Alho importado pressiona competitividade e preocupa setor
set, 30, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202640
Produtores brasileiros de alho estão reduzindo a área plantada diante da dificuldade de competir com o produto importado. A Anapa (Associação Nacional dos Produtores de Alho) estima uma retração de aproximadamente 15% na área cultivada nesta safra, em um cenário de custos elevados e aumento da entrada de alho estrangeiro no mercado brasileiro.
As importações, que haviam recuado entre 2020 e 2024, voltaram a crescer no ano passado. Em 2025, o Brasil importou 158,8 mil toneladas de alho fresco ou refrigerado, alta de 9,1% em relação a 2024. Em valor, as compras somaram US$ 228,9 milhões, avanço de 11,3%, segundo dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento).
Para Rafael Jorge Corsino, presidente da Anapa, o problema está na diferença entre o custo de produção brasileiro e o preço do produto importado. Segundo ele, produzir um quilo de alho no país custa atualmente entre R$ 14 e R$ 16, enquanto o produto importado chega ao mercado na faixa de R$ 11 a R$ 12 por quilo.
“O custo para produzir alho aqui no Brasil é muito alto. Hoje, as importações representam práticas desfavoráveis à concorrência”, afirmou.
Corsino atribui parte da pressão sobre os custos à carga tributária, aos juros e à dependência de fertilizantes e combustíveis importados. Segundo o dirigente, a combinação desses fatores reduz a margem dos produtores e já leva agricultores a vender o produto abaixo do custo de produção.
Importações voltam a crescer
A evolução das compras externas ocorre em um mercado no qual a produção brasileira é distribuída ao longo de diferentes períodos do ano. No Cerrado, principalmente em Minas Gerais e Goiás, o plantio ocorre entre março e maio, com colheita a partir de junho. Já nos estados do Sul, como Santa Catarina e Rio Grande do Sul, o plantio se concentra entre junho e julho, e a colheita ocorre entre novembro e dezembro.
Esse calendário faz com que a oferta nacional varie ao longo do ano e mantém as importações como parte relevante do abastecimento do mercado brasileiro.
Segundo a Conab, as importações haviam recuado, em média, 6,9% ao ano entre 2020 e 2024, enquanto a disponibilidade interna caiu 2,3% ao ano no mesmo período. Em 2025, porém, as compras externas aumentaram 9,1%, revertendo a trajetória observada nos anos anteriores.
Em termos de volume importado, os dados da Datamar mostram uma grande queda no acumulado do ano. Segundo as estatísticas da empresa, o Brasil importou aproximadamente 26.671 toneladas de alho (NCM 070320) nos primeiros sete meses do ano, volume 45,7% menor do que ano anterior. Confira a seguir os volumes registrados mensalmente:
Importação de Alho do Brasil | Jan-Jul | 2022 – 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A retomada das importações ocorreu depois do encerramento da colheita nacional do último ciclo, período em que a participação da produção brasileira na disponibilidade interna diminuiu.
Área plantada recua
A pressão sobre a rentabilidade também começa a aparecer na área dedicada à cultura. Corsino estima uma retração de aproximadamente 15% na safra atual e afirma que os produtores reduziram cerca de 2 mil hectares em relação à temporada anterior.
Para o presidente, caso as condições atuais permaneçam, outros 2 mil hectares poderão deixar de ser plantados na próxima safra. A entidade também estima impacto sobre o emprego no setor, com redução de aproximadamente 32 mil postos de trabalho diante da retração da atividade.
O movimento ocorre apesar dos investimentos em tecnologia e produtividade. Corsino afirma que pesquisas desenvolvidas com participação de instituições públicas contribuíram para elevar a qualidade e a produtividade do alho brasileiro, incluindo o desenvolvimento de materiais livres de vírus.
“Temos o melhor alho do mundo, temos a melhor tecnologia, temos produtividade, somos competitivos”, disse o presidente da Anapa. A avaliação, contudo, é de que os ganhos de produtividade não são suficientes para compensar a diferença de custos em relação ao produto importado.
Exportações chinesas avançam
A Argentina continuou como principal fornecedora de alho para o Brasil em 2025, com 87 mil toneladas, equivalentes a 54,8% do volume importado e 59,1% do valor das compras externas. A China ficou em segundo lugar, com 67 mil toneladas e participação de 42,2% em volume. O Egito apareceu na terceira posição, com 3,9 mil toneladas.
