Economia

Brasil amplia superávit com a China e vê déficit com os EUA crescer sob impacto de tarifas

mar, 18, 2026 Postado porGabriel Malheiros

Semana202612

O fortalecimento das relações comerciais entre Brasil e China, aliado à queda das exportações para os Estados Unidos sob o impacto de tarifas mais elevadas, alterou a posição do país nos rankings comerciais das duas maiores economias do mundo.

Entre 2024 e 2025, o Brasil passou da quarta para a terceira posição entre os países com maior déficit comercial do ponto de vista da China. No mesmo período, subiu da sétima para a quinta posição entre os países que mais contribuem para o superávit comercial dos Estados Unidos. Em ambos os casos, os dados refletem a perspectiva de China e EUA. Sob a ótica brasileira, 2025 resultou em superávit com a China e déficit com os Estados Unidos.

Os dados de parceiros comerciais do DataLiner, plataforma da inteligência de dados da Datamar, mostram a China como principal destino das exportações conteinerizadas do Brasil, com 40.275 TEUs, alta de 4%, enquanto os Estados Unidos aparecem em segundo, com 20.885 TEUs, mas com queda de 34%.

Segunda a Datamar, as principais exportações do Brasil para a China, em janeiro de 2026, incluíram carne bovina congelada (7.780 TEUs, alta de 4,8%), algodão (7.043 TEUs, alta de 79,5%) e celulose química de madeira (6.954 TEUs, alta de 47%).

O gráfico abaixo utiliza informações extraídas do DataLiner para comprar o volume de contêineres exportados para os dois principais parceiros comerciais do Brasil desde janeiro de 2023:

Exportações para EUA e China | Jan 2023 –  Jan 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração) 

Para 2026, economistas esperam uma continuidade da aproximação comercial com a China. Além de o Brasil fornecer produtos com forte demanda no mercado chinês, a duração do conflito no Oriente Médio pode ampliar as exportações de petróleo para a Ásia — especialmente para a China — caso persistam as restrições no Estreito de Ormuz. Em 2025, os embarques de petróleo brasileiro para o país asiático atingiram níveis recordes em volume e valor.

As exportações para os Estados Unidos, por sua vez, devem seguir influenciadas pela política tarifária do presidente Donald Trump, o que aumenta a importância das negociações bilaterais, segundo analistas, em um contexto de elevação de tarifas de importação por Washington.

O déficit comercial da China com o Brasil somou US$ 44,8 bilhões em 2025, atrás apenas de Taiwan e Austrália. No ano anterior, a Suíça também registrava déficit superior ao brasileiro.

Já do ponto de vista dos Estados Unidos, o superávit comercial com o Brasil atingiu US$ 14,4 bilhões em 2025. A Holanda liderou o ranking, com US$ 60,7 bilhões, seguida por Reino Unido, Hong Kong e Emirados Árabes Unidos. O aumento das tarifas — que elevaram sobretaxas para entre 40% e 50% em 2025 — ocorreu após o Brasil já ter ampliado o superávit americano. Em 2023, esse saldo havia sido de US$ 5,7 bilhões, colocando o país na nona posição.

Dados de autoridades chinesas e americanas refletem tendências divergentes no comércio brasileiro com os dois mercados.

Segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações brasileiras para a China somaram US$ 99,9 bilhões em 2025, alta de 5,9% em relação a 2024. As importações cresceram 11,4%, para US$ 70,92 bilhões, em nível recorde, contribuindo para o maior fluxo bilateral já registrado.

No comércio com os Estados Unidos, as importações brasileiras também aumentaram, atingindo US$ 45,1 bilhões, o segundo maior nível da série histórica, atrás apenas de 2022. As exportações, por outro lado, recuaram 6,7%, para US$ 37,7 bilhões. A queda foi mais acentuada no segundo semestre, com retração de 16,7%, revertendo o crescimento de 4,4% observado entre janeiro e junho.

Para Livio Ribeiro, sócio da BRCG e pesquisador do Ibre-FGV, as exportações para a China devem continuar em expansão, impulsionadas por commodities como produtos agrícolas e petróleo.

“Há uma complementaridade natural entre a pauta exportadora brasileira e a demanda asiática, especialmente chinesa. Fornecemos insumos estratégicos e recebemos produtos industrializados em volumes crescentes. Trata-se de uma dinâmica estrutural, que dificilmente será revertida”, afirmou.

Em 2025, cerca de 80% das exportações brasileiras de soja tiveram como destino a China, segundo dados da Secex. Tensões comerciais entre Pequim e Washington favoreceram a soja brasileira, ampliando a participação do país nesse mercado, acrescentou Ribeiro.

No setor de energia, a China respondeu por 45% das exportações brasileiras de petróleo em 2025, percentual que pode chegar a 50% neste ano, segundo Aldren Vernersbach, do Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP). O Brasil exportou, em média, 870 mil barris por dia para o país asiático, apoiado pelo aumento da produção do pré-sal e pela demanda chinesa por fontes de energia consideradas seguras e disponíveis.

A China também busca diversificar seus fornecedores, e o petróleo brasileiro pode se consolidar como alternativa. Atualmente, países do Golfo Pérsico e do Oriente Médio respondem por cerca de 50% das importações chinesas de petróleo.

Vernersbach destacou ainda que previsibilidade regulatória e calendário estável de leilões têm atraído investimentos chineses. Em recente rodada na Margem Equatorial, a estatal chinesa CNPC, em parceria com a Chevron, arrematou nove blocos exploratórios na Foz do Amazonas.

As exportações brasileiras para a China permanecem concentradas em commodities — principalmente soja, minério de ferro e petróleo — que responderam por 74,2% dos embarques em 2025. Já as importações são mais diversificadas, com destaque para produtos ligados à transição energética, como painéis solares e veículos elétricos.

No comércio com os Estados Unidos, as tarifas seguem como principal fator de pressão, segundo André Valério, do Inter. Uma decisão da Suprema Corte americana reduziu parte das tarifas de 50% para 15%, beneficiando o Brasil, mas o impacto acumulado ao longo de meses permanece.

“Não estamos otimistas, porque o dano já foi feito. Foram quase seis meses de tarifas elevadas, afetando sobretudo setores industriais dependentes do mercado americano. Relações comerciais foram interrompidas, e esses vínculos não são facilmente reconstruídos”, afirmou.

Para produtos já tarifados anteriormente, como carne e café, o cenário é mais estável. Ainda assim, Valério avalia que o déficit com os Estados Unidos pode diminuir em 2026, mas sem retorno aos níveis anteriores às tarifas no curto prazo.

Ele também destacou investigações em curso sob a Seção 301 nos Estados Unidos, que podem resultar em novas tarifas e ampliar a incerteza.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil, esse ambiente reforça a necessidade de intensificar o diálogo bilateral.

“Um ambiente mais imprevisível tem efeitos negativos sobre comércio e investimentos. Ao mesmo tempo, essa imprevisibilidade passou a caracterizar o cenário global, com medidas mais restritivas e enfraquecimento de regras multilaterais”, afirmou.

Segundo ele, o superávit americano com o Brasil reforça a importância da relação bilateral. Além do saldo positivo em bens, os Estados Unidos também mantêm superávit em serviços com o Brasil, que chegou a US$ 21,8 bilhões em 2024.

Neto destacou ainda que a pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos é significativamente mais diversificada do que a destinada à China.

“Cerca de 70% das exportações brasileiras para os Estados Unidos correspondem a uma cesta de 51 produtos. Já para a China, a pauta é essencialmente concentrada em três itens”, afirmou.

Fonte: Valor International

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