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OMC expõe vulnerabilidade do Brasil e outros produtores em fertilizantes

jul, 14, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202629

A Organização Mundial do Comércio (OMC) acaba de publicar um levantamento mostrando como o comércio global de fertilizantes foi gravemente afetado pelo conflito no Golfo Pérsico, deixando clara a vulnerabilidade de grandes produtores agrícolas nesse cenário que ainda não está perto de ser normalizado.

A publicação coincide com a retomada de hostilidades entre os EUA e o Irã centrada no controle do Estreito de Ormuz, rota vital para boa parte do comércio de petróleo e de fertilizantes. Ao mesmo tempo em que volta a bombardear o Irã, Washington insiste que o estreito está aberto. De seu lado, Teerã ameaça continuar a atacar navios que usem a rota sem autorização.

Como os fertilizantes estão entre os insumos essenciais para a produção agrícola, as perturbações com a crise continuam a gerar preocupações de que a produtividade possa ser comprometida, com efeitos em cadeia sobre os preços dos alimentos e a segurança alimentar global, afirma a OMC.

Os dados da OMC confirmam a dimensão da vulnerabilidade do Brasil nesse segmento, como um dos maiores produtores e exportadores mundiais de alimentos e, ao mesmo tempo, altamente dependente da importação do produto.

O gráfico a seguir traz um comparativo da importação de fertilizantes pelo Brasil nos cinco primeiros meses do ano a partir de 2017. O dados são do DataLiner:

Importação Brasileira de Fertilizantes | Jan a Mai 2017-2021 | WTMT

Participação nas importações mundiais (2024)

Fertilizantes nitrogenados

  1. Brasil – 12,7% (US$ 4,9 bilhões)
  2. União Europeia – 11,1% (US$ 4,3 bilhões)
  3. Estados Unidos – 10,1% (US$ 3,9 bilhões)
  4. Índia – 9,7% (US$ 3,7 bilhões)

Fertilizantes fosfatados

  1. Índia – 19,4% (US$ 5,2 bilhões)
  2. Brasil – 17,3% (US$ 4,6 bilhões)
  3. União Europeia – 9,7% (US$ 2,6 bilhões)
  4. Estados Unidos – 7,6% (US$ 2,0 bilhões)

Fertilizantes potássicos

  1. China – 18,6% (US$ 3,9 bilhões)
  2. Brasil – 17,7% (US$ 3,8 bilhões)
  3. Estados Unidos – 17,5% (US$ 3,7 bilhões)
  4. União Europeia – 7,9% (US$ 1,7 bilhão)

Fonte: OMC

A análise parece ter sido elaborada quando EUA e Irã anunciaram uma tentativa de cessar-fogo e prometeram um retorno à normalidade no Estreito de Ormuz.

Os preços da ureia quase retornaram aos níveis anteriores ao conflito, após terem dobrado no início da guerra no Golfo Pérsico. Em abril, a cotação subiu de cerca de US$ 400 por tonelada para mais de US$ 850, antes de recuar para US$ 453 em junho. Os preços do fosfato diamônico (DAP) passaram de US$ 580 para US$ 770. Ainda assim, esses aumentos permanecem abaixo dos picos registrados em 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, quando a ureia ultrapassou brevemente US$ 900 por tonelada e o potássio superou US$ 1.200.

Só que a trégua parece mais frágil do que muitos imaginavam. Para a entidade, a evolução futura dos preços dos fertilizantes dependerá, em grande medida, da implementação do acordo entre americanos e iranianos para restabelecer efetivamente a navegação comercial no Estreito de Ormuz.

Assim, “no devido tempo”, uma reabertura do estreito contribuirá para reduzir as tensões comerciais e restaurar a estabilidade dos mercados mundiais.

A OMC destaca que as importações de fertilizantes de algumas economias estão particularmente expostas a interrupções na região do Golfo Pérsico. A Índia importou quase dois terços de seus fertilizantes nitrogenados da região, enquanto a Tailândia importou cerca de metade. Entre outros destinos importantes, a organização aponta Austrália, Brasil, Marrocos e Estados Unidos.