A composição das importações, no entanto, mudou de forma significativa. A participação argentina caiu de 70,4% do volume importado em 2024 para 54,8% em 2025. No mesmo período, as compras brasileiras de alho chinês cresceram 66,4%.
O avanço da China ocorre mesmo após a adoção de medidas de defesa comercial. Desde setembro de 2025, as importações chinesas estão sujeitas a direito antidumping adicional de US$ 0,78 por quilo, além da tarifa de importação de 35% para o alho destinado ao consumo, conforme a Resolução Mdic/Gecex nº 797.
A China é, de longe, a maior produtora mundial de alho e produz 21,6 milhões de toneladas, o equivalente a 73,1% da produção global. Índia e Egito aparecem na sequência, com 10,9% e 1,9%, respectivamente. Juntos, os três países responderam por 85,9% da produção mundial naquele ano.
Setor pede revisão do compromisso
Uma das principais reivindicações da Anapa está relacionada ao compromisso de preço firmado com empresas chinesas no âmbito da defesa comercial. Segundo Corsino, o acordo estabelecia inicialmente um preço de US$ 16,90 por caixa de 10 quilos, mas teria sido posteriormente reduzido para US$ 15.
Ao mesmo tempo, segundo a entidade, o custo brasileiro teria aumentado de aproximadamente US$ 23 para US$ 25 por caixa. Considerados os impostos e demais encargos, Corsino afirma que o preço associado ao compromisso teria chegado a cerca de US$ 21, abaixo do custo nacional estimado pela associação.
A Anapa defende que o Governo Federal reveja ou encerre o compromisso de preço. A entidade afirma que a medida permitiria reduzir a pressão sobre os produtores brasileiros e evitar uma nova retração da atividade.
Argentina e Egito entram no radar
Além da China, o setor também acompanha o crescimento das importações provenientes de outros países. Corsino afirma que a entidade pretende provocar a defesa comercial brasileira para avaliar a existência de eventual prática de dumping nas exportações argentinas de alho.
A preocupação é especialmente relevante para produtores do Sul do país. Segundo o dirigente, a área cultivada na região teria caído de cerca de 8 mil hectares entre o fim dos anos 1980 e os anos 1990 para aproximadamente 1,5 mil hectares atualmente.
O Egito também passou a receber maior atenção do setor. Corsino afirma que as importações brasileiras de alho egípcio cresceram mais de 300% neste ano e relata que a Anapa já apresentou denúncia às autoridades para verificar a origem do produto.
A preocupação da entidade é a possibilidade de triangulação de alho chinês pelo Egito. O dirigente afirma ainda que o produto chega ao mercado brasileiro a preços inferiores aos do alho nacional sem a imposição de tributos.
Mercado externo ganha peso
O cenário reforça a importância das importações para o abastecimento brasileiro. O país é o quarto maior importador mundial de alho, atrás de Indonésia, Malásia e Bangladesh. Ao mesmo tempo, a Argentina tem no Brasil um dos seus principais mercados: 67,2% do volume de alho exportado pelo país tem o Brasil como destino.
Apesar do aumento do volume importado, o preço médio do alho comprado pelo Brasil no exterior também subiu em 2025. A Conab aponta alta de 2% em dólares e de 2,3% em reais correntes em relação a 2024.
O resultado é um mercado em que o produtor brasileiro enfrenta custos elevados e concorrência de fornecedores internacionais, enquanto o país amplia a dependência do produto importado. Para o setor, a discussão sobre defesa comercial passa a ser central para a manutenção da produção nacional e da atividade econômica nos municípios especializados na cultura.
Fonte: CNN Brasil
-
Portos e Terminais
ago, 14, 2024
0
Cargill e CMA CGM embarcam algodão pela primeira vez no porto de Fortaleza
-
Portos e Terminais
jun, 12, 2024
0
Movimentação do Porto de São Francisco cresce 13% em maio
-
Grãos
mar, 21, 2022
0
Argentina sobe imposto de exportação de farelo e óleo de soja
-
Navegação
mar, 16, 2022
0
Intermodal 2022: Norsul apresenta meta de zerar as emissões de CO2 até 2050

