Eleição no Brasil pode redefinir comércio com os EUA, com tarifas e minerais em jogo
out, 09, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202641
Duas visões bastante diferentes para as relações entre Brasil e Estados Unidos estão em jogo no segundo turno da eleição presidencial brasileira.
Bolsonaro chega ao segundo turno, marcado para 25 de outubro, depois de obter cerca de 47% dos votos válidos no primeiro turno, contra 45% de Lula, em uma campanha na qual a relação dos dois candidatos com Washington esteve sob escrutínio.
O resultado terá implicações importantes para o comércio exterior brasileiro. O próximo presidente precisará administrar as tensões entre os dois maiores parceiros comerciais do país — China e Estados Unidos — ao mesmo tempo em que define estratégias para exploração mineral, industrialização e cooperação regional.
Brasil e Estados Unidos criaram no mês passado um grupo de trabalho para avançar nas negociações sobre tarifas e em um marco comercial bilateral mais amplo. O acesso americano aos minerais críticos e às terras raras brasileiras surgiu como um dos pontos centrais das conversas, em meio à tentativa de Washington de reduzir sua dependência da China nesses insumos.
Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos, avalia que, diante da possibilidade de mudança de governo, Washington pode evitar fazer concessões maiores a Lula antes do segundo turno, preferindo aguardar o resultado da eleição e uma eventual negociação com Bolsonaro.
A estratégia de Lula para os Estados Unidos tem se concentrado na defesa da soberania brasileira, depois que o presidente americano Donald Trump pressionou o Brasil em relação ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente cumprindo pena de 27 anos por tentativa de golpe de Estado.
A relação de Lula com Washington tem sido marcada por um tom nacionalista, enquanto o presidente prioriza o multilateralismo e a aproximação com países do Sul Global, incluindo os integrantes do BRICS.
Embora essa postura tenha contribuído para fortalecer sua popularidade no Brasil, os resultados das negociações com Washington foram irregulares, segundo especialistas ouvidos pela Reuters.
Caso Lula seja reeleito, um novo Congresso com forte presença de partidos de direita poderá aumentar a pressão para uma mudança de postura, avaliou Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics, em Washington.
Segundo ela, Lula poderia enfrentar maior pressão para atender a algumas demandas americanas relacionadas a recursos naturais e a outros temas da relação bilateral.
Bolsonaro aposta em maior alinhamento no comércio Brasil-EUA
Enquanto “Lula tem uma política externa bem estabelecida”, a de Bolsonaro ainda é uma “página em branco”, afirmou Rubens Ricupero, ex-diplomata brasileiro com passagens pelos Estados Unidos e pela Europa.
O senador mantém uma relação próxima com o governo Trump, favorecida também pela atuação de seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal que vive nos Estados Unidos desde o início do ano passado e foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por solicitar intervenção americana no processo judicial contra seu pai em 2025.
Embora nenhum dos irmãos tenha confirmado as especulações, uma pessoa próxima à campanha afirmou à Reuters que ambos vêm discutindo possíveis funções internacionais para Eduardo caso Flávio Bolsonaro seja eleito presidente.
Na avaliação de De Bolle, uma vitória de Bolsonaro resultaria em uma política externa “muito mais alinhada aos Estados Unidos do que o Brasil tradicionalmente teve”.
Os laços da família Bolsonaro com o governo Trump poderiam criar um ambiente mais favorável para negociações com Washington. Ao mesmo tempo, especialistas apontam o risco de concessões em temas considerados estratégicos, como minerais críticos.
Jean Castro, presidente da Associação Brasileira de Relações Institucionais e Governamentais, avalia que existe espaço para acordos, mas Bolsonaro também enfrentaria questionamentos de sua própria base sobre a autonomia brasileira em relação aos Estados Unidos e pressão para preservar uma imagem de independência.
Desde o início da campanha, Bolsonaro buscou aproximação com Trump e com outros líderes da direita latino-americana, como o presidente argentino Javier Milei e o colombiano Abelardo de la Espriella.
Bolsonaro e Trump também já demonstraram alinhamento em temas ligados ao combate ao crime organizado. Durante uma visita a Washington em maio, o senador pediu que o governo americano classificasse grandes facções criminosas brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, proposta aceita pelos Estados Unidos e rejeitada por Lula, que classificou a medida como uma forma de intervenção. O presidente brasileiro defendeu, em vez disso, uma estratégia nacional de segurança combinada à cooperação internacional.
Pesquisas de opinião citadas pela Reuters mostraram que os frequentes embates de Lula com Trump sobre comércio e segurança contribuíram para uma melhora de sua popularidade, enquanto outros levantamentos indicaram que parte dos brasileiros atribuía a Bolsonaro maior responsabilidade pelas tarifas impostas pelo governo americano em julho.
Fonte: Reuters
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