Novo mês de dados DataLiner: Comércio exterior brasileiro ganha força no primeiro semestre, mas tarifas e restrições à carne trazem riscos
ago, 04, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202631
Dados recém-divulgados pela Datamar sobre a movimentação brasileira de contêineres mostram crescimento tanto nas exportações quanto nas importações no primeiro semestre de 2026.
Entre janeiro e junho, as exportações brasileiras via contêineres avançaram 5,9% em relação ao mesmo período de 2025. Considerando somente junho, o crescimento foi ainda mais expressivo, de 12,9% na comparação anual, indicando uma aceleração dos embarques ao final do semestre.
O resultado confirma a resiliência do comércio exterior brasileiro em um ambiente marcado por juros elevados, desaceleração gradual da atividade doméstica e aumento das incertezas comerciais internacionais.
Confira a seguir um comparativo das exportações brasileiras via contêineres no primeiro semestre dos últimos cinco anos:
Exportações Brasileiras via Contêineres | Jan–Jun 2022 a Jan–Jun 2026 | TEU
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
China amplia participação nas exportações brasileiras
A China permaneceu como o principal destino das exportações brasileiras via contêineres. No primeiro semestre, o Brasil enviou ao país asiático um volume 22,9% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Esse crescimento reforça a importância da demanda chinesa para produtos brasileiros, principalmente alimentos, matérias-primas e mercadorias agroindustriais. A economia da China cresceu 4,7% no primeiro semestre de 2026, segundo o National Bureau of Statistics, mantendo o país como uma das principais fontes de demanda externa para o Brasil, apesar da desaceleração observada no segundo trimestre.
Os Estados Unidos, segundo maior destino das exportações brasileiras em contêineres, receberam um volume 22,5% menor. Já os embarques para o México cresceram 8%.
A queda nas exportações conteinerizadas para os Estados Unidos contrasta com o avanço dos fluxos destinados à China e ao México e pode estar relacionada a mudanças na composição das mercadorias, à redução da demanda por alguns produtos, a uma base de comparação elevada e ao redirecionamento de embarques para outros mercados.
As novas tarifas norte-americanas anunciadas em julho não explicam diretamente o recuo observado entre janeiro e junho, uma vez que foram adotadas após o encerramento do período analisado. No entanto, elas aumentam a incerteza para o segundo semestre e podem acentuar a reorganização geográfica dos embarques brasileiros.
Carnes e algodão lideram o crescimento
As carnes foram a categoria de produtos mais exportada pelo Brasil em contêineres no primeiro semestre de 2026, com volume 12,2% superior ao registrado nos mesmos meses de 2025.
Na sequência apareceu a madeira, cujos embarques recuaram 3,1%, enquanto as exportações de algodão apresentaram crescimento expressivo de 29,6%.
O desempenho de carnes e algodão evidencia o peso do agronegócio e da agroindústria na expansão dos fluxos conteinerizados brasileiros. No caso das carnes, a disponibilidade de contêineres refrigerados e de serviços marítimos regulares é fundamental para alcançar mercados mais distantes. Para o algodão, a expansão da produção e da oferta exportável brasileira vem permitindo ao país conquistar uma parcela maior do mercado internacional.
Importações brasileiras crescem 8,4%
Nas importações, o movimento também foi de crescimento. O Brasil recebeu, no primeiro semestre, um volume em contêineres 8,4% maior que o registrado no mesmo período de 2025. Na comparação entre junho de 2026 e junho de 2025, o aumento foi de 6,1%.
A expansão das importações mostra que a economia brasileira continuou absorvendo mercadorias estrangeiras, apesar das condições monetárias restritivas e dos sinais de arrefecimento da atividade.
Parte desse movimento pode representar consumo, mas a alta das compras externas também inclui máquinas, equipamentos, peças e bens intermediários utilizados pela indústria. Portanto, o avanço das importações não deve ser interpretado exclusivamente como aumento da entrada de produtos finais: ele também pode sinalizar investimentos, renovação tecnológica e maior integração das cadeias produtivas.
Confira a seguir um comparativo das importações brasileiras via contêineres no primeiro semestre dos últimos cinco anos:
Importações Brasileiras via Contêineres | Jan–Jun 2022 a Jan–Jun 2026 | TEU
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Produtos chineses ganham espaço no mercado brasileiro
A China foi o país que mais enviou contêineres ao Brasil nos seis primeiros meses do ano, com volume 20,8% superior ao registrado no mesmo período de 2025.
Os Estados Unidos apareceram na segunda posição, mas com retração de 34,4%. Já as importações provenientes da Índia cresceram 3,8%.
