Tarifa de Trump contra o Brasil tem alcance reduzido, mas pode atingir 40% das exportações aos EUA
jul, 16, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202629
Os Estados Unidos confirmaram, na noite de quarta-feira (15), que imporão uma nova rodada de tarifas aos produtos brasileiros, desta vez após uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) com base na Seção 301.
Uma tarifa de 25% entrará em vigor na próxima quarta-feira (22). Como já esperavam integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a medida inclui uma lista de exceções. Café, carnes, suco de laranja e peças de aeronaves estão entre os produtos poupados, por não serem produzidos nos Estados Unidos ou porque sua ausência poderia provocar transtornos à economia americana. O etanol, no entanto, estará sujeito à tarifa adicional.
Dados da Datamar revelam 3.980 TEUs de café verde (NCMs 0901.11.10; 0901.11.90) exportados aos EUA entre janeiro e maio de 2026. Confira a seguir os volumes registrados nos últimos anos:
Exportação de café verde aos EUA | Jan 2023 – Mai 2026 | TEUs
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A medida poderá atingir 40,2% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, abaixo da estimativa inicial de 45,8%, calculada com base nos dados do comércio exterior de 2024, antes de Donald Trump retornar ao poder e instituir tarifas adicionais.
O ferro-gusa foi o produto mais beneficiado após sua inclusão na lista de exceções. Couros e pescados também estão entre os setores poupados.
Lista de exceções
O número de produtos isentos aumentou de 986, em junho, para 1.231, considerando os códigos de seis dígitos do Sistema Harmonizado. Na prática, porém, as exceções abrangem apenas 758 produtos que o Brasil efetivamente exportou aos Estados Unidos em 2024.
Mesmo assim, o governo brasileiro informou que dará início aos procedimentos necessários para acionar a Lei da Reciprocidade, que facilita a aplicação de tarifas sobre bens exportados ao Brasil por países que adotem medidas contra os produtos brasileiros.
Enquanto aguardava o anúncio da Casa Branca ao longo de quarta-feira, o governo Lula começou a definir sua estratégia tanto para uma possível retaliação quanto para a adoção de medidas destinadas a amenizar os efeitos do aumento tarifário sobre a economia nacional.
A resposta brasileira, incluindo a possível utilização da Lei da Reciprocidade, dependerá de uma avaliação sobre o alcance da medida.
O governo também considera editar uma medida provisória para auxiliar os setores mais afetados. Há uma preocupação especial com pescados, rochas ornamentais, madeira, produtos têxteis e calçados.
Alegações dos Estados Unidos
O USTR argumenta que o Brasil impõe encargos ou restrições ao comércio com os Estados Unidos por meio de mecanismos como o Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, e de práticas como o desmatamento ilegal.
No início deste mês, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, enviou ao governo americano uma carta de 29 páginas contestando as alegações. Integrantes do governo brasileiro também rejeitam as críticas da oposição de que não teria havido empenho nas negociações.
O Valor apurou que, em uma reunião realizada na terça-feira (14), os negociadores brasileiros disseram aos representantes americanos que a falta de ampliação das exceções prejudicaria os próprios produtores dos Estados Unidos, uma vez que insumos fornecidos à indústria americana poderiam ser taxados.
Durante as conversas, o Brasil deixou claro ao representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que considerava injusto e sem qualquer fundamento técnico um novo aumento generalizado das tarifas.
Outros pontos mencionados na investigação do USTR incluem decisões judiciais envolvendo plataformas de redes sociais, acordos comerciais do Brasil com outros países, barreiras ao etanol americano, falhas na proteção da propriedade intelectual e fragilidades no combate à corrupção.
Fontes brasileiras afirmaram que os negociadores sinalizaram a possibilidade de oferecer aos Estados Unidos um acesso ao mercado brasileiro semelhante ao já concedido à Índia e ao México por meio de acordos bilaterais.
Em relação ao desmatamento ilegal, os representantes de Lula apresentaram dados sobre as medidas adotadas pelo atual governo e destacaram o que consideram uma incoerência: o governo Trump exige providências do Brasil ao mesmo tempo que se retira das principais iniciativas multilaterais de coordenação do combate às mudanças climáticas.
“As amplas negociações mantidas com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas questões, mas continuamos abertos a prosseguir com as conversas para promover as mudanças, há muito necessárias, destinadas a enfrentar os problemas identificados nesta investigação”, escreveu Greer em um comunicado divulgado na quarta-feira.
Pressão política
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro acreditam que o trabalho do USTR sofreu influência da ala ideológica do governo Trump e da posição do Departamento de Estado.
Nas últimas semanas, fontes do governo também concluíram que o USTR ficou preso às circunstâncias políticas que cercam o caso. Caso recomendasse o adiamento das tarifas, o órgão poderia ser acusado de ceder à pressão política e de conceder uma vantagem eleitoral ao senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), prejudicando potencialmente sua reputação técnica e sua credibilidade institucional.
Principal candidato da oposição à Presidência, Flávio — filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro — apresentou um memorando e participou de uma audiência do USTR realizada no âmbito da investigação contra o Brasil baseada na Seção 301. Ele afirmou que a imposição das tarifas antes das eleições favoreceria a campanha de reeleição de Lula.
O governo Lula, porém, continua determinado a mostrar à Casa Branca que o Brasil permanecerá à mesa de negociações.
Até mesmo os primeiros passos para acionar a Lei da Reciprocidade — instrumento de barganha reservado para um cenário mais desfavorável — deixariam espaço para negociações bilaterais, ao mesmo tempo que fortaleceriam a posição brasileira quando as conversas fossem retomadas.
O decreto que regulamenta a lei estabelece procedimentos e prazos que podem ser adaptados à estratégia escolhida pelo governo.
“Pode levar o tempo que quisermos”, afirmou uma autoridade de alto escalão.
Processo de reciprocidade
De acordo com a regulamentação, o Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, poderá adotar contramedidas provisórias contra um país responsável por ações unilaterais que prejudiquem a competitividade internacional do Brasil.
Após a adoção das medidas provisórias, o comitê começa a avaliar contramedidas permanentes. Esse processo deliberativo pode levar vários meses e ser suspenso, dependendo do avanço das negociações diplomáticas.
Em agosto de 2025, depois do primeiro aumento tarifário anunciado por Trump, o Ministério das Relações Exteriores solicitou à Câmara de Comércio Exterior (Camex) o início das consultas para a aplicação da Lei da Reciprocidade. O processo perdeu seu objeto depois que o governo americano recuou e anunciou diversas exceções.
Na manhã de quarta-feira, antes do anúncio dos Estados Unidos, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo avaliaria quais setores provavelmente sofreriam o maior impacto econômico antes de definir medidas de apoio.
Como já fez em outras ocasiões, afirmou ele, o governo “não abandonará os produtores rurais, os empresários e as famílias brasileiras”.
“Os empresários brasileiros, as famílias brasileiras, os caminhoneiros brasileiros e os produtores rurais brasileiros não podem ser prejudicados por medidas injustas adotadas por outros países”, declarou Durigan durante uma entrevista coletiva em Brasília sobre uma medida provisória destinada à renegociação de dívidas rurais.
Críticas dos Estados Unidos
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou na rede social X que Lula e seu governo “não negociaram de boa-fé”.
“O presidente Lula e seu governo não negociaram de boa-fé com os Estados Unidos”, escreveu Rubio. “Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e para os brasileiros. Durante o último ano, Lula colocou seu próprio ego acima da realização de um acordo em benefício do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço disso.”
Fonte: Valor Econômico
-
Meio ambiente
maio, 06, 2024
0
Megaporto e ferrovia ocuparão território quilombola no Maranhão
-
Grãos
maio, 25, 2026
0
Pimenta-do-reino dispara no ES, bate recorde de exportações e fortalece posição global do Estado
-
Minérios
jul, 07, 2023
0
CEPAL destaca a importância do lítio para a América Latina
-
Portos e Terminais
mar, 02, 2021
0
Docas do Rio assina contrato para continuidade da operação da Petrobras no Porto do Rio de Janeiro
