Segundo o professor de Relações Econômicas Internacionais da Universidade Santa Cecília, Francisco Américo Cassano, além do Brasil o Irã mantém uma parceria estratégica na área de energia com a Venezuela.
Cassano destacou que um eventual conflito entre Irã e Estados Unidos poderia ter algum impacto na safra brasileira, já que o país do Oriente Médio é fornecedor de fertilizantes para o Brasil.
Ele também alertou que uma eventual redução das exportações para o Irã poderia gerar excedentes de milho e soja, que o Brasil teria de redirecionar para outros mercados.
Ainda assim, “para o Brasil, essas exportações representam 0,85% do total. Em suma, o Irã, de forma direta, é irrelevante para a América Latina”, afirmou Ángel Saz Carranza.
Principais destinos das exportações do Irã
Dados do Observatório de Complexidade Econômica (OEC) indicam que, em 2024, os principais destinos das exportações do Irã na América do Sul foram:
- Brasil*: US$ 10,1 milhões
- Chile: US$ 1,51 milhão
- Peru: US$ 1,21 milhões
- Argentina: US$ 988.000
- Equador: US$ 569.000
- Colômbia: US$ 545.000
- Bolívia: US$ 292.000
Segundo a OEC, os principais produtos exportados pelo Irã para o mundo em 2024 foram polímeros de etileno (US$ 1,88 bilhão), minério de ferro (US$ 1,13 bilhão) e derivados de álcoois acíclicos (US$ 1,05 bilhão).
Na sequência aparecem outras frutas secas (US$ 777 milhões) e gás liquefeito de petróleo (GLP), com US$ 765 milhões.
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“Os principais destinos foram China (US$ 4,44 bilhões), Turquia (US$ 2,45 bilhões), Paquistão (US$ 1,2 bilhão), Índia (US$ 1,06 bilhão) e Azerbaijão (US$ 633 milhões)”, aponta a OEC.
Relações políticas
Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics, disse à Bloomberg Línea que o Irã mantém relações políticas relevantes na América Latina, especialmente com a Venezuela, considerada seu principal aliado na região.
Segundo ela, países como Equador e Bolívia também mantiveram proximidade política com Teerã no passado, embora mudanças de governo nesses países tenham levado a uma reorientação dessas relações.
Pavese, que leciona na FIA Business School e no Instituto Mauá de Tecnologia, no Brasil, ressaltou que essas afinidades políticas não necessariamente se refletem no volume de comércio.
Ela acrescentou que eventuais efeitos de um conflito envolvendo o Irã seriam sentidos na América Latina sobretudo de forma indireta, por meio de fatores como inflação e preços do petróleo.
A instabilidade também poderia pressionar moedas da região, sobretudo as mais frágeis, que tendem a enfrentar maior risco de desvalorização em cenários de turbulência externa.
Crise do petróleo
Diante de um comércio marginal, a principal via de impacto do conflito no Oriente Médio para a América Latina tem sido, até o momento, o estreitamento do fluxo pelo Estreito de Ormuz, rota por onde transita cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo e gás natural liquefeito.
“Na América Latina, o impacto é assimétrico: exportadores líquidos de petróleo tendem a melhorar os termos de troca e a arrecadação, embora enfrentem tensões políticas sobre a distribuição de renda e subsídios”, analisou Ángel Saz Carranza em nota.
Já os importadores líquidos, especialmente no Caribe, costumam enfrentar deterioração da conta corrente e pressões inflacionárias, “com dilemas fiscais se tentarem amortecer o impacto por meio de subsídios aos combustíveis ou à eletricidade”.
*Para 2025, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços estima que o Brasil comprou cerca de US$ 84 milhões em produtos iranianos, principalmente fertilizantes, que representaram 79% do total.
Por Daniel Salazar Castellanos para Bloomberg Linea