Alta do frete para a China pressiona pequenas mineradoras de ferro no Brasil
set, 21, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202639
A disparada dos custos de transporte marítimo entre Brasil e China está apertando as margens das mineradoras de ferro de menor porte e já começa a provocar cortes de produção em Minas Gerais.
A Mineração Usiminas suspendeu em 2 de setembro as operações na planta de Samambaia, no estado. Segundo a empresa, a medida faz parte de uma série de ações adotadas para enfrentar um cenário externo mais difícil, marcado pela queda dos preços do minério de ferro e pela forte alta dos fretes marítimos.
A Itaminas Comércio de Minérios também decidiu reduzir suas operações. A companhia informou que interromperá em outubro uma planta de beneficiamento a úmido e colocará um terço dos funcionários em licença como forma de preservar caixa.
A mineradora, que exporta cerca de 90% de sua produção, afirmou estar adiantada em relação ao plano de produção e disse que a paralisação não afetará os compromissos comerciais já assumidos.
O frete marítimo subiu com força neste ano em meio às mudanças nos fluxos comerciais provocadas pela guerra no Oriente Médio e ao aumento dos preços dos combustíveis. Condições meteorológicas adversas no Pacífico também reduziram a disponibilidade de navios, enquanto uma demanda maior por transporte de minério de ferro acrescentou pressão sobre os custos.
“Com os preços do minério de ferro também enfraquecendo, exportadores menores, com pouca proteção contratual, continuam vulneráveis à pressão sobre as margens e o capital de giro”, afirmou Maria Bertzeletou, analista sênior de mercado do Signal Group.
Frete Brasil-China chega aos maiores níveis desde 2021
A rota C3 para navios Capesize, calculada pela Baltic Exchange entre o Porto de Tubarão, no Brasil, e Qingdao, na China, estava cotada a US$ 42,12 por tonelada em 14 de setembro, perto dos maiores níveis registrados desde 2021.
Enquanto isso, os contratos futuros de referência do minério de ferro vêm sendo negociados, em sua maior parte, abaixo de US$ 100 por tonelada desde julho, depois de terem chegado a quase US$ 112 por tonelada em maio.
Essa combinação reduziu de forma expressiva o valor que efetivamente fica com os produtores brasileiros.
Considerando a venda na modalidade FOB, “o valor recebido pelos produtores brasileiros caiu mais de US$ 18 por tonelada, embora os preços do minério de ferro praticamente não tenham se alterado”, afirmou Artur Bontempo, sócio da Prime Trading.
Segundo ele, as medidas adotadas pela Usiminas e pela Itaminas indicam que o impacto pode ser ainda maior sobre mineradoras menores do Quadrilátero Ferrífero, principal região produtora de minério de ferro de Minas Gerais.
Mineradoras menores sentem mais o aumento dos custos
A alta do frete pesa especialmente sobre mineradoras independentes, que não contam com a mesma estrutura logística dos grandes produtores.
Thiago Toscano, CEO da Itaminas, afirmou que os custos de transporte marítimo na rota Brasil-China mais do que dobraram em relação ao ano passado.
Segundo ele, o frete passou a consumir “uma parcela muito significativa” do valor das exportações, tornando algumas vendas menos atraentes.
Grandes mineradoras conseguem amortecer parte desse impacto por meio de estruturas logísticas próprias, contratos de longo prazo e maior escala. Para empresas menores e mais expostas ao mercado spot de fretes, a combinação entre minério mais barato e transporte mais caro atinge diretamente a rentabilidade das exportações.
A decisão da Usiminas de interromper entre 30% e 35% da produção de sua unidade de mineração é um dos primeiros sinais de que a compressão das margens começa a afetar a oferta brasileira, segundo Daniel Sasson, analista do Itaú BBA.
Sasson estima que as margens das mineradoras brasileiras expostas aos fretes spot estejam próximas dos menores níveis dos últimos cinco anos.
Na avaliação do analista, esse cenário aumenta a possibilidade de recuperação dos preços do minério de ferro, em vez de uma continuidade das quedas, caso a menor rentabilidade leve outros produtores a reduzir a oferta.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de minério de ferro. Ao mesmo tempo, o mercado enfrenta uma pressão estrutural decorrente do enfraquecimento da demanda da indústria siderúrgica chinesa.
Fonte: Bloomberg News
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