Economia

Importação acelera e amplia déficit da balança na indústria brasileira

fev, 13, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202607

Mesmo com o tarifaço americano, a indústria de transformação conseguiu aumentar as exportações em 3,8% em 2025. A importação de bens industriais, porém, cresceu mais que o dobro da taxa, em 8,6%. O resultado foi um déficit da balança comercial da indústria de transformação que se aprofundou para US$ 71,1 bilhões em 2025, o maior de toda a série histórica desde 1997. O saldo negativo contrasta com o resultado da balança comercial total do país, que fechou o ano passado com superávit de US$ 68,3 bilhões.

No mercado marítimo, as importações de cargas em contêineres totalizaram 3.521.432 TEU, com alta de 4,4%, ritmo superior ao das exportações, segundos dados da Datamar.

Acompanhe abaixo um comparativo das importações brasileiras de contêineres mês a mês nos últimos quatro anos. O gráfico foi elaborado com dados do DataLiner:

Importação de Contêineres do Brasil| Jan 2022 – Dez 2025 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

A importação extraordinária de plataformas de petróleo gerou déficit de US$ 5,3 bilhões no ano passado, contribuindo para a deterioração da balança da transformação. Mesmo retirando os efeitos das plataformas em toda a série, o déficit comercial da indústria em 2025 se mantém como o mais profundo, embora mais comparável aos vales de 2013 e 2014, quando os déficits chegaram a US$ 64,8 bilhões e US$ 63,6 bilhões, respectivamente. Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

O cenário em 2025 foi fortemente influenciado pelo avanço do déficit comercial dos ramos de alta intensidade tecnológica e pela redução da contribuição da média-baixa tecnologia, faixa que é a principal geradora de superávits comerciais dentro da indústria de transformação, destaca Rafael Cagnin, economista-chefe do Iedi.

Na alta tecnologia, o déficit comercial em 2025 se aprofundou para US$ 50,6 bilhões, ante US$ 45,8 bilhões em 2024 e US$ 27,1 bilhões em 2019. Nesse grupo estão aeronaves e farmacêuticos, dois setores que, por razões distintas, foram muito atingidos pelos efeitos da pandemia de covid-19.

O setor de aeronaves contribuiu com superávit para a transformação de 1999 a 2018, de forma ininterrupta. Desde 2019, porém, apresenta saldos negativos crescentes. Já o ramo farmacêutico, tradicionalmente deficitário, aprofundou o saldo negativo em 2025.

Nos dois setores, o aumento das importações deu o ritmo da elevação do déficit comercial nos últimos anos. Em aeronaves, as importações somaram US$ 15,3 bilhões em 2025, ante US$ 12,4 bilhões no ano anterior e US$ 6,4 bilhões em 2019.

Após a queda em 2020, as exportações brasileiras do setor de aeronaves vêm se recuperando gradualmente, mas em ritmo mais lento que o das importações. Em 2025, as vendas externas do setor atingiram US$ 5,5 bilhões, valor próximo aos US$ 5,8 bilhões de 2019. O resultado foi um déficit comercial de US$ 9,9 bilhões em 2025, contra US$ 604 milhões em 2019.

Segundo Cagnin, o setor de aeronaves sofre forte pressão de descarbonização, com calendário para uso do SAF (Combustível Sustentável de Aviação), o que impõe custos financeiros e tecnológicos. O Programa Combustível do Futuro, criado pela Lei 14.993, de 2024, estabelece cronogramas para a transição energética brasileira, com início do uso do SAF em voos domésticos a partir de 2027.

Para Cagnin, a Embraer já compete com fabricantes externos em aviões de maior porte. Ele afirma que há sinalização de interação positiva entre a aviação nacional, a necessidade de conectividade continental e a competência industrial brasileira. Ainda assim, o país importa muito. O setor público, defende, pode ajudar a ampliar a integração entre companhias aéreas e a fabricação nacional.

Também pressionado por importações, o ramo farmacêutico aprofundou o saldo negativo nos últimos anos. O déficit comercial do setor foi de US$ 15 bilhões em 2025, mais que o dobro dos US$ 7 bilhões registrados em 2019. As importações atingiram US$ 16,4 bilhões em 2025, frente a US$ 8,2 bilhões em 2019.

A crise sanitária trouxe forte pressão sobre o setor, que, na retomada, passou a receber grandes projetos de inovação. Segundo Cagnin, as políticas industriais no mundo passaram a priorizar o setor farmacêutico, tanto como resposta à pandemia quanto pela concentração da produção de insumos na China e na Índia.

Há mudança estrutural após a pandemia, em parte ligada às vacinas, mas que vai além. O ciclo tecnológico avançou no mundo e o Brasil ficou para trás. Para Cagnin, é preciso acelerar as facilidades ao processo inovativo, que envolvem não apenas financiamento, mas também ajustes regulatórios e políticas que minimizem riscos tecnológicos.

É necessário assegurar demanda para viabilizar pesquisas. No caso dos farmacêuticos, o Sistema Único de Saúde (SUS) é grande fonte de demanda. As políticas públicas voltaram a ser articuladas, mas levam tempo. O déficit no setor reflete o atraso tecnológico em relação ao restante do mundo. A forte importação dos medicamentos conhecidos como “canetinhas”, usados para emagrecimento, exemplifica esse movimento.

Na média-alta tecnologia, o déficit em 2025 foi de US$ 82,4 bilhões, puxado principalmente por químicos e máquinas e equipamentos. Nesse último ramo, a produção doméstica foi afetada pela alta taxa de juros. Há contexto de baixo investimento e forte concorrência da China.

Os outros dois grupos de intensidade tecnológica levantados pelo Iedi são superavitários. Mesmo com US$ 5,3 bilhões em importações de plataformas de petróleo em 2025, a média tecnologia fechou o ano com superávit de US$ 2,4 bilhões.

A média-baixa tecnologia manteve a tradição e registrou superávit de US$ 59,5 bilhões, abaixo dos US$ 61,2 bilhões de 2024. A principal origem dos saldos positivos nesse grupo vem de alimentos, bebidas e fumo, com superávit de US$ 60 bilhões em 2025, valor próximo ao do ano anterior. O superávit menor decorreu da queda de 1% nas exportações, enquanto as importações subiram 1,7%. Foi a única faixa com recuo das exportações no ano.

Para Cagnin, o tarifaço americano, embora tenha afetado setores específicos, não teve impacto relevante no agregado da indústria, que conseguiu elevar os embarques em 2025. Segundo ele, a medida é mais um fator na desorganização do comércio internacional e na reconfiguração da geopolítica e das cadeias globais de valor.

Fonte: Valor Econômico

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.