Demanda chinesa impulsiona exportações de sorgo do Brasil
out, 08, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202641
Quando a China entra em um mercado, pode transformar toda a cadeia de suprimentos — e foi exatamente o que aconteceu com o sorgo. Em setembro, a VLI realizou o primeiro transporte ferroviário do grão no Brasil voltado à exportação para o mercado chinês, após criar uma nova operação logística para atender à demanda.
O interesse da China pelo sorgo brasileiro começou a crescer neste ano, abrindo uma nova frente para o setor de grãos em um cenário de maior pressão climática sobre a produção agrícola.
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de sorgo, atrás apenas dos Estados Unidos. Na outra ponta, a China responde por mais de 80% das importações globais do cereal, utilizado tanto na produção de ração animal quanto na fabricação de baijiu, bebida alcoólica tradicional chinesa.
O Brasil deve exportar até 2 milhões de toneladas de sorgo neste ano, afirmou Carolina Hernandez, diretora-executiva Comercial, de Projetos e Planejamento Estratégico da VLI, em entrevista ao Valor. A companhia sozinha já negociou o transporte de cerca de 800 mil toneladas.
“Estimamos que a VLI deverá movimentar entre 800 mil e 1 milhão de toneladas de sorgo em 2026”, afirmou a executiva. “Já temos uma participação importante nesse mercado.”
Para alcançar esse volume, a companhia precisou estruturar um sistema específico para o sorgo.
“Quando vimos que a China teria essa demanda e que o Brasil tinha uma boa janela para embarques, decidimos criar uma solução logística”, disse Hernandez.
A principal iniciativa da VLI foi separar ativos para a movimentação do sorgo, utilizando equipamentos que já pertenciam à empresa. Segundo a executiva, foi necessário reservar espaço para o recebimento da carga nos terminais de transbordo, além de áreas específicas em armazéns, silos e correias transportadoras, bem como dedicar uma frota ferroviária à operação.
Nos portos, também foram separadas áreas para o carregamento do produto, evitando contaminações com outras cargas.
A companhia começou a receber o sorgo destinado à exportação em julho. A carga passou a ser transportada pela Ferrovia Centro-Atlântica em duas rotas: de Araguari, em Minas Gerais, para o Espírito Santo, pelo Corredor Leste; e de Uberaba, também em Minas Gerais, para o Porto de Santos, pelo Corredor Sudeste.
Até setembro, a VLI já havia embarcado mais de 250 mil toneladas, sendo 90 mil toneladas por Santos e mais de 160 mil toneladas pelo Porto de Tubarão, em Vitória. Nos dois casos, o destino foi a China.
Também em setembro, a operação ferroviária chegou ao Corredor Norte, com a primeira movimentação de sorgo até o Porto do Itaqui, em São Luís, no Maranhão.
A VLI prevê embarcar neste mês o sorgo transportado por esse corredor, tendo o Norte da África como primeiro destino e a China como destino final.
Exportações de sorgo do Brasil ganham força com mercado chinês
No acumulado até agosto, o Brasil exportou 231,2 mil toneladas de sorgo. Os compradores chineses responderam por grande parte desse volume, adquirindo 196,05 mil toneladas somente em agosto, segundo os dados mais recentes citados pela reportagem.
Esse fluxo comercial tornou-se possível depois que Brasil e China assinaram, em novembro de 2024, um protocolo fitossanitário para a exportação de sorgo brasileiro ao mercado chinês.
Pequim, no entanto, só autorizou os primeiros estabelecimentos brasileiros a exportar o produto em novembro de 2025. Os embarques começaram a ganhar força efetivamente no segundo semestre deste ano.
O protocolo bilateral para o sorgo permanece vigente e faz parte das exigências estabelecidas para a exportação do grão brasileiro à China.
No Brasil, o sorgo é cultivado principalmente na segunda safra, durante o inverno, período em que disputa área com o milho.
Uma de suas vantagens está no custo menor de produção, já que a cultura demanda menos água e fertilizantes. Entre os produtores, a percepção é de que o sorgo pode ser uma alternativa especialmente interessante quando já passou a janela climática considerada ideal para o plantio do milho.
Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho), afirma que a entrada da China como compradora movimentou o mercado e também ajudou a elevar os preços.
Segundo ele, em São Paulo já é possível encontrar sorgo negociado a valores próximos aos do milho.
“Antigamente, o sorgo era usado apenas para ração animal. Hoje ele também é utilizado para a produção de etanol e, agora, para exportação”, afirmou.
Para Bertolini, o principal gargalo do sorgo ainda está na logística, já que os canais de exportação continuam em desenvolvimento e também precisam receber autorização das autoridades chinesas.
Em alguns casos, o produto precisa ser embarcado em contêineres, em vez de navios graneleiros, o que encarece a operação.
“O custo logístico dificulta o acesso ao nosso sorgo. Por outro lado, ficamos animados porque, mesmo com essa dificuldade e sem tradição nas exportações, o Brasil está crescendo nesse mercado — não apenas para a China, mas também para países africanos que estão comprando”, afirmou.
Fonte: Valor International
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