor automotivo, cujas compras externas saltaram 23,6%.
“É o efeito China, com os veículos elétricos, o que evidencia um grande desafio para a indústria automotiva brasileira tanto no mercado interno quanto externo”, disse Cagnin. Segundo ele, a competitividade chinesa vai além do setor automotivo. “A participação da China no mercado de manufaturados da América Latina está aumentando, muitas vezes deslocando a indústria brasileira não apenas porque produz itens semelhantes, mas porque tem dinamismo tecnológico para ganhar espaço com produtos novos. Temos olhado a questão dos veículos mais pelo curto prazo, mas isso reflete uma transformação estrutural do mercado e uma pressão competitiva muito forte de produtos inovadores.”
No total, o grupo de média-alta tecnologia encerrou o trimestre com déficit de US$ 20,2 bilhões. Embora resultados negativos sejam comuns nessa faixa, o rombo deste ano ficou 7,8% maior do que no mesmo período de 2025.
O estudo do IEDI também apontou desempenho positivo dos bens de média tecnologia, cujas exportações cresceram 10,6%, puxadas pela indústria metalúrgica, com alta de 15,3%. As importações desse grupo também avançaram, mas em ritmo bem mais moderado, de 2,9%. Com isso, o segmento fechou o primeiro trimestre com déficit de US$ 680 milhões, bem abaixo dos US$ 1,2 bilhão registrados no mesmo intervalo de 2025. O relatório ressalta, porém, que esse resultado foi influenciado pelo tratamento contábil das plataformas de petróleo, que desde o ano passado vêm distorcendo alguns números trimestrais. Sem considerar a indústria naval, onde esses ativos são contabilizados, o grupo de média tecnologia teria fechado o período com superávit de US$ 1,8 bilhão.
Já o grupo de média-baixa tecnologia trouxe uma surpresa negativa, segundo Cagnin. Tradicionalmente superavitário, esse segmento costuma compensar parte dos déficits observados nas faixas mais intensivas em tecnologia. Ele reúne setores como vestuário, calçados, produtos de madeira, móveis, metalurgia, derivados de petróleo, alimentos e bebidas. “Mas esse grupo vem apresentando um estável desempenho fraco”, afirmou.
Segundo o relatório, as exportações do grupo de média-baixa tecnologia ficaram praticamente estagnadas entre janeiro e março de 2026, com alta de apenas 0,2%, enquanto as importações cresceram 4,2%. O estudo destaca que essa fraqueza exportadora chama atenção porque se trata justamente do grupo que costuma gerar grandes superávits comerciais, devido à presença de indústrias ligadas ao processamento de commodities. Entre as quatro faixas de intensidade tecnológica, foi a única a registrar saldo positivo, de US$ 12,6 bilhões. Ainda assim, esse superávit ficou 3,1% abaixo do observado no primeiro trimestre de 2025.
Fonte: Valor International
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