Aço e Alumínio

CBAM redefine exportações brasileiras de aço e alumínio para a Europa

jul, 23, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202630

Exportadores brasileiros de aço e alumínio estão acelerando os esforços para medir, verificar e certificar suas emissões à medida que o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês) da União Europeia deixa de ser uma preocupação futura de conformidade para se tornar um fator que já influencia decisões comerciais.

A mudança é especialmente relevante para empresas que vendem para a Europa, onde o CBAM começa a impactar contratos, estratégias de fornecimento e a divisão de riscos entre compradores e fornecedores.

Rafael Della Barba, coordenador de riscos climáticos e descarbonização da WayCarbon, afirma que as empresas brasileiras reagiram em duas etapas. Algumas, principalmente do setor siderúrgico, iniciaram a preparação em 2023, antes mesmo de a conformidade se tornar obrigatória. Outras adiaram investimentos e agora correm para entender sua exposição às emissões.

A transformação ocorre em um momento em que o CBAM passa a influenciar a forma como exportadores brasileiros quantificam, documentam e certificam a pegada de carbono dos produtos enviados à Europa.

Pelas regras do mecanismo, as emissões devem ser calculadas em nível detalhado de produto, incluindo rotas específicas de produção, rastreabilidade e dados preparados para auditoria. Isso representa uma mudança em relação aos inventários corporativos tradicionais de emissões, obrigando até empresas que já divulgam esses dados a adaptar suas metodologias.

A falta de uma contabilização confiável das emissões pode gerar impactos diretos nos custos. Empresas que não conseguirem comprovar emissões mais baixas poderão ser obrigadas a utilizar valores-padrão conservadores, reduzindo o potencial benefício da matriz energética mais limpa do Brasil.

Exportações de alumínio enfrentam pressão

As exportações brasileiras de alumínio para a Europa deram sinais de enfraquecimento no primeiro semestre de 2026, segundo dados do governo citados pela Fastmarkets.

O Brasil exportou cerca de 4.261 toneladas de tarugos de alumínio para a Europa entre janeiro e junho, queda de 43,9% em relação às aproximadamente 7.597 toneladas registradas no mesmo período de 2025. Os embarques de lingotes de alumínio recuaram 47,3%, para cerca de 51.935 toneladas, ante 98.565 toneladas um ano antes.

A tendência mudou após o fim de fevereiro, quando o conflito no Oriente Médio elevou os prêmios do alumínio na Europa. Entre março e junho, o Brasil embarcou cerca de 40.564 toneladas de lingotes para o mercado europeu, alta de 61,9% sobre as 25.048 toneladas do mesmo período do ano anterior.

A diferença de preços entre Brasil e Europa ajudou a compensar os custos adicionais ligados ao CBAM, criando oportunidades de exportação apesar da burocracia adicional.

A Fastmarkets avaliou o prêmio do alumínio P1020A em Roterdã entre US$ 500 e US$ 530 por tonelada em 21 de julho, ante US$ 320 a US$ 350 por tonelada em 2 de janeiro. A avaliação já inclui os custos dos certificados do CBAM.

No Brasil, o prêmio do alumínio P1020A com baixo ICMS entregue na região de São Paulo foi avaliado entre US$ 300 e US$ 330 por tonelada em 21 de julho, acima dos US$ 220 a US$ 250 registrados em 6 de janeiro.

Participantes do mercado afirmam que produtores brasileiros obtiveram prêmios em torno de US$ 330 por tonelada nas exportações de alumínio P1020 para a Europa em junho. Ainda assim, operadores dizem que o CBAM está tornando as negociações mais complexas, com alguns compradores europeus relutantes em importar de determinadas regiões devido à dificuldade de calcular e administrar os custos de conformidade.

Exportações de aço avançam

As exportações brasileiras de aço seguiram trajetória oposta. Os embarques de placas para a União Europeia cresceram fortemente no primeiro semestre de 2026, impulsionados pela demanda por aço semiacabado de uma origem considerada menos exposta aos riscos relacionados ao carbono.

Segundo dados do Comex Stat citados pela fonte original, as exportações brasileiras de placas para a UE totalizaram cerca de 1,02 milhão de toneladas entre janeiro e junho, ante aproximadamente 265 mil toneladas no mesmo período de 2025. Isso representa um aumento de 283,7% na comparação anual.

A comparação foi parcialmente influenciada por uma base fraca no início de 2025, quando a maior parte dos embarques se concentrou em maio e junho. Ainda assim, os volumes permaneceram elevados no início de 2026, superando 200 mil toneladas em janeiro e fevereiro e alcançando cerca de 260,3 mil toneladas em abril. Em junho, as exportações somaram aproximadamente 182,7 mil toneladas, alta de 90,8% sobre o mesmo mês do ano anterior.

