Papel da China na agricultura dos EUA já não é o mesmo de antes
jun, 09, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202624
A possibilidade de um renovado interesse chinês por produtos agrícolas dos Estados Unidos gerou entusiasmo nos mercados de grãos no mês passado, mas o otimismo perdeu força diante da ausência de compras imediatas.
A reação inicial dos mercados foi compreensível. Durante anos, a China liderou o crescimento da demanda por produtos agrícolas norte-americanos, ajudando a impulsionar exportações recordes de soja, sustentando os preços dos grãos e tornando-se uma importante compradora de produtos que vão do milho à carne bovina.
O acordo comercial firmado no mês passado, que prevê pelo menos US$ 17 bilhões em compras de produtos agrícolas dos EUA além dos contratos já existentes de soja, reacendeu as expectativas de que a China pudesse voltar a ser um dos principais motores das exportações agrícolas americanas.
No entanto, anos de tensões comerciais e a ascensão da América do Sul alteraram essa dinâmica. A China continua extremamente importante para a agricultura dos EUA, mas seu papel varia de acordo com cada produto.
Soja: a China deixou os EUA, não o mercado
A dependência chinesa da soja americana caiu drasticamente nos últimos anos, embora sua influência sobre o mercado global permaneça praticamente inalterada. A participação da China nas importações globais de soja segue em torno de 60% há quase duas décadas.
As compras chinesas de soja dos EUA diminuíram significativamente à medida que o Brasil ampliou sua produção e exportações. Segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), os embarques de soja americana para a China na temporada 2025/26, que termina em 31 de agosto, devem cair quase 50% em relação ao ano anterior, atingindo o menor nível em 19 anos.
Até o final de maio, a China já havia garantido mais de 90% de suas necessidades para 2025/26, em linha com o ritmo do ano passado, graças ao aumento das compras na América do Sul.
Embora acordos recentes indiquem que as exportações americanas de soja para a China possam dobrar na safra 2026/27, o cenário geral é menos favorável. As projeções do USDA sugerem que, excluindo a participação chinesa, as exportações de soja dos EUA para todos os demais destinos podem cair ao menor nível em 13 anos.
Milho: um mercado mais diversificado
O milho apresenta uma dinâmica diferente. A demanda externa pelo produto tornou-se mais diversificada, sustentada por compradores estáveis e de longo prazo, como o México.
O USDA projeta que uma parcela maior da safra de milho 2026/27 será destinada à exportação do que em 2020/21, sem indícios de que compras significativas da China tenham sido consideradas nas estimativas.
Isso não significa que a demanda chinesa tenha perdido importância ou que não pudesse impulsionar os preços. Porém, se a China voltar a comprar grandes volumes, permanece a dúvida sobre se as exportações totais dos EUA realmente crescerão ou se os preços mais altos acabarão reduzindo a demanda de outros mercados.
Carne bovina: desafios de oferta
A carne bovina ocupa uma posição intermediária entre soja e milho, mas apresenta desafios específicos.
A China tornou-se um importante destino para a carne bovina americana nos últimos anos, e as autoridades dos EUA buscam recuperar esse mercado após o novo acordo comercial.
O problema é que os preços da carne bovina nos Estados Unidos atingiram níveis recordes, enquanto o rebanho bovino do país caiu para o menor patamar em 75 anos.
Autoridades americanas destacam que a China compra cortes menos valorizados e miúdos, produtos consumidos em menor escala pelos americanos. No entanto, historicamente, a maior parte das exportações de carne bovina dos EUA para a China consiste em cortes que também têm forte demanda no mercado interno.
Mesmo que as compras chinesas de produtos de menor valor beneficiem os pecuaristas americanos, elas também podem aumentar a competição por uma oferta já limitada.
Novo mercado, pensamento antigo?
Os casos da soja, do milho e da carne bovina mostram que o papel da China na agricultura dos Estados Unidos não pode mais ser explicado por uma única narrativa.
Apesar disso, os mercados agrícolas continuam reagindo às compras chinesas como se os efeitos fossem iguais para todos os setores. Compromissos de compra ainda provocam fortes movimentos nos preços futuros e nas posições especulativas.
No mês passado, a perspectiva de retomada das compras chinesas ajudou a levar as posições especulativas em grãos e oleaginosas dos EUA aos níveis mais otimistas já registrados.
Durante as últimas duas décadas, o aumento da demanda chinesa quase sempre significou melhores perspectivas para a agricultura americana. Hoje, porém, os impactos são mais complexos.
Os mercados continuarão atentos aos desdobramentos envolvendo a China, mas a questão central talvez já não seja se a China importa para a agricultura dos EUA, e sim em quais setores sua influência continua sendo decisiva.
Fonte: Coluna de Karen Braun para a Reuters.
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