A expansão dos embarques chineses para o Brasil está associada à crescente presença do país asiático nas cadeias de veículos, equipamentos elétricos, máquinas, componentes, produtos químicos e bens de consumo. A China vem intensificando sua estratégia exportadora diante da capacidade elevada de sua indústria e da fragilidade relativa de sua demanda interna.
Esse processo amplia o acesso das empresas brasileiras a equipamentos e componentes mais competitivos, mas também aumenta a pressão sobre setores da indústria nacional que disputam o mercado com produtos importados.
Veículos e autopeças impulsionam as importações
Veículos e autopeças foram a categoria mais importada pelo Brasil via contêineres no primeiro semestre de 2026, com crescimento de 42,1% em relação ao mesmo período do ano passado.
Em seguida apareceram os plásticos, com alta de 6,4%, e reatores, caldeiras e máquinas, com avanço de 0,9%.
O desempenho de veículos e autopeças está relacionado principalmente à rápida expansão das montadoras chinesas no mercado brasileiro. Dados da Secex mostram que, no primeiro trimestre, as importações brasileiras de veículos chineses alcançaram US$ 1,5 bilhão, aumento de 552,5% em relação ao mesmo período de 2025. A China respondeu por 65,6% do valor dos automóveis importados naquele intervalo.
Parte desse movimento pode representar antecipação de embarques e formação de estoques. À medida que fabricantes chineses ampliem a produção local, a composição das importações também poderá mudar: a entrada de veículos completos tende a perder espaço gradualmente, enquanto peças, baterias e componentes podem ganhar importância.
Argentina amplia exportações e reduz importações
No acumulado dos seis primeiros meses de 2026, a Argentina exportou 21,3% mais contêineres e importou um volume 8,6% menor em relação ao primeiro semestre de 2025.
O resultado do transporte conteinerizado acompanha a direção observada no comércio exterior argentino como um todo. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, o Indec, as exportações de bens do país cresceram 24,4% no primeiro semestre, enquanto as importações recuaram 3,9%. Com isso, a Argentina acumulou superávit comercial de US$ 13,9 bilhões.
O avanço das exportações reflete a recuperação da oferta agrícola e agroindustrial e a maior competitividade externa dos produtos argentinos. Já a queda das importações também pode indicar demanda doméstica ainda contida. Portanto, o aumento do superávit não deve ser interpretado somente como resultado de maior competitividade: parte dele decorre da menor capacidade de absorção de mercadorias estrangeiras pela economia argentina.
Comércio conteinerizado do Uruguai supera expansão das exportações totais
No Uruguai, as exportações via contêineres cresceram 10,1% no primeiro semestre, enquanto as importações avançaram 5,1%.
O desempenho das exportações conteinerizadas foi superior ao observado no comércio uruguaio de bens como um todo. Segundo a Uruguay XXI, as exportações totais do país cresceram aproximadamente 1% no primeiro semestre de 2026.
A diferença sugere maior dinamismo das mercadorias normalmente transportadas em contêineres, como carnes refrigeradas, lácteos, alimentos processados e produtos florestais. Também pode refletir um desempenho mais fraco de produtos movimentados a granel.

Perspectivas para o segundo semestre
Os dados do primeiro semestre mostram uma tendência positiva, mas o cenário para os próximos meses deverá ser influenciado por três fatores principais: as novas tarifas dos Estados Unidos, a implementação do acordo entre União Europeia e Mercosul e as restrições chinesas às importações de carne bovina.
Tarifas dos Estados Unidos aumentam risco para os embarques
Em julho, os Estados Unidos anunciaram duas novas medidas baseadas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana, estabelecendo sobretaxas de 25% e de 12,5% sobre parcelas das importações originárias do Brasil.
Segundo levantamento do MDIC, as novas medidas alcançam, em conjunto, 23,1% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos. Uma parcela equivalente a 16,5% das vendas ao mercado norte-americano passou a enfrentar uma tarifa combinada de 37,5%, enquanto 52,7% das exportações brasileiras permanecem sem sobretaxas setoriais ou específicas contra o país.
Como as medidas foram adotadas em julho, seus efeitos deverão aparecer principalmente nos dados do segundo semestre. Produtos mais expostos às sobretaxas podem registrar redução de competitividade, renegociação de contratos, antecipação ou cancelamento de embarques e redirecionamento para outros destinos.
O impacto sobre os contêineres dependerá da composição exata dos produtos atingidos. Setores com maior dependência dos Estados Unidos e menor possibilidade de redirecionamento poderão sofrer mais. Ao mesmo tempo, a queda de 22,5% já registrada nos embarques conteinerizados para o mercado norte-americano torna esse fluxo um dos principais pontos de atenção para os próximos meses.
