Coffee exports of Brazil
Café

Café brasileiro enfrenta riscos com o El Niño, mas lavouras estão mais resilientes

jul, 13, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202629

O fenômeno El Niño poderá reduzir em até um quinto a safra recorde de café prevista para o Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), à medida que o calor excessivo e a irregularidade das chuvas ameaçam a produção.

Para este ano, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita recorde de 66,7 milhões de sacas de 60 quilos de café arábica e canephora, grupo que inclui variedades como robusta e conilon.

No entanto, a deterioração das condições climáticas durante o ciclo do El Niño pode reduzir significativamente a produção, afirmou o diretor-executivo da Abic, Celírio Inácio da Silva.

“Estamos falando agora de uma perda entre 15% e 20% da safra, o que, em um ano normal, estaria dentro do esperado. Mas, no cenário atual, isso é uma notícia muito ruim”, disse em entrevista.

Apesar das perspectivas negativas, os cafeicultores estão mais preparados do que em episódios anteriores de El Niño graças aos avanços tecnológicos, que tornaram as lavouras mais resistentes às mudanças climáticas.

“Avançamos muito e hoje conseguimos plantar e colher com mais eficiência”, afirmou Silva.

Nos últimos anos, os produtores ampliaram rapidamente os sistemas de irrigação e investiram fortemente nessa tecnologia para reduzir a dependência das chuvas, cada vez mais irregulares em razão das mudanças climáticas.

Mesmo assim, espera-se que o El Niño afete o ciclo biológico da cultura, especialmente durante o período de florada, no segundo semestre de 2026. Segundo especialistas, o calor excessivo e a irregularidade das chuvas podem provocar floradas desuniformes e mal sucedidas.

“A maturação irregular gera problemas de qualidade e torna a colheita mais difícil”, afirmou Wellis Caixeta, gerente de compras de café da cooperativa mineira Expocacer.

O El Niño de 2023/24, combinado com ondas de calor e chuvas irregulares, reduziu a safra brasileira de café de 2024 da previsão inicial do governo, de 58,8 milhões de sacas de 60 quilos, para 54,2 milhões de sacas. Apesar do ciclo bienal positivo do arábica, a produção cresceu apenas 0,2%, enquanto a produtividade do conilon caiu 5,9%.

O El Niño já pode explicar algumas anomalias climáticas, como as chuvas incomuns registradas no Sudeste brasileiro ao longo do último mês.

A Expocacer estima que precipitações superiores a 50 milímetros nas regiões produtoras de arábica, ocorridas cerca de 40 dias atrás, atrasaram a colheita e provocaram a queda de grande quantidade de frutos no solo, prejudicando a qualidade dos grãos.

O Espírito Santo, maior produtor brasileiro de cafés canephora, também enfrenta condições climáticas irregulares neste ano, com intervalos mais longos entre as chuvas e precipitações mais curtas e intensas, afirmou Luiz Carlos Bastianello, presidente da Cooabriel, maior cooperativa de café canephora do país.

Segundo ele, os produtores capixabas estão preocupados com a possibilidade de o El Niño prolongar os períodos de seca e de calor excessivo até janeiro de 2027, comprometendo o enchimento dos grãos.

Embora a produção de conilon no Estado deva cair 15% neste ano devido ao ciclo bienal natural da cultura — que alterna anos de alta e baixa produtividade —, Bastianello considera cedo para estimar os impactos do El Niño sobre a safra de 2027.

“O calor é o maior risco para perdas severas. Acima de 27°C, o café canephora reduz seu metabolismo e, aos 35°C, ele praticamente para de funcionar. Muitas vezes, o dano causado pelo calor é maior do que o provocado pela própria falta de água”, afirmou.

As condições têm sido mais favoráveis no Norte do Brasil, onde temperaturas e chuvas permaneceram, em grande parte, dentro da média sazonal neste ano. Em Rondônia, os produtores esperam uma safra recorde de 3 milhões de sacas de 60 quilos, acima da projeção da Conab, de 2,77 milhões de sacas.

Segundo Juan Travain, presidente da Associação dos Cafeicultores de Rondônia (Caferon), o calor e a seca associados ao El Niño dificilmente terão o mesmo impacto sobre as lavouras de robusta no Estado do que nas regiões produtoras de arábica.

“O café é altamente sensível às variações de temperatura, mas praticamente todas as plantações de robusta são irrigadas e algumas ainda utilizam sistemas de resfriamento com água. Em contrapartida, muitas propriedades de arábica ainda não contam com irrigação”, afirmou.

Fonte: Reuters

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