Estados Unidos recusam prorrogar USMCA e iniciam processo de revisão que pode remodelar comércio na América do Norte
jul, 02, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202627
Os Estados Unidos decidiram não prorrogar o acordo comercial USMCA em sua forma atual, dando início a um processo de revisão de uma década que poderá remodelar o comércio na América do Norte caso Washington, Cidade do México e Ottawa não cheguem a um consenso sobre mudanças.
A decisão não encerra imediatamente o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (USMCA), que substituiu o NAFTA em 2020 e permanece em vigor. No entanto, ela impede que o tratado seja automaticamente prorrogado por mais 16 anos e faz com que o acordo passe a ser submetido a revisões anuais. Sem um entendimento entre os três países, o USMCA expirará em 1º de julho de 2036.
A medida já era amplamente esperada, uma vez que o governo de Donald Trump busca revisar o acordo para fortalecer a indústria manufatureira dos Estados Unidos, endurecer as regras de conteúdo regional e limitar a possibilidade de produtos chineses se beneficiarem das preferências comerciais norte-americanas.
As autoridades comerciais dos Estados Unidos, México e Canadá deveriam utilizar a revisão prevista para julho para informar se desejavam estender o acordo. México e Canadá sinalizaram apoio à manutenção do USMCA, enquanto Washington optou por manter as negociações em aberto, em vez de aprovar sua renovação nos termos atuais.
O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, ainda não apresentou um pacote final de propostas de alteração, mas o governo americano já agendou uma nova rodada de negociações com o México para a semana de 20 de julho. As conversas deverão se concentrar principalmente nas regras de origem para o setor automotivo, nos requisitos de conteúdo regional e em medidas para impedir a triangulação de mercadorias por meio da América do Norte.
A indústria automotiva está no centro das negociações. Montadoras norte-americanas têm defendido a preservação do USMCA como um acordo trilateral, argumentando que peças e componentes frequentemente cruzam as fronteiras entre Estados Unidos, México e Canadá diversas vezes antes da montagem final dos veículos.
Washington busca impor exigências mais rígidas para que os veículos tenham direito ao tratamento tarifário preferencial. Segundo pessoas familiarizadas com as negociações, os Estados Unidos propuseram que veículos produzidos na América do Norte contenham 50% de conteúdo especificamente americano, mudança que poderia elevar a exigência total de conteúdo regional para cerca de 82%.
A proposta representaria uma mudança significativa para as montadoras instaladas no México e no Canadá. Mesmo sob um acordo revisado, veículos produzidos nesses países ainda poderiam estar sujeitos a algum nível de tarifas dos Estados Unidos, segundo declarações de autoridades americanas.
Um funcionário mexicano afirmou que Estados Unidos e México também discutiram a possibilidade de uma tarifa global de 15% sobre automóveis, com uma alíquota menor para veículos produzidos no México e no Canadá caso os países aceitem regras de origem mais rigorosas. Segundo ele, ambos os governos concordam, em linhas gerais, sobre os principais problemas do acordo, incluindo a redução dos empregos industriais nos Estados Unidos, a queda da participação de conteúdo americano nos veículos e as preocupações com a triangulação de mercadorias.
Até o momento, as negociações formais conduzidas pelos Estados Unidos têm se concentrado principalmente no México, enquanto o Canadá permanece fora das principais rodadas de negociação. Ottawa e Washington continuam enfrentando disputas bilaterais envolvendo o mercado canadense de laticínios, madeira serrada, aço, alumínio e restrições provinciais que afetam a venda de bebidas alcoólicas americanas.
O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, afirmou esperar um diálogo construtivo entre os três países, mas disse não acreditar que um acordo seja assinado imediatamente. Segundo ele, o Canadá está disposto a negociar melhorias no tratado.
O ministro da Economia do México, Marcelo Ebrard, declarou que não espera o fim do acordo. A presidente Claudia Sheinbaum também informou que assinou uma carta defendendo a renovação do USMCA por mais 16 anos.
A revisão ocorre em um momento em que a política tarifária dos Estados Unidos já enfraqueceu o sistema de comércio livre de tarifas que sustentava o comércio norte-americano. O governo Trump impôs tarifas de 25% sobre automóveis e autopeças provenientes do Canadá e do México, além de tarifas de 50% sobre aço e alumínio dos dois países, provocando medidas de retaliação por parte do Canadá.
A incerteza é particularmente relevante para fabricantes, empresas do agronegócio, do setor de energia e operadores logísticos que dependem de fluxos comerciais transfronteiriços previsíveis. As cadeias produtivas da região são altamente integradas, especialmente na indústria automotiva, onde componentes cruzam repetidamente as fronteiras antes de chegarem às fábricas de montagem final.
O processo de revisão do USMCA é independente da cláusula de denúncia do tratado. Qualquer um dos três países ainda poderá retirar-se do acordo mediante aviso prévio de seis meses. Por enquanto, porém, a decisão dos Estados Unidos coloca o tratado em um longo ciclo de negociações, em vez de encerrá-lo imediatamente.
Os próximos meses deverão mostrar se os três países conseguirão chegar a um entendimento que preserve o modelo trilateral ou se o comércio na América do Norte entrará em um período prolongado de incerteza. Para as empresas que movimentam mercadorias na região, o principal risco não é um colapso imediato do USMCA, mas sim uma lenta erosão da previsibilidade para investimentos que sustenta a produção integrada desde a época do NAFTA.
Fonte: Reuters
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