Portos e Terminais

Tarifas dos EUA levam portos do Espírito Santo a buscar novos mercados para cargas

set, 28, 2026 Postado porSylvia Schandert

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As tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros já afetam, ainda que de forma limitada, as exportações de rochas ornamentais, como o granito, embarcadas pelo complexo portuário operado pela Vports no Espírito Santo.

Em entrevista ao Valor, o diretor-presidente da Vports, Pedro Henrique Garcia Benevides, afirmou que o setor está reagindo às tarifas com a priorização de produtos de maior valor e a busca por novos mercados, especialmente no Oriente Médio.

“Embora o volume de cargas embarcadas tenha diminuído, o impacto sobre a receita foi menor porque [o setor] está concentrando esforços em produtos mais caros e de maior valor agregado”, afirmou, em sua primeira entrevista desde que assumiu o cargo, em julho.

Primeira e única operadora portuária privatizada do Brasil, após o processo de desestatização concluído em setembro de 2022, a Vports administra os portos de Vitória, Vila Velha e Barra do Riacho, no Espírito Santo.

Para a operadora, esse movimento pode levar à criação de novos corredores logísticos, atrair mais rotas marítimas e ampliar o fluxo de cargas pelo complexo. Benevides afirmou que a diversificação dos destinos das exportações também pode gerar efeitos positivos para a economia capixaba, impulsionando a balança comercial do estado e criando empregos ao longo da cadeia logística.

Granito, ferro-gusa e café estão entre os principais produtos exportados pelos terminais da Vports para os Estados Unidos. No segmento de rochas ornamentais, considerando todos os destinos, os embarques de granito e mármore somaram 809 mil toneladas entre janeiro e agosto, alta de 9% em relação ao mesmo período de 2025. O segmento respondeu por 13% de toda a carga movimentada pelo complexo no período, representando US$ 818 milhões em comércio neste ano.

Segundo Benevides, o segmento tende a sentir mais intensamente o impacto das tarifas, pois elas colocam os produtos brasileiros em uma concorrência mais acirrada com fornecedores de outros países, como a Índia, que oferece produtos semelhantes ao mercado americano e pode ter custos mais competitivos de frete, logística e produção. A tarifa dos Estados Unidos é de 37,5%, com exceção do quartzito, sujeito a uma alíquota de 12,5%.

Apesar do impacto sobre o setor, Benevides afirmou que o caráter multipropósito dos portos operados pela Vports — ou seja, a capacidade de movimentar diferentes tipos de carga no mesmo complexo — ajuda a amortecer os efeitos de crises internacionais e turbulências geopolíticas. Os portos movimentam automóveis, máquinas e diversos tipos de granéis, incluindo fertilizantes, carvão e lítio.

Benevides espera que o complexo encerre o ano com um volume recorde de movimentação, próximo de 9 milhões de toneladas. Segundo ele, o complexo movimentava, em média, 7 milhões de toneladas por ano quando a gestão privada assumiu as operações. A projeção mais conservadora da Vports é atingir 10 milhões de toneladas até 2029.

A empresa soma R$ 1,6 bilhão em investimentos concluídos e contratados até o primeiro semestre de 2027, incluindo aportes de parceiros. Para sustentar o crescimento da movimentação nos próximos anos, a Vports avalia novas melhorias nos acessos ao complexo portuário.

Na área ferroviária, a empresa colocou em operação neste ano uma nova instalação para movimentação de ferro-gusa no Porto de Capuaba, em Vila Velha. A operação utiliza a ligação ferroviária existente entre o Espírito Santo e Minas Gerais e integra a estratégia da Vports de ampliar o uso do transporte ferroviário no complexo.

Benevides afirmou que há espaço para uma nova etapa de expansão ferroviária. A empresa identificou quatro projetos em um trecho da ferrovia próximo ao porto que poderiam ampliar a capacidade de acesso e exigiriam investimentos de aproximadamente R$ 150 milhões.

Na área rodoviária, Benevides disse que a empresa discute a criação de um pátio regulador de caminhões próximo ao porto para organizar o tráfego e evitar que o crescimento das operações gere gargalos nos acessos e prejudique a relação entre o porto e a cidade. Outro projeto considerado necessário para ampliar significativamente a capacidade do complexo é o alargamento do canal de navegação.

A forma de financiar esses projetos adicionais ainda está em discussão. Segundo Benevides, uma possibilidade seria a participação do governo do Espírito Santo, caso considere os projetos estratégicos para o desenvolvimento regional.

A alternativa mais discutida internamente na Vports, porém, é a conversão de pagamentos de outorga em investimentos em bens da União. Na prática, parte dos recursos destinados à outorga seria aplicada diretamente em projetos de infraestrutura. A proposta ainda precisa ser apresentada e negociada com o poder público.

“É um instrumento possível dentro do nosso contrato e também no âmbito do governo federal”, afirmou. Os pagamentos de outorga fixa e variável somam cerca de R$ 50 milhões por ano.

A avaliação é que os investimentos ampliariam a capacidade e a competitividade dos ativos que serão devolvidos à União ao fim da concessão. A empresa também os considera os principais motores de uma expansão mais expressiva da capacidade no longo prazo. Benevides estima que, caso esses projetos avancem, o complexo poderá chegar a movimentar 20 milhões de toneladas de cargas.

Fonte: Valor International

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