Japão iniciará negociações com Mercosul com foco em comprar petróleo e vender carros
maio, 27, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202622
O Japão está prestes a iniciar negociações com o bloco comercial sul-americano Mercosul visando um acordo de parceria econômica, segundo apurou o “Nikkei Asia”. Tóquio busca fontes alternativas de petróleo e minerais críticos, além de tarifas mais baixas para seus automóveis em um mercado em expansão.
Estão sendo feitos preparativos para que a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, se encontre com o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, paralelamente à cúpula do G7 em meados de junho. O Japão também pretende concluir negociações com outros membros do Mercosul.
O bloco — composto por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia — tem uma população de quase 300 milhões de habitantes. Seu Produto Interno Bruto (PIB), superior a US$ 3 trilhões, equivale a cerca de três quartos do PIB da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
Embora o Japão tenha ampliado sua rede de livre comércio por meio de acordos com membros da Asean, Austrália e União Europeia, o Mercosul permanece entre os poucos grandes mercados com os quais ainda não possui um acordo desse tipo.
O comércio entre Japão e Mercosul ainda apresenta amplo potencial de crescimento. No ano fiscal de 2025, o Japão exportou cerca de 950 bilhões de ienes (US$ 5,96 bilhões) em mercadorias para o bloco, enquanto as importações somaram aproximadamente 1,5 trilhão de ienes, segundo o Ministério das Finanças japonês. Esses valores representaram apenas 0,8% e 1,3%, respectivamente, do comércio total do país.
Confira os dez categorias de produtos mais importados do Japão pelo Brasil, segundo os dados de movimentação de contêineres obtidos pela Datamar:
Principais Importações do Japão | 1º tri 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Com o avanço do protecionismo dos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump, o governo de Takaichi transformou os acordos de parceria econômica em um dos pilares de sua estratégia de crescimento.
As preocupações com impactos sobre a agricultura haviam impedido o início das negociações com o Mercosul. No entanto, o cenário mudou diante de acontecimentos como a guerra no Irã, que elevou a importância da diversificação do fornecimento de petróleo e minerais críticos para o Japão.
Antes da interrupção dos embarques pelo Estreito de Ormuz, o Japão dependia do Oriente Médio para cerca de 90% de suas importações de petróleo bruto. Além disso, o país depende da China para o fornecimento de terras raras e outros minerais industriais estratégicos, aumentando as preocupações sobre possíveis restrições de exportação por parte de Pequim.
O Brasil é o nono maior produtor mundial de petróleo bruto e possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da China. Já a Argentina se destaca pela produção de lítio, essencial para baterias de veículos elétricos.
“É significativo do ponto de vista da segurança econômica”, afirmou Kazuyoshi Nakata, da Mitsubishi UFJ Research and Consulting, ao comentar um possível acordo.
A carne bovina poderá ser um dos principais pontos de atrito nas negociações, já que o Japão possui uma indústria pecuária relativamente pequena. O Brasil foi o maior produtor mundial de carne bovina no ano comercial de 2025, enquanto a Argentina ocupou a sexta posição, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Parlamentares japoneses influentes na política agrícola sinalizaram apoio às negociações, desde que haja atenção especial à questão da carne bovina. O Partido Liberal Democrático realizará uma reunião para consolidar consenso interno e formular recomendações ao governo antes do início das negociações.
Diante da necessidade de diversificar as cadeias de suprimento de commodities, “este não é o momento para nos opormos [às negociações do acordo de parceria econômica] para proteger a indústria pecuária”, afirmou um alto funcionário do Ministério da Agricultura, Florestas e Pescas do Japão.
O Japão deverá buscar tarifas mais baixas para produtos industriais. Atualmente, os produtos japoneses enfrentam tarifas médias de 13,2% no Brasil e 13,9% na Argentina, segundo o Instituto Japonês de Assuntos Internacionais, com taxas especialmente elevadas para automóveis e autopeças.
Empresas japonesas pressionam por um acordo rápido. A Federação Empresarial do Japão (Keidanren) e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) defenderam oficialmente o avanço das negociações em uma declaração conjunta divulgada em março de 2025, destacando a necessidade de fortalecer a eficiência, a sustentabilidade e a competitividade das cadeias globais de suprimento.
“A indústria automobilística, em particular, está buscando essas negociações”, afirmou Kiyo Tsujimoto, chefe do escritório das Américas da Organização de Comércio Exterior do Japão (Jetro). Atualmente, montadoras ocidentais dominam o mercado automotivo sul-americano, e o acordo provisório de livre comércio entre União Europeia e Mercosul aumenta a pressão competitiva sobre as fabricantes japonesas, que podem perder competitividade sem um acordo semelhante.
Fonte: Valor Econômico
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