Acordo UE–Mercosul abre oportunidades, mas os efeitos serão graduais
Em sentido oposto às barreiras norte-americanas, o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul cria uma perspectiva de diversificação dos destinos das exportações sul-americanas.
Os acordos foram assinados em janeiro de 2026, e o acordo comercial interino passou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio. Segundo o Conselho da União Europeia, o bloco europeu eliminará gradualmente as tarifas sobre 92% das importações originárias do Mercosul e concederá acesso preferencial a outros 7,5% por meio de cotas tarifárias e outros mecanismos.
Os efeitos não serão imediatos nem iguais para todos os setores. A retirada das tarifas ocorrerá ao longo de até dez anos, enquanto produtos agropecuários considerados sensíveis, como carne bovina, estarão sujeitos a cotas e salvaguardas.
Ainda assim, o acordo pode beneficiar os fluxos conteinerizados de carnes, alimentos processados, madeira, celulose, produtos químicos e manufaturados. Também pode estimular o transporte no sentido inverso, com maior entrada no Mercosul de máquinas, medicamentos, produtos químicos, autopeças, veículos, vinhos e outros produtos europeus.
Para os exportadores brasileiros, argentinos e uruguaios, o acordo representa uma oportunidade de reduzir a dependência de poucos mercados. Essa possibilidade ganha importância justamente quando os Estados Unidos elevam barreiras comerciais e a China estabelece limites para determinados produtos.
Cota chinesa poderá limitar o crescimento das carnes
O principal risco para as exportações brasileiras de carne bovina está na nova salvaguarda adotada pela China.
Para 2026, o governo chinês estabeleceu uma cota de aproximadamente 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira. Os volumes que ultrapassarem esse limite ficam sujeitos a uma tarifa adicional de 55%. A medida entrou em vigor em janeiro e deverá permanecer por três anos, com ajustes anuais nas cotas.
Em julho, a China informou que o Brasil já havia utilizado 80% de sua cota anual. Isso significa que, mantido o ritmo atual, o limite pode ser atingido antes do final do ano.
A aproximação do teto pode levar frigoríficos e exportadores a reduzir ou redistribuir embarques, renegociar preços e buscar destinos alternativos. União Europeia, México, países do Oriente Médio e Sudeste Asiático podem ganhar importância nesse processo, embora nem todos tenham capacidade para absorver rapidamente os volumes destinados à China.
Essa limitação ajuda a explicar por que o acordo UE–Mercosul adquire relevância estratégica. Entretanto, as cotas europeias para produtos agropecuários não são suficientes, isoladamente, para substituir o mercado chinês. Além disso, o acesso ao mercado europeu exige cumprimento rigoroso de requisitos sanitários, ambientais e de rastreabilidade.
Tendência é de crescimento com maior diversificação dos fluxos
A perspectiva para o segundo semestre é, portanto, de continuidade dos fluxos em níveis elevados, mas com maior volatilidade entre países e categorias de produtos.
As importações brasileiras podem continuar sustentadas pela entrada de veículos, autopeças, máquinas e componentes asiáticos, embora juros elevados e uma eventual desaceleração do consumo possam moderar o crescimento.
Nas exportações, o desempenho deverá depender da capacidade das empresas de responder a três movimentos simultâneos: perda de competitividade de alguns produtos nos Estados Unidos, oportunidades graduais abertas pelo acordo UE–Mercosul e necessidade de diversificar os destinos da carne bovina diante da cota chinesa.
Mais do que uma mudança no volume total, o segundo semestre poderá marcar uma reorganização das rotas comerciais. China, União Europeia, México e outros mercados emergentes tendem a ganhar importância nas estratégias de diversificação, enquanto tarifas, cotas e exigências regulatórias deverão influenciar cada vez mais a escolha dos destinos, o planejamento dos embarques e a demanda por serviços conteinerizados.
-
Logística Outros
nov, 03, 2020
0
VLI arremata operação de terminal em Porto Franco (MA) que deve aumentar em 30% a movimentação de grãos da região
-
Grãos
out, 27, 2021
0
Line-up do milho confirma exportações fracas; no ano, metade do apurado em 2020
-
Navegação
jul, 18, 2024
0
Crise no Mar Vermelho já afeta todas as rotas comerciais, diz CEO da Maersk
-
Economia
ago, 06, 2024
0
Relação Brasil-China deve bater novo recorde comercial, afirma Alckmin

