Economia

China ganha espaço na Argentina e ameaça posição histórica do Brasil no comércio bilateral

jun, 16, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202626

Durante anos, o Brasil ocupou uma posição incontestável como principal parceiro comercial da Argentina. Agora, novos dados de comércio indicam que esse equilíbrio começa a mudar. Segundo números divulgados pela Câmara Argentino-Chinesa de Produção, Indústria e Comércio, as exportações para a China registraram um dos maiores crescimentos de sua história recente nos primeiros meses de 2026. Ao mesmo tempo, as importações provenientes da China recuaram 7%, melhorando a dinâmica geral do comércio bilateral.

A tendência vem chamando a atenção dos mercados agrícolas e de commodities, já que a China continua sendo uma das maiores compradoras mundiais de alimentos, grãos para ração animal e minerais estratégicos.

Os principais beneficiados podem ser os setores argentinos de grãos e pecuária. Representantes da indústria afirmam que há espaço significativo para ampliar as exportações de milho, soja e trigo — três commodities centrais para a estratégia de segurança alimentar de longo prazo da China.

As exportações de carne bovina e suína também apresentam forte potencial de crescimento. Acordos sanitários ainda pendentes entre os dois países podem destravar centenas de milhões de dólares em comércio adicional. Estimativas da câmara indicam que apenas as exportações de subprodutos bovinos poderiam gerar cerca de US$ 130 milhões em novas receitas anuais, enquanto os subprodutos suínos poderiam acrescentar outros US$ 240 milhões. Para produtores, processadores e exportadores, esses números evidenciam a importância de ampliar o acesso ao mercado chinês.

Além das commodities tradicionais, diversas indústrias regionais surgem como potenciais beneficiárias do fortalecimento das relações comerciais. Amendoim, leguminosas e mirtilos estão entre os produtos com maiores oportunidades de expansão.

No período entre janeiro e abril de 2026, as exportações de amendoins em contêineres da Argentina alcançaram a cifra de 21.127 TEUs (+29% a/a). Confira abaixo os volumes mensais registrados, segundo os dados obtidos pela Datamar:

Exportação de Amendoins | Argentina | Jan 2023 – Abr 2026 | TEUs

Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)

Estimativas de mercado apontam que as exportações de amendoim poderiam adicionar aproximadamente US$ 300 milhões em vendas futuras, enquanto as leguminosas poderiam gerar outros US$ 160 milhões. Esses ganhos representariam um impulso importante para regiões agrícolas que buscam diversificar seus mercados de exportação além dos destinos tradicionais.

Embora a agricultura domine as manchetes, a mineração vem se tornando uma parte cada vez mais relevante da relação comercial entre Argentina e China. O lítio representou cerca de 25% das exportações argentinas para a China nos primeiros quatro meses de 2026, refletindo a crescente necessidade chinesa de matérias-primas para baterias utilizadas em veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.

Empresas chinesas ampliaram sua presença no setor de lítio argentino, fortalecendo laços comerciais que vão muito além da agricultura. Com a demanda global por veículos elétricos continuando a crescer, analistas esperam que as exportações de lítio permaneçam entre os componentes de expansão mais rápida do comércio bilateral.

Apesar do forte impulso, várias barreiras comerciais ainda permanecem sem solução. Líderes do setor seguem pressionando por avanços nas aprovações de biotecnologia agrícola, nos protocolos para exportação de carnes e nas regulamentações do setor avícola.

Muitos acreditam que a resolução dessas questões poderia aumentar significativamente os volumes exportados e criar novas oportunidades em diversas cadeias produtivas do agronegócio. Autoridades e entidades empresariais também discutem a possibilidade de futuras missões comerciais para acelerar negociações e ampliar o acesso a mercados.

Por que isso importa além da Argentina

A rápida expansão do comércio entre Argentina e China reflete uma tendência global mais ampla. À medida que a China busca fornecedores confiáveis de alimentos, ingredientes para ração e minerais críticos, países com forte base agrícola e abundância de recursos naturais tornam-se parceiros cada vez mais estratégicos.

Para a Argentina, o salto nas exportações é mais do que uma história de sucesso comercial de curto prazo. Ele representa uma potencial transformação na forma como o país se conecta aos mercados globais e de onde poderá vir seu crescimento futuro. Se as tendências atuais continuarem, a disputa entre China e Brasil pelo posto de principal parceiro comercial da Argentina poderá se tornar um dos acontecimentos econômicos mais relevantes da América Latina nos próximos anos.

Para agricultores, empresas do agronegócio e investidores em commodities, o papel crescente da China deixou de ser uma possibilidade futura — ele já está remodelando o mercado atualmente.

Fonte: AgroLatam

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