Peixe

Setor pesqueiro brasileiro adia grandes investimentos em meio à guerra e à incerteza econômica

abr, 06, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202617

O setor pesqueiro brasileiro deve adiar ao menos R$ 500 milhões em investimentos planejados para 2026 diante da guerra no Oriente Médio, da alta dos custos de produção e logística e do avanço da incerteza econômica. A avaliação é de Eduardo Lobo, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), em entrevista ao Valor.

Após a retomada das exportações regulares para os Estados Unidos, com a revogação da alta tarifária, empresas do setor pesqueiro brasileiro se preparavam para acelerar expansões industriais, construir novas plantas e hatcheries e ampliar sua infraestrutura tecnológica. Esses planos, no entanto, foram colocados em compasso de espera.

“Em janeiro e fevereiro, todos os empresários estavam dispostos a recorrer a qualquer tipo de reserva, fazer qualquer tipo de sacrifício, formular e realizar novos investimentos. Hoje, todos estão em compasso de espera porque não sabem o que vai acontecer”, disse Lobo. Segundo ele, a carteira de investimentos represados soma cerca de R$ 500 milhões.

Além do conflito no Oriente Médio, o cenário eleitoral e os sinais moderados de recessão econômica reforçam a cautela no setor pesqueiro brasileiro. A guerra já afetou diretamente mercados relevantes no mundo árabe, onde o turismo tem papel importante no consumo de pescado brasileiro.

“A guerra já afetou diretamente um mercado importante, que é o mercado árabe, onde o setor de turismo é o principal consumidor de pescado brasileiro, e ele colapsou. Praticamente não existe neste momento”, afirmou Lobo.

Confira a seguir a performance das exportações de peixes congelados do setor pesqueiro do Brasil entre janeiro de 2023 e fevereiro de 2026. Os dados estão disponíveis na plataforma DataLiner da Datamar:

Exportação de Peixes | Jan 2023 – Fev 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

No campo logístico, o setor pesqueiro brasileiro já projeta aumento de até 40% nos custos de frete em razão da alta do diesel. As exportações por via aérea também ficaram mais caras com o avanço do combustível de aviação, pressionando ainda mais as margens de uma cadeia já sensível a custos.

O diesel usado pelas embarcações responde por cerca de 40% do custo do pescado adquirido pelas indústrias. O impacto é especialmente relevante em uma atividade que depende de uma frota artesanal numerosa, estimada em cerca de 20 mil embarcações de pequeno porte no Brasil.

Para Lobo, a duração do conflito será determinante para medir os efeitos sobre os preços ao consumidor. Segundo ele, os brasileiros podem começar a sentir repasses a partir de maio. Até agora, o consumo de peixe durante os 45 dias da Quaresma e na Semana Santa foi preservado de aumentos porque o abastecimento havia sido planejado antes do agravamento do cenário externo.

“Isso vai impactar o custo de aquisição e tornar nosso produto mais caro. Podemos perder competitividade no mercado internacional de produtos extrativos e, no mercado interno, o pescado pode chegar mais caro à mesa do consumidor a partir de maio. Isso é muito ruim, porque inibe diretamente o consumo”, disse.

De acordo com Lobo, a formação antecipada de estoques garantiu estabilidade de preços até o fim de abril. “Nos antecipamos para evitar impactos nos preços durante a Semana Santa. Vamos ver os reflexos na reposição dos estoques”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o setor pesqueiro brasileiro ainda enfrenta o desafio estrutural de ampliar o consumo doméstico. Lobo observou que, em um ambiente de renda pressionada, o pescado perde espaço para proteínas mais baratas.

“A recessão é sentida de forma moderada na economia brasileira. Como é uma proteína especial, que não é a mais barata do mercado, alguns segmentos da população gostariam de consumir mais peixe, mas acabam consumindo menos, não por escolha, mas pelo custo”, disse.

Por outro lado, alguns itens importados, como salmão, pescada e bacalhau, estão mais baratos do que na Quaresma do ano passado, favorecidos pela queda do dólar.

No mercado externo, o setor pesqueiro brasileiro precisou redirecionar sua estratégia comercial depois de perder espaço nos Estados Unidos em 2025. Sem acesso ao seu principal destino, a indústria buscou novos compradores e ampliou sua presença na Ásia. A China respondeu por 67% dos embarques brasileiros no ano passado, enquanto Taiwan, Hong Kong e Singapura também avançaram.

A Austrália surgiu como novo mercado, e alguns países africanos mantiveram compras regulares. Já destinos importantes do Oriente Médio, como Dubai, Abu Dhabi e Catar, ficaram comprometidos pela guerra.

“Esses mercados absorveram parte da produção que ia para os Estados Unidos, a preços mais baixos, mas é o início de um novo mercado consumidor”, afirmou Lobo.

Segundo a Abipesca, o Brasil deixou de exportar cerca de US$ 100 milhões em produtos de pescado para os Estados Unidos por causa da alta tarifária do ano passado. Agora, com tarifa de 10%, no mesmo patamar dos concorrentes, a expectativa do setor pesqueiro brasileiro é ampliar as vendas e alcançar US$ 550 milhões em exportações para o mercado americano.

Lobo também citou como sinal positivo a ida do ex-ministro da Pesca, André de Paula, para o Ministério da Agricultura. Na avaliação dele, a mudança ampliou o peso político do setor pesqueiro brasileiro dentro do governo federal.

A principal aposta do setor, porém, segue sendo a auditoria da União Europeia no Brasil, aguardada há sete anos. Caso avance, ela poderá reabrir um mercado estratégico para o pescado brasileiro. Segundo Lobo, há uma possibilidade real de retomada das relações comerciais e das exportações para o bloco.

Fonte: Valor International

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