Tarifas sobre o Brasil podem beneficiar a China, dizem empresas ao USTR
jul, 08, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202628
A possibilidade de as exportações brasileiras para os Estados Unidos serem substituídas por embarques da China caso novas tarifas norte-americanas sejam impostas sobre o Brasil foi um dos alertas feitos por representantes do setor empresarial brasileiro no segundo dia de audiências no Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
“Levamos esse argumento de que tributar o Brasil em máquinas e equipamentos poderia deslocar o país e que a China poderia ocupar esse espaço. Outros setores também apresentaram esse argumento. Em alguns casos, apenas a China poderia substituir o Brasil, mas, em outros, Índia e Coreia do Sul, por exemplo, também poderiam fazê-lo”, afirmou Patrícia Gomes, diretora-executiva de mercados externos da Abimaq, associação que representa os fabricantes de máquinas e equipamentos.
Gomes participou da audiência sobre a recomendação feita em junho pelo USTR de impor uma tarifa de 25% sobre alguns produtos importados do Brasil devido a práticas comerciais que o governo dos Estados Unidos considera “desleais”.
Segundo a Abimaq, entre as questões levantadas estavam se havia produção doméstica nos Estados Unidos dos materiais exportados pela indústria brasileira e se essa produção seria suficiente para atender à demanda norte-americana.
“Mas falamos sobre como é difícil substituir o tipo de fornecimento de máquinas que oferecemos, pois se trata de produtos personalizados, fabricados sob encomenda e que atendem a certificações extremamente rigorosas, difíceis de obter”, disse.
Confira a seguir quais foram as principais mercadorias exportadas, em volume, aos EUA nos cinco primeiros meses de 2026. Os dados foram coletados e processados pela Datamar.
Principais Exportações aos EUA | Jan-Mai 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Diversificação do fornecimento
Para a indústria calçadista, o Brasil contribui para diversificar o abastecimento dos Estados Unidos por meio de uma fonte ocidental considerada “confiável”. Segundo a Abicalçados, entidade que representa o setor, os EUA consomem mais de 2 bilhões de pares de calçados por ano e produzem cerca de 20 milhões de pares, o equivalente a aproximadamente 1% do consumo interno. A China atualmente lidera o fornecimento ao mercado norte-americano, respondendo por 48% do volume total, informou a associação.
Uma tarifa adicional “tenderia a elevar os custos, reduzir a diversidade de fornecedores e reforçar a concentração das fontes de abastecimento dos Estados Unidos em origens já dominantes, contrariando os interesses norte-americanos de diversificação”, afirmou Letícia Sperb Masselli, gerente de relacionamento e negócios da Abicalçados, em comunicado. Sperb participou da audiência.
Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio do escritório Barral Parente Pinheiro, afirmou que a audiência foi “bastante formal”.
“O assunto foi focado em documentos, dados e confirmação de informações, então foi uma discussão muito mais técnica”, disse.
Seu escritório representou entidades como a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) nas discussões.
A Abimaq argumentou que 82% das exportações brasileiras de máquinas e equipamentos em 2024 ocorreram entre empresas do mesmo grupo econômico — companhias sediadas no Brasil com subsidiárias nos Estados Unidos, ou vice-versa. Para a associação, a tarifa afetaria tanto empresas brasileiras que investem em território norte-americano quanto empresas dos EUA que investem no Brasil.
“Esse tipo de comércio complementa a produção dos Estados Unidos”, afirmou Gomes.
Ela acrescentou que também foi mencionado o superávit comercial de US$ 1,2 bilhão que os Estados Unidos têm com o Brasil na balança bilateral de máquinas e equipamentos.
A Abicalçados afirmou que “todas as explicações foram favoráveis ao Brasil, destacando principalmente o impacto da tarifa para um país que não possui produção significativa de calçados”, disse Sperb.
Outra pessoa presente na reunião, que falou sob condição de anonimato, afirmou acreditar que, com base na audiência, o governo dos EUA apenas corrigirá alguns dados apontados pelo setor privado.
