Blog Notícias (PT)

Brasil tenta reduzir dependência em fertilizantes

abr, 29, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202618

Com cerca de 86% das necessidades de fertilizantes supridas por importações – no caso dos potássicos e nitrogenados, o percentual está em torno de 95 %, e nos fosfatados, 70% -, o Brasil tenta reduzir essa dependência. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam compras internacionais de 45,5 milhões de toneladas em 2025, com despesas de US$ 15,5 bilhões.

Dados obtidos pela Datamar mostram uma queda de 12,3% nas importações de fertilizantes do Brasil no primeiro trimestre do ano. Confira mais detalhes a seguir:

Importação de Fertilizantes | Jan-Mar 2026 | WTMT

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Há vários projetos para amenizar esses números. Um deles é o complexo de Taquari-Vassouras, em Rosário do Catete (SE), a única mina de extração de cloreto de potássio em operação em território brasileiro. Em novembro do ano passado, a Mosaic vendeu o ativo para a Stratos (novo nome da VL Mineração), empresa da família Batista, dona da JBS, que tem planos de expansão.

A produção atual é de cerca de 500 mil toneladas e, segundo o diretor comercial da Stratos, Ricardo Nascimento, esse volume deve crescer 11% em 2026. A mina, que foi comprada por cerca de US$ 27 milhões, tinha uma expectativa de mais nove anos de vida útil, mas estudos da Stratos indicam possibilidades de extração para mais duas décadas.

“Há potencial de ampliação ao longo dos próximos anos, à medida em que novos investimentos e melhorias operacionais forem implementadas”, diz o executivo. A Stratos já tem contratos firmados para fornecer cloreto de potássio para fabricantes de fertilizantes e produtores rurais.

Outro projeto previsto é o Autazes, no Amazonas, tocado pela Potássio do Brasil, subsidiária da mineradora canadense Brazil Potash Corp. É na Amazônia – região ambientalmente sensível – que estão as maiores reservas brasileiras de potássio e, justamente por isso, a empreitada é protagonista de uma batalha judicial. Em abril, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) acusou a mineradora de desmatar áreas localizadas dentro da Terra Indígena (TI) Lago do Soares, reivindicada pelo povo Mura.

Trata-se de território em fase de estudos de identificação e delimitação pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

O procurador do Ministério Público Federal no Amazonas (MPF-AM) Fernando Merloto Soave afirma que há muitas violações a territórios indígenas no projeto amazônico – entre elas, a ausência de consulta prévia, livre, informada e de boa-fé aos indígenas e comunidades tradicionais.

No ano passado, o Tribunal Federal da Primeira Região (TRF-1) referendou a competência do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), em vez do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), como responsável pela concessão de licenças ao projeto, decisão que o MPF contesta. “Não é correto que um órgão estadual emita licenças que impacte territórios indígenas”, afirma Soave.

A reportagem não obteve retorno às tentativas de contato com a Potássio do Brasil. Em apresentação a investidores sobre o status do empreendimento em 2026, a empresa afirma que a construção teve início e que já há contratos de compra mínima garantida. A mineradora também quer incluir o empreendimento em incentivos fiscais. O Projeto Autazes prevê investimentos de US$ 2,5 bilhões e capacidade de produção de 2,4 milhões de toneladas por ano.

Segundo Marilia Morelli, analista da Yeb Inteligência de Mercado, o projeto Autazes poderá atender a cerca de 20% da demanda brasileira atual de potássio. “É uma contribuição relevante, mas ainda limitada diante do peso das importações totais”, avalia. Já a mina Taquari-Vassouras, para ela, funciona mais como “amortecedor do que como solução estrutural”, uma vez que dá sinais de ser um ativo maduro.

Ela lembra que, embora o argumento econômico e logístico a favor do projeto Autazes seja forte – a redução da exposição do agronegócio brasileiro a choques externos e encurtamento da cadeia de suprimento -, o custo socioambiental não é trivial. O cenário do mercado de potássio para 2026, avalia Marília, é “abastecido, porém, mais volátil e mais caro do que parecia no início do ano”.

Com a guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz, os preços, especialmente dos fertilizantes nitrogenados, já subiram cerca de 20%. Para ajudar a reduzir a necessidade externa e os impactos na disponibilidade desses insumos devido a questões geopolíticas, a Petrobras voltou ao setor.

A estatal começou, em dezembro passado, a produção na fábrica de fertilizantes nitrogenados em Laranjeiras (SE), que já atingiu 90% da sua capacidade máxima, de 1,8 mil toneladas diárias de ureia, ingrediente com alta concentração de nitrogênio. A unidade também produz amônia. Em janeiro foi a vez da retomada da fábrica de Camaçari (BA), que já superou 95% da capacidade, produzindo cerca de 1,3 mil toneladas por dia de ureia, além de amônia e Arla 32 (reagente usado em motores a diesel).

Ambas as fábricas receberam R$ 76 milhões de investimentos iniciais. A estatal também previa retomar em abril as atividades da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), no Paraná, fábrica com capacidade para produzir 720 mil toneladas por ano de ureia e ainda outros insumos.

As unidades do Nordeste e a Ansa podem atender a 20% das necessidades internas de ureia e, partir de 2029, a Petrobras pode elevar esse percentual para 35%. Será quando uma nova fábrica da estatal, localizada em Três Lagoas (MS), tem previsão de começar a produzir. Os investimentos nessa unidade são de cerca de US$ 1 bilhão.

A guerra do Irã, avalia Morelli, atinge muito mais diretamente nitrogenados e fosfatados do que potássicos. “Isso porque gás natural, enxofre e a própria rota do Golfo têm peso maior nesses mercados”, diz a analista.

Fonte: Valor Econômico

Sharing is caring!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


O período de verificação do reCAPTCHA expirou. Por favor, recarregue a página.