A organização observa, porém, que a vulnerabilidade também depende da parcela do consumo doméstico suprida por importações.

No caso brasileiro, a dependência externa é altíssima: 93% dos fertilizantes utilizados em 2025 foram importados (no total, não apenas do Golfo), segundo cálculos da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Ou seja, os produtores agrícolas brasileiros estão particularmente sensíveis a choques geopolíticos. Os fertilizantes continuam em patamar elevado desde o choque de 2022 (invasão da Ucrânia pela Rússia), e as incertezas atuais no mercado afetam o planejamento da safra 2026/2027.

A CNA observou recentemente que a relação de troca piorou, exigindo um número maior de sacas de soja e de milho para a compra do mesmo volume de insumos. O valor desembolsado para pagar importações aumentou e a geografia dos fornecedores vem mudando, com maior participação da China. Para a CNA, esse cenário reforça que os fertilizantes constituem uma agenda estratégica para a competitividade do agronegócio, exigindo gestão de riscos, diversificação de fornecedores e decisões de compra mais qualificadas.

Desde a eclosão da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã e a retaliação iraniana atingindo países da região, produtores de fertilizantes passaram a impor restrições às exportações, afetando até 15% do comércio mundial do segmento, segundo cálculos da OMC.

A organização cita o caso da China, que inicialmente reforçou os controles sobre diversos fertilizantes e insumos, incluindo ureia e ácido sulfúrico, e posteriormente passou a permitir exportações limitadas de ureia por meio de um sistema de cotas.

A Rússia impôs mais cotas de exportação e suspendeu as licenças de exportação de nitrato de amônio. A Turquia introduziu uma proibição temporária das exportações de enxofre. Como o enxofre e o ácido sulfúrico são insumos importantes para os fertilizantes fosfatados, essas restrições podem afetar a disponibilidade do produto mesmo quando não atingem diretamente os fertilizantes acabados.

Ao mesmo tempo, aumentou a concorrência internacional pela compra de fertilizantes. Estados Unidos, União Europeia e Turquia, por exemplo, suspenderam tarifas de importação para facilitar o abastecimento.

A OMC constata que diversas economias adotaram subsídios no curto prazo para ajudar os agricultores a enfrentar o aumento dos custos de produção, inclusive com fertilizantes, além de medidas estruturais para fortalecer a produção doméstica e promover o uso mais eficiente desses insumos.

A Comissão Europeia aprovou um Plano de Ação para Fertilizantes, apoiado por um pacote financeiro de 540 milhões de euros de sua reserva para crises agrícolas. Os Estados Unidos também anunciaram um plano para ampliar a produção doméstica.

A Índia subsidia o uso de fertilizantes por meio de um programa de US$ 4,5 bilhões destinado à ureia e de outro programa baseado em nutrientes, aplicável aos fertilizantes fosfatados, potássicos e nitrogenados que não contenham ureia. O país também priorizou o setor de fertilizantes na alocação de gás natural, garantindo às fábricas pelo menos 70% de seu consumo médio.

Outras economias, como Brasil, Quênia, Gana, Sri Lanka, Armênia e Tailândia, também anunciaram medidas relacionadas ao setor recentemente.

Em artigo publicado pelo Fórum Econômico Mundial, Svein Tore Holsether, CEO da Yara International, afirma que a produção mundial de alimentos continuará dependente da segurança energética, da capacidade industrial e do funcionamento das rotas comerciais.

Ele observa que conflitos, volatilidade dos preços da energia e interrupções no comércio estão influenciando cada vez mais os mercados de fertilizantes, os custos agrícolas e a produção mundial de alimentos. A fabricação de fertilizantes depende fortemente do gás natural, das matérias-primas e das rotas globais de transporte marítimo, fatores diretamente afetados por crises geopolíticas.

Holsether ressalta que as consequências desses choques nem sempre são imediatas, o que torna os riscos mais difíceis de identificar. Como os fertilizantes precisam ser aplicados em momentos específicos do ciclo das culturas, a redução ou o adiamento de seu uso pode resultar em menor produtividade na safra seguinte, com impactos que não podem ser recuperados posteriormente.

Fonte: Valor Econômico

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