“Está claro que o USTR basicamente vai corrigir algumas coisas que apontamos, mas a conclusão geral provavelmente será a mesma [impor uma tarifa], não sei se de 25%. Na verdade, agora tudo depende da negociação do governo brasileiro, porque a decisão final cabe ao [Donald] Trump”, afirmou.
Setor cafeeiro
No painel sobre café, o Cecafé, a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics) e a National Coffee Association (NCA), dos Estados Unidos, defenderam a manutenção da isenção da tarifa de 25% para o café verde, torrado e moído, além da extensão desse benefício ao café solúvel.
Em sua apresentação, a Abics argumentou que o café solúvel é essencial para diversos segmentos da economia norte-americana, incluindo bebidas prontas para consumo, panificação, confeitaria, laticínios e serviços institucionais de alimentação. A associação citou estudos que apontam crescimento anual de 5,6% entre 2025 e 2030 no mercado de cafés prontos para beber nos Estados Unidos.
A Abics destacou a necessidade de garantir um abastecimento estável e acessível de café solúvel. Segundo a entidade, o Brasil responde por 22% das importações norte-americanas desse produto. A tarifa adicional de 25% pressionaria as margens das empresas e a inflação no país, afirmou a associação.
“México e Brasil respondem por quase 60% das importações totais, enquanto os preços mexicanos são cerca de 1,5 vez superiores aos preços brasileiros”, disse Fabio Sato, diretor de relações institucionais da Abics, que participou da audiência.
Mel, arroz e agronegócio
O setor exportador de mel também participou das audiências. O Brasil exporta cerca de 40 mil toneladas de mel orgânico por ano para os Estados Unidos, que não possuem produção local dessa categoria. O setor já está sujeito a uma tarifa de importação de 12,5% e, com a sobretaxa de 25% proposta pelo governo Trump, a tributação total chegaria a 37,5%.
“O Brasil atende 75% da demanda e é o principal fornecedor de mel orgânico para os Estados Unidos”, afirmou João Marcelo Messas, diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel). Segundo a entidade, cada dólar gasto na importação de mel orgânico gera US$ 5,50 em negócios para a economia norte-americana.
Messas disse estar otimista quanto ao andamento da investigação conduzida pelo USTR.
“Cumprimos os prazos e respondemos às perguntas de forma muito clara, o que foi muito bem recebido pelo comitê que nos avaliou”, afirmou.
Ele acrescentou que, além do apoio do setor exportador brasileiro durante a audiência, empresas afetadas nos Estados Unidos também defenderam a isenção da tarifa de 25%.
“Vejo tudo o que aconteceu de forma positiva, mas ainda sem qualquer garantia de que teremos uma decisão favorável.”
A indústria do arroz também participou do primeiro dia de audiências. Andressa Silva, diretora-executiva da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), afirmou que o ambiente foi receptivo.
“Falamos sobre o impacto potencial para pequenas e médias empresas norte-americanas que atendem o nicho da comunidade latina, bem como para toda a cadeia de valor envolvida — logística, transporte, armazenagem — e sobre o possível aumento de custos para os consumidores dos Estados Unidos.”
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), representada por Fernanda Maciel Carneiro, contestou a ideia de que o desmatamento ilegal estaria concentrado em uma área isolada e não representaria a agricultura e a pecuária brasileiras. A CNA apresentou dados indicando que o desmatamento na Amazônia Legal caiu 56% entre 2011 e 2025.
Biocombustíveis
No segmento de biocombustíveis, o governo dos Estados Unidos acusa o Brasil de prejudicar o comércio de etanol por meio da aplicação de tarifas. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) argumentou que a tarifa brasileira sobre o etanol importado segue a regra da nação mais favorecida da Organização Mundial do Comércio (OMC) e não representa uma retaliação aos Estados Unidos.
Já a União Nacional do Etanol de Milho (Unem) sustentou que o etanol norte-americano perdeu espaço no Brasil em razão da taxa de câmbio, dos custos logísticos e da rápida expansão da indústria brasileira de etanol de milho.
O USTR tem até 15 de julho para tomar sua decisão final.
Fonte: Valor International
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