Exportadores brasileiros reduzem embarques de carne à China diante do avanço rápido da cota de importação
maio, 21, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202621
Os exportadores brasileiros de carne bovina que participaram da SIAL Shanghai neste ano precisaram adotar uma abordagem diferente nas negociações. Cientes de que o Brasil já preencheu mais da metade da cota de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pela China para as exportações brasileiras de carne bovina, as empresas estruturaram as vendas considerando que o abate e a produção precisariam ocorrer a tempo de os embarques chegarem antes do fim de junho. O objetivo é garantir que a carga chegue aos portos chineses antes que uma tarifa adicional de 55% entre em vigor.
Esse prazo foi definido porque a expectativa do setor é que a cota brasileira seja esgotada até lá. Na terça-feira (20), o governo chinês informou que o Brasil já havia utilizado 55,4% da sua cota, totalizando 612,8 mil toneladas até abril. Parte da carga embarcada dos portos brasileiros em meados de março, abril e nas três primeiras semanas de maio ainda não foi contabilizada. Estimativas do setor sugerem que o Brasil ainda tinha cerca de 350 mil toneladas disponíveis dentro da cota.
Confira a seguir os volumes mensais da carne bovina exportada à China, segundos os dados da Datamar:
Exportação de Carne Bovina | China | Jan 2023 – Mar 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Em abril, os frigoríficos brasileiros exportaram 138 mil toneladas para a China, segundo o Ministério da Indústria e Comércio do Brasil. O setor espera que os embarques em maio e junho permaneçam próximos de 140 mil toneladas por mês. Como os navios que transportam contêineres refrigerados de carne bovina levam cerca de 45 dias para chegar à China, a expectativa é que Pequim anuncie oficialmente o esgotamento da cota brasileira até o fim de julho, com base nas importações liberadas no período.
Até recentemente, havia a expectativa de que o volume isento de tarifas fosse esgotado mais cedo, com cargas embarcadas em maio. A possibilidade de exportar até junho deu alguma vantagem aos frigoríficos brasileiros nas negociações com compradores chineses durante a feira.
“As vendas estão avançando, e a indústria agiu de forma responsável. O setor queria uma regulamentação para criar equilíbrio, mas ela não veio”, afirmou Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). “Todos estão operando até a segunda semana de junho sem correr riscos. Não há discussão sobre exportar e absorver custos fora da cota.”
Algumas empresas ainda estão estendendo sua janela de embarques até o fim de junho. “Vamos permanecer cautelosos, com produção programada até 13 de junho e embarques até o dia 20”, disse Daniel Freire, CEO da Mercúrio, sediada no Pará. Segundo ele, os importadores chineses estão ficando “receosos e relutantes” devido ao rápido uso da cota.
A China responde por 60% da receita da Mercúrio e recebe 90% das exportações da empresa. Desde o início do ano, Freire já ajustou o cronograma de produção, reduzindo o volume de abates de 40 mil cabeças por mês para 25 mil. “Vamos ajustar a produção para atender ao mercado”, afirmou durante a SIAL.
A estratégia adotada pelos exportadores na feira foi sinalizar aos compradores chineses que o Brasil não venderá a qualquer preço nem dividirá custos adicionais que comprimam ainda mais as margens em um momento já marcado por custos elevados, dólar mais fraco e alta do preço do gado no Brasil. Absorver parte da tarifa adicional de 55% no preço da carne é considerado inviável.
“Não queremos abrir mão do nosso preço, e não vamos correr riscos. A China foi fundamental para nossos negócios, mas não vamos dividir a responsabilidade pela cota”, afirmou Paulo Emílio Franco Prado, CEO da Plena Alimentos, que também participou da feira.
A mensagem do setor é que o Brasil redirecionará vendas para outros mercados, incluindo Chile e Estados Unidos, vistos atualmente pelos exportadores como grandes oportunidades. Os exportadores ainda aguardam confirmação formal de isenções tarifárias para os embarques aos EUA, mas acreditam que a tarifa atual de 26,4% ainda permite negócios viáveis.
“A indústria global de gado enfrenta esse desafio de oferta limitada de animais e carne, mas o Brasil é resiliente e consolidou seu papel como grande player e parceiro fundamental no combate à insegurança alimentar”, afirmou Júlio Ramos, diretor de assuntos estratégicos da ABIEC.
A Plena Alimentos, que opera unidades em Goiás, Minas Gerais e Tocantins, também exporta para o Oriente Médio e tem menor exposição à China, que representa cerca de 27,5% dos seus negócios.
“Já garantimos uma forte posição de vendas futuras em outros mercados”, disse Prado. Alguns contratos podem ser estendidos até julho para continuar abastecendo a China ao longo de junho, acrescentou. “Mas estamos com vendas fechadas até agosto nesses outros mercados.” Mesmo assim, o ritmo de abates caiu 7,6% no mês passado para adaptar a produção ao novo cenário.
Com menos pressão para fechar negócios imediatamente, os frigoríficos ganharam poder de barganha para preços mais altos, em torno de US$ 6.600 por tonelada para produtos de dianteiro bovino de seis cortes, os cortes mais comprados pelos chineses. Os importadores tentaram pressionar os preços para baixo. Alguns também relataram dificuldades para obter financiamento para os negócios — prática comum na China — devido ao risco de a carga chegar após o esgotamento da cota.
“Vendemos até junho para chegar dentro da cota, embora ainda possa haver uma ou duas semanas de espaço em julho porque todos reduziram o ritmo, mas não vamos correr esse risco. Sentimos que os clientes também estão preocupados porque a tarifa de 55% é inviável neste momento”, afirmou Fabrizzio Capuci, diretor executivo da Naturafrig.
Fonte: Valor International
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