Entregas de fertilizantes no Brasil devem cair pelo menos 10%
jul, 30, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202631
Cinco meses após o início do conflito no Oriente Médio, a indústria brasileira de fertilizantes já prevê uma queda de pelo menos 10% nas entregas de produtos para a safra 2026/27. As dificuldades logísticas provocadas pela guerra elevaram os preços dos insumos, mas esse é apenas um dos problemas. O aumento do endividamento dos produtores rurais, o crédito mais caro e a menor rentabilidade das principais culturas agravam a pressão e levam os agricultores a adiar as compras de fertilizantes.
Para a próxima safra de soja — cujo plantio começará em setembro em algumas regiões —, as principais empresas de fertilizantes estimam que aproximadamente 80% das compras já tenham sido realizadas. O percentual está cinco pontos abaixo do registrado na mesma etapa da temporada anterior. As compras para a segunda safra de milho estão em 30%, ante 35% no mesmo período do ano passado.
Apesar dos atrasos, a expectativa agora é que a retração do mercado de fertilizantes seja menor do que se temia inicialmente em razão da guerra. Eduardo Monteiro, presidente da Mosaic Fertilizantes no Brasil e no Paraguai, afirmou ao Valor que as vendas ganharam força nas últimas três semanas, apoiadas pela recuperação dos preços da soja. Segundo ele, cerca de 3 milhões de toneladas de fertilizantes foram comercializadas no mercado brasileiro nesse período.
As compras se aceleraram à medida que melhorou a relação de troca entre a soja e os fertilizantes.
“As últimas três semanas trouxeram uma dose de otimismo nesse contexto, mas não eliminaram toda a complexidade envolvida em navegar por esse ambiente desafiador”, afirmou Monteiro.
As entregas de fertilizantes no Brasil atingiram o recorde de 49 milhões de toneladas no ano passado. Para este ano, consultorias e empresas estimam uma redução entre 5 milhões e 10 milhões de toneladas, puxada pelos menores volumes de produtos nitrogenados e fosfatados.
Dados de comércio exterior da Datamar apontam uma queda de 9,7% no volume desembarcado de fertilizantes no Brasil no acumulado dos cinco primeiros meses do ano. Compare a seguir os volumes registrados em anos anteriores:
Importação de Fertilizantes | Jan-Mai | 2023-2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Monteiro é menos pessimista. “Talvez terminemos em algum ponto intermediário ou no limite inferior, em 5 milhões”, afirmou.
As estimativas refletem, em grande parte, o aumento dos custos dos fertilizantes nesta temporada. Segundo o executivo, o insumo custa atualmente o equivalente a duas a quatro sacas de soja a mais do que no mesmo período do ano passado.
Volatilidade dos preços
Desde o início da guerra no Oriente Médio, os preços dos fertilizantes fosfatados e nitrogenados têm oscilado fortemente em resposta aos acontecimentos no Estreito de Ormuz.
Os preços dos fosfatados voltaram a subir nas últimas semanas, impulsionados pela forte valorização do enxofre, um insumo essencial para sua produção e também uma matéria-prima utilizada pela indústria de baterias. Os preços dos fertilizantes nitrogenados também avançaram com a intensificação do conflito.
Dados da consultoria especializada no mercado de fertilizantes StoneX mostram que o enxofre é atualmente cotado a US$ 1.152 por tonelada, ante US$ 435 no início do ano.
O fosfato monoamônico (MAP) é negociado a aproximadamente US$ 890 por tonelada, bem acima dos US$ 635 registrados no começo do ano. A ureia, cujo preço subiu por quatro semanas consecutivas, custa US$ 461 por tonelada, ante US$ 404 no início de janeiro.
A escassez e a alta dos preços do enxofre levaram a Mosaic a anunciar, em 8 de julho, uma nova redução temporária de suas operações no Brasil. Monteiro afirmou que ainda não há previsão para a retomada, que dependerá dos preços do enxofre.
A concorrência da moderna indústria de baterias pelo enxofre representa outra preocupação para os grandes fabricantes de fertilizantes.
“É uma indústria que tem condições de pagar mais do que o setor de fertilizantes”, afirmou Guilherme Schmitz, vice-presidente de marketing e agronomia da Yara Brasil, outra grande fabricante do setor.
Os estoques brasileiros de fertilizantes estão atualmente cerca de 14% abaixo do nível registrado no mesmo período de 2025. Monteiro, entretanto, não considera isso um problema, pois a expectativa é de retração do mercado doméstico neste ano. Os estoques existentes seriam suficientes para atender entre dois meses e meio e três meses de demanda, nível considerado normal no Brasil.
Gargalos logísticos
Além de elevar os preços dos fertilizantes, a guerra no Oriente Médio aumentou as preocupações logísticas da indústria. O período entre a importação das matérias-primas e seu processamento no Brasil é de aproximadamente três meses, contados a partir da saída das cargas de países como Arábia Saudita e Marrocos.
“Ainda há todo o processo de carregamento, transporte, chegada ao Brasil, desembaraço aduaneiro, filas nos portos e gargalos logísticos. Por isso, recomendamos que os agricultores se planejem cuidadosamente”, afirmou Schmitz.
Na Yara, 50% das matérias-primas utilizadas na produção de fertilizantes no Brasil vêm do próprio sistema global de produção da empresa. A Europa fornece 25%, enquanto outros 25% vêm das fábricas de Rio Grande, no Rio Grande do Sul; Ponta Grossa, no Paraná; e Cubatão, em São Paulo.
Os 50% restantes são adquiridos de países como China, Marrocos, Egito, Catar, Arábia Saudita, Canadá e Estados Unidos.
Apesar das restrições ao fornecimento de matérias-primas, a Yara não precisou reduzir a produção no Brasil, afirmou Schmitz.
“Estamos muito estáveis em relação ao fornecimento de potássio. Conseguimos diversificar de maneira eficaz nossas fontes de fósforo. Embora parte dos suprimentos venha da região do conflito, nossos parceiros têm buscado alternativas para ajustar a logística e continuar nos abastecendo.”
Atrasos nas importações
A StoneX não estimou o ritmo atual das vendas de fertilizantes no Brasil, mas afirmou que as importações estão atrasadas.
“Isso é um sinal de alerta, porque significa que, para recompor os estoques aos mesmos níveis dos anos anteriores, o Brasil realmente precisará acelerar as compras nos próximos meses, em meio à retomada das tensões no Oriente Médio”, afirmou Tomás Pernías, analista de inteligência de mercado da StoneX.
Pernías acrescentou que a possibilidade de fechamento do Estreito de Bab el-Mandeb, na costa do Iêmen, é outra fonte de preocupação, considerando o papel da Arábia Saudita como grande exportadora de fertilizantes.
Fonte: Valor International
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