Economia

Setores voltados à exportação devem impulsionar novamente o PIB em 2026

mar, 04, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202610

Em meio ao impacto dos juros elevados sobre a demanda doméstica, os setores voltados à exportação se destacaram no último trimestre de 2025, dando uma contribuição positiva significativa ao crescimento do PIB no período. Economistas ouvidos pelo Valor esperam que esse suporte continue em 2026. Embora não haja consenso sobre o tamanho da safra deste ano, os grãos devem sustentar as exportações, juntamente com o minério de ferro e o petróleo, que podem ser afetados pelo novo conflito no Oriente Médio.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB cresceu 2,3% em 2025, com contribuição positiva de 0,3 ponto percentual (p.p.) do setor externo e de 2 p.p. da demanda doméstica. As exportações avançaram 6,2% no ano. As importações também cresceram, embora em ritmo mais lento, de 4,5%.

No quarto trimestre de 2025, as exportações cresceram 3,7%, enquanto as importações caíram 1,8% em relação aos três meses anteriores, mostram dados do IBGE. A queda das importações como componente do PIB aumenta a contribuição líquida do setor externo. Na comparação trimestral com ajuste sazonal, o PIB cresceu 0,1%. Nessa medida, a contribuição líquida do setor externo foi de 1 p.p., segundo cálculos de Rodolfo Margato, economista da XP.

No fim de 2025, a demanda doméstica havia claramente enfraquecido, em contraste com a aceleração das exportações líquidas, disse Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “O contraste entre 2024 e 2025 foi mais ou menos esse, com recuperação das exportações líquidas e desaceleração da demanda doméstica. Foi um ano em que as commodities tiveram papel importante e as exportações líquidas mostraram força.”

No entanto, ele afirmou que ambas as forças devem vir “muito fracas” em 2026. Dos 1,8% de crescimento do PIB previstos por Vale para 2026, espera-se que 1,1 p.p. venham das exportações líquidas e 0,8 p.p. da demanda doméstica. “Teremos, no fim, um cenário de baixo crescimento, basicamente porque a demanda doméstica não está conseguindo impulsionar a atividade. Na história do PIB brasileiro, os anos de crescimento mais forte foram aqueles com demanda doméstica mais acelerada.”

Dados do IBGE mostram que, em 2024, quando o PIB cresceu 3,4%, a demanda doméstica aumentou 5,4 p.p., enquanto o setor externo deu contribuição negativa de 2 p.p. Em 2021, o PIB avançou 4,8%, com apoio de 6,3 p.p. da demanda doméstica e contribuição negativa de 1,5 p.p. do setor externo. Em 2010, quando o PIB cresceu 7,5%, a demanda doméstica contribuiu com 10 p.p., enquanto o setor externo retirou 2,5 p.p.

Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador do FGV Ibre, estima que o crescimento do PIB desacelerará para 1,7% em 2026, em um cenário de afrouxamento monetário, política fiscal ativa, ciclo político-eleitoral e expansão da renda disponível. Nesse contexto, espera-se que o setor externo mantenha contribuição positiva. Para 2026, Ribeiro projeta crescimento das exportações de 2,1% e estabilidade nas importações, resultando em contribuição de 0,5 p.p. do setor externo para o crescimento pelo lado da demanda.

No ano passado, o setor externo se destacou no quarto trimestre, refletindo o alívio das preocupações com o impacto negativo de aumentos tarifários impostos pelos Estados Unidos, disse Matheus Pizzani, economista do PicPay. Na avaliação dele, 2026 deve marcar um retorno a um padrão em que a maior parte do impulso dinâmico venha do setor externo, apoiado por uma “excelente safra das principais commodities agrícolas” e, na margem, por melhora nos preços das commodities minerais e energéticas, especialmente o petróleo, que, mantidas as demais condições, pode ter os preços impulsionados pelos recentes acontecimentos no Oriente Médio.

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, afirmou que o banco não espera uma safra recorde de grãos em 2026, ao contrário de parte do mercado. Por enquanto, seu cenário base é de uma safra “excelente, acima do potencial”, mas menor do que a de 2025. “Os principais protagonistas das exportações serão soja, milho, gado, petróleo e gás.” Ela observou que os volumes exportados em 2026 devem continuar significativos. “Em termos de valor, porém, há a questão volume versus preço. Estamos sendo prejudicados por um real estruturalmente mais forte.”

Benedito afirmou que a eclosão da crise no Oriente Médio deve manter os preços do petróleo “orbitando” entre US$ 82 e US$ 85 por barril. Preços entre US$ 95 e US$ 105 por barril ocorreriam apenas no caso de uma escalada abrupta do conflito ou do fechamento do Estreito de Ormuz — por onde escoa o petróleo do Golfo Pérsico — algo que não faz parte do cenário base, disse.

Ribeiro, da BRCG, afirmou que o impacto do conflito sobre as exportações brasileiras deve ser analisado com cautela. “Existem múltiplos canais, sem sequer entrar na discussão cambial. A balança comercial de petróleo e derivados é superavitária, mas se adicionarmos a conta de produtos químicos, o saldo passa a ser deficitário. Portanto, depende muito de como todos esses vetores se movem juntos; não podemos olhar apenas para a conta do petróleo. Precisamos considerar os produtos químicos que importamos, como fertilizantes e defensivos agrícolas.”

Por Marta Watanabe para Valor International

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.