Fechamento de Hormuz faz fertilizantes irem para topo da agenda de chanceler brasileiro
jun, 02, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202623
O fechamento do Estreito de Hormuz em decorrência da guerra no Irã levou a importação de fertilizantes para o topo da agenda do chanceler Mauro Vieira durante sua visita a Pequim no início desta semana. Isso porque o preço dos insumos disparou após o início do conflito entre os persas, Estados Unidos e Israel, causando preocupação nos agricultores brasileiros para o plantio da safra de verão.
O movimento faz eco à ida do ministro ao Uzbequistão e ao Cazaquistão em maio, quando também tratou da compra de fertilizantes. As viagens fazem parte da estratégia adotada pelo governo para aumentar a diversificação de fornecedores e diminuir a dependência de poucos países.
Na China, o objetivo é garantir o abastecimento antes do início da principal safra do país, evitando altas de preços. O tema foi um dos principais nos encontros com o vice-líder do país, Han Zheng, e o homólogo chinês, Wang Yi.
A viagem do chanceler brasileiro teve como destino oficial a capital do país asiático para a 5ª edição do Diálogo Estratégico Global Brasil-China, mecanismo de consulta política entre os chanceleres dos dois países que ocorre desde 2014.
Dados do Banco Mundial apontam que o preço dos fertilizantes subiu 12% no primeiro trimestre de 2026, chegando, em abril, ao nível mais alto desde 2022. A expectativa é que registre alta de 30% neste ano, segundo relatório da instituição.
O Brasil é dependente da importação de fertilizantes utilizados na agricultura, com os insumos comprados de outros países respondendo por 93% do total utilizado em 2025, segundo dados do governo compilados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A ureia foi um dos produtos mais prejudicados pelo conflito, visto que se trata de um fertilizante nitrogenado dependente do gás natural, que também apresentou altas, em sua formulação. É utilizado principalmente no plantio de milho, cana-de-açúcar e pastagens, causando preocupação também no setor da pecuária.
No ano passado, a China foi o principal fornecedor do mercado brasileiro, respondendo por uma fatia de 26% do total importado. O segundo lugar ficou com a Rússia, origem de 25% dos insumos.
Ter a China como origem dos fertilizantes faz também o governo brasileiro lidar com o risco de medidas de salvaguarda, uma vez que o país tem histórico de aplicar restrições às exportações como instrumento de segurança alimentar interna por meio da estabilização da oferta e da demanda, e como resposta a instabilidades geopolíticas.
Em 2021, por exemplo, quando o país enfrentava alta de preços, Pequim emitiu orientações para as principais fabricantes de fertilizantes pedindo esforços extras para garantir o abastecimento interno, o que levou as companhias a afirmarem que suspenderiam exportações.
No mesmo ano, o regime passou a exigir certificados de inspeção para o envio de fertilizantes e insumos relacionados, o que criou entraves às exportações e foi apontado como uma forma de proibir às vendas para outros países.
Há ainda relatos de fontes anônimas do setor às agências Reuters e Bloomberg indicando que, após a escalada da guerra no Irã, a China teria restringido exportações de alguns fertilizantes e reforçado inspeções alfandegárias.
O documento publicado pela CNA afirma que os custos causados por conflitos têm chegado ao produtor e que é necessário que o país antecipe riscos, diversifique fornecedores e fortaleça alternativas produtivas e tecnológicas.
Fonte: Folha de São Paulo
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