Apesar das exigências adicionais de relatórios e conformidade, a Europa permaneceu como um destino importante para o aço semiacabado brasileiro. Fontes do mercado afirmam que compradores europeus vêm considerando a placa brasileira uma alternativa potencialmente mais limpa em relação ao fornecimento de regiões com controles de emissões menos rigorosos.

A Fastmarkets informou, em fevereiro, que siderúrgicas europeias compraram mais de 300 mil toneladas de placas brasileiras. Segundo a publicação, produtores podem estar optando por matéria-prima importada em vez de ampliar sua própria produção de aço, diante dos elevados custos das licenças de emissão de carbono na Europa.

A Fastmarkets avaliou as exportações brasileiras de placas entre US$ 575 e US$ 585 por tonelada FOB principal porto brasileiro em 17 de julho, ligeiramente abaixo da semana anterior e do pico recente de abril, quando os preços ficaram entre US$ 600 e US$ 615 por tonelada.

Falta de certificação pode reduzir vantagem competitiva do Brasil

A matriz energética relativamente limpa do Brasil é frequentemente apontada como uma vantagem competitiva no contexto do CBAM. Mas essa vantagem não é automática.

Segundo Della Barba, incorporar o perfil brasileiro baseado em energias renováveis e bioenergia ao cálculo das emissões continua sendo um desafio, especialmente para o setor de metais. Aproveitar esse benefício exige integração da cadeia de suprimentos e certificações alinhadas a padrões internacionais, incluindo a Diretiva de Energias Renováveis da União Europeia.

Isso cria um desafio importante para os exportadores. O Brasil pode ter produção de menor intensidade de carbono em diversas áreas, mas, sem dados verificados e certificações reconhecidas internacionalmente, as empresas podem não conseguir transformar essa vantagem em menores custos no CBAM ou maior poder de negociação.

O primeiro grande impacto deve ocorrer por meio das auditorias. De acordo com Della Barba, os setores brasileiros de aço e alumínio estão mais avançados do que muitos outros segmentos na contabilização das emissões, mas ainda apresentam lacunas em verificação e certificação.

Materiais secundários, ou reciclados, podem oferecer um caminho de conformidade no curto prazo, pois são mais fáceis de incorporar aos cálculos de emissões. No entanto, uma adequação mais ampla exigirá maior integração da cadeia de suprimentos e certificações, processo que pode levar cerca de seis meses.

As regras do CBAM também limitam a forma de atribuição dos benefícios das emissões. O mecanismo não aceita o método de balanço de massa (mass balance), o que impede que empresas concentrem o benefício de uma produção de baixo carbono apenas em parte de sua produção. Em vez disso, as emissões devem ser calculadas com base em uma média.

Sem sistemas de certificação mais robustos, o Brasil corre o risco de perder parte da vantagem competitiva que poderia ter no mercado europeu.

Mercado de carbono é visto como próximo passo

Della Barba também destaca a necessidade de o Brasil estruturar seu mercado doméstico de carbono. Outras grandes economias exportadoras já avançaram na regulamentação das emissões e na eficiência produtiva, reduzindo a vantagem potencial brasileira.

O Brasil aprovou o marco legal do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões por meio da Lei nº 15.042/2024, mas o mercado ainda não está plenamente operacional. A fase regulatória deve continuar ao longo de 2026, seguida pela implementação do sistema de reporte de emissões em 2027.

As empresas serão obrigadas a monitorar e reportar emissões em 2028 e 2029, enquanto o primeiro plano de alocação e a negociação de permissões de emissão estão previstos para começar em 2030.

Para os exportadores, esse cronograma é importante porque o CBAM já influencia negociações comerciais na Europa. O mecanismo também deve evoluir, com possível inclusão das emissões de Escopo 2 e ampliação da cobertura de produtos em revisões previstas para 2028 e 2029.

Os reguladores europeus também estão concentrados em fechar brechas e evitar formas de contornar o mecanismo, incluindo o uso de produtos semiacabados para escapar dos custos de carbono. Isso poderá ampliar, ao longo do tempo, a lista de produtos abrangidos pelo CBAM.

Para empresas brasileiras ligadas ao comércio exterior e à logística, a mensagem é clara: o CBAM deixou de ser um risco regulatório distante. O mecanismo já afeta preços, estrutura de contratos, decisões de abastecimento e a competitividade das exportações brasileiras de aço e alumínio para a Europa.

As empresas que avançarem mais rapidamente na contabilização, verificação e certificação das emissões estarão em posição mais favorável para defender participação de mercado e aproveitar as oportunidades criadas pela transição da Europa para cadeias de suprimentos de menor intensidade de carbono.

Fonte: adaptado de Fastmarkets

 

 

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