Economia

Nova tarifa de 25% dos EUA atinge bilhões de dólares em exportações brasileiras

jul, 22, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202630

Uma nova tarifa de 25% dos Estados Unidos passa a incidir nesta quarta-feira (22) sobre uma série de produtos brasileiros, incluindo máquinas agrícolas, produtos de madeira, etanol e vestuário, ampliando as tensões em uma relação já desgastada entre os dois países mais populosos do Hemisfério Ocidental.

A tarifa é a primeira aplicada sob a nova estratégia do governo Trump de utilizar a Lei de Comércio de 1974 (Trade Act of 1974) para investigar o que considera práticas comerciais desleais. No início deste ano, a Suprema Corte dos EUA derrubou a alegação ampla da Casa Branca de poderes emergenciais para impor tarifas elevadas à maioria dos parceiros comerciais globais.

Segundo estimativas do governo brasileiro e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a nova tarifa ameaça entre US$ 7 bilhões e US$ 11 bilhões em exportações brasileiras para os Estados Unidos. Esse montante representa aproximadamente 18% a 26% das vendas brasileiras ao mercado norte-americano.

Para amenizar os impactos internos da medida, os Estados Unidos isentaram alguns produtos considerados estratégicos, entre eles carne bovina, café, aeronaves e peças de aviões.

O Brasil é o primeiro país a ser alvo de uma tarifa após uma investigação de um ano conduzida com base na Seção 301 sobre práticas comerciais consideradas desleais, apesar de os Estados Unidos manterem historicamente superávit na balança comercial com o Brasil.

“Essa é a ironia das medidas dos Estados Unidos”, afirmou Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil, ao destacar o saldo comercial bilateral.

Washington argumenta que as tarifas são necessárias para combater o que classifica como práticas comerciais desleais, que vão desde serviços de pagamentos eletrônicos até acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.

As tarifas entram em vigor apenas dois dias antes do vencimento de uma tarifa global temporária de 10% e após uma decisão da Suprema Corte que anulou tarifas anteriores de 50% sobre produtos brasileiros, obrigando exportadores a buscar novos mercados.

Confira a seguir uma comparação das exportações brasileiras para os EUA e importações vindas desse país, em termos do comércio de contêineres entre os dois países.

Exportação e Importação | Brasil x EUA | Jan 2023 – Mai 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Demissões no setor calçadista

Para muitos setores, os ajustes já começaram a gerar impactos.

A indústria brasileira de calçados, que tem os Estados Unidos como seu principal mercado externo, revisou para baixo sua projeção de exportações para este ano, passando de uma expectativa de queda de 3,6% para uma retração estimada de 7,1%.

Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), um em cada cinco pares de calçados exportados pelo Brasil é destinado ao mercado norte-americano.

“Não existe outro mercado capaz de substituir os Estados Unidos”, afirmou Toni Hajel, proprietário da exportadora TH Shoes e presidente do sindicato da indústria calçadista de Franca (SP), um dos principais polos produtores do país.

Segundo ele, cerca de 40% das exportações da região, o equivalente a 650 mil pares por ano, são destinadas aos Estados Unidos. Com a nova tarifa, essas vendas se tornam economicamente inviáveis, o que poderá obrigar empresas a demitir funcionários caso o Brasil não consiga renegociar as tarifas ou obter uma isenção para o setor.

Consequências de longo prazo

Economistas alertam que a incerteza gerada pelas sucessivas medidas tarifárias e pelas isenções parciais pode produzir efeitos muito além das perdas comerciais imediatas.

“Isso mina a confiança”, afirmou Gustavo Pessoa, professor de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), em São Paulo, que esteve em Washington neste mês para defender, em audiência pública, a retirada das tarifas.

Segundo Pessoa, as tarifas prejudicam as relações comerciais de longo prazo entre os dois países. Compradores norte-americanos podem recear que mais produtos brasileiros sejam alvo de novas medidas, enquanto exportadores brasileiros podem deixar de investir em cadeias produtivas voltadas ao mercado dos Estados Unidos.

Dados da CNI mostram que as tarifas norte-americanas já afetaram o comércio bilateral. No primeiro semestre deste ano, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram US$ 2,6 bilhões, ou 13% em relação ao mesmo período de 2025, principalmente devido à redução das vendas de produtos industriais, como ferro e aço, derivados de petróleo e celulose.

O Brasil também é alvo de uma investigação separada conduzida pelos Estados Unidos sobre alegações de trabalho forçado, cujo prazo termina em 24 de julho. O processo poderá resultar em uma tarifa adicional de 12,5%, elevando a tributação total sobre alguns produtos para até 37,5%.

A investigação ainda em andamento mantém autoridades brasileiras em compasso de espera. Recentemente, o secretário de Comércio Exterior, Marcio Elias Rosa, afirmou que ainda não sabe como a eventual penalidade será aplicada, embora espere sua confirmação.

“Vamos descobrir se ela será cumulativa ou não, se teremos 25% mais 12,5% ou se conseguiremos uma isenção”, declarou a jornalistas em Brasília.

Fonte: Reuters

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