Como os seguros marítimos estão disparando com o fechamento de Hormuz e Bab al-Mandeb
jul, 24, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202630
Os preços dos seguros marítimos dispararam em meio às interrupções na navegação no Estreito de Hormuz e também estão aumentando para embarcações que transitam pelo estreito de Bab al-Mandeb. Ambas as rotas, essenciais para a economia global, transformaram-se em zonas de guerra.
No início desta semana, o grupo Houthi, do Iêmen e alinhado ao Irã, anunciou um bloqueio a portos e navios da Arábia Saudita em Bab al-Mandeb, estreito que liga o Mar Vermelho ao Oceano Índico.
A medida se soma às interrupções já registradas no Estreito de Hormuz em decorrência da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Teerã passou a exigir que embarcações consultem suas autoridades antes de tentar atravessar a passagem, enquanto os Estados Unidos impuseram um bloqueio naval a navios ligados ao Irã.
A seguir, um panorama das interrupções no transporte marítimo e de seus impactos sobre os custos de seguro.
O que está acontecendo no Estreito de Hormuz?
A Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) informou na quinta-feira que uma explosão incendiou um navio-tanque no Estreito de Hormuz após a embarcação tentar navegar pela rota sul, próxima à costa de Omã.
Segundo comunicado divulgado pela imprensa iraniana, outros dois navios recuaram imediatamente após a explosão.
A IRGC afirmou que as três embarcações agiam sob ordens dos Estados Unidos e pretendiam atravessar uma rota ao sul do estreito que estaria minada.
“A poderosa Marinha da IRGC enfatiza que o Estreito de Hormuz está sob nosso controle e que, enquanto continuarem as ações malignas dos Estados Unidos na região, ele permanecerá completamente fechado e nenhum petroleiro entrará ou sairá”, afirmou o comunicado.
O Estreito de Hormuz é há décadas um dos principais pontos de tensão entre Estados Unidos e Irã.
Antes da guerra, entre 120 e 140 embarcações cruzavam diariamente o estreito, cerca da metade delas petroleiros transportando aproximadamente 20 milhões de barris de petróleo por dia. No auge do conflito, o fluxo caiu para apenas dois petroleiros por dia.
Segundo dados da S&P Global, dez embarcações atravessaram o estreito na terça-feira, abaixo das 16 registradas na segunda-feira.
Como mudaram os preços dos seguros em Hormuz?
Os prêmios dos seguros marítimos para embarcações que cruzam o Estreito de Hormuz dispararam, à medida que as seguradoras passaram a considerar essas viagens muito mais expostas a ataques, segundo relatório publicado pela S&P Global na quarta-feira.
O levantamento mostra que o seguro contra riscos de guerra representava anteriormente entre 1% e 3% do valor do casco da embarcação. Atualmente, esse custo subiu para entre 7,5% e 10% do valor do casco.
Na quarta-feira, o custo de mercado para transportar uma carga de 270 mil toneladas métricas de petróleo bruto do Golfo para a China era de US$ 77,96 por tonelada métrica, patamar estável desde segunda-feira. Antes disso, o valor era de US$ 73,80 por tonelada.
A tarifa atual é quatro vezes superior à média dos últimos cinco anos, de US$ 18,91 por tonelada métrica. O pico ocorreu em março, quando atingiu cerca de US$ 140 por tonelada durante o período mais intenso do conflito. O menor nível desde então foi pouco acima de US$ 60 por tonelada no início de junho.
Nesse cenário, o seguro para um petroleiro transportando 270 mil toneladas métricas pode custar cerca de US$ 21 milhões.
Estados Unidos e Irã assinaram um memorando de entendimento em 17 de junho para prorrogar o cessar-fogo e manter as negociações de paz. O acordo abriu um período de 60 dias de negociações, durante o qual os confrontos diminuíram significativamente até voltarem a se intensificar na segunda semana de julho.
O que está acontecendo em Bab al-Mandeb?
O estreito de Bab al-Mandeb está localizado entre o Iêmen, ao nordeste, e Djibuti e Eritreia, no Chifre da África, ao sudoeste.
A passagem conecta o Mar Vermelho ao Oceano Índico por meio do Golfo de Áden. Em seu ponto mais estreito, possui apenas 29 quilômetros de largura, limitando o tráfego a dois canais de navegação e permanecendo, na prática, sob influência dos Houthis apoiados pelo Irã.
Na segunda-feira, os Houthis anunciaram um bloqueio naval contra a Arábia Saudita. O grupo é considerado um dos principais integrantes do chamado “eixo da resistência” liderado pelo Irã.
Na quinta-feira, os Houthis afirmaram ter realizado uma grande operação contra dois petroleiros sauditas no Mar Vermelho, o *Encelia* e o *Layla*. A agência oficial saudita SPA confirmou que o *Encelia* foi atingido.
Segundo o grupo, os ataques envolveram mísseis de cruzeiro, mísseis balísticos e drones.
Os Houthis apresentaram a ofensiva como parte de uma campanha de retaliação contra a Arábia Saudita, que classificam como “cerco por cerco”. Segundo eles, após quase 12 anos de bloqueio imposto por Riad ao povo iemenita, chegou o momento de responder na mesma medida. A Arábia Saudita rejeita a acusação de que tenha imposto um cerco ao Iêmen.
O relatório da S&P Global aponta que o tráfego em Bab al-Mandeb caiu 30% na terça-feira, com apenas 29 embarcações cruzando o estreito, contra 41 na segunda-feira.
Como isso afetou os seguros em Bab al-Mandeb?
Segundo a S&P Global, Marcus Baker, diretor global de seguros marítimos, cargas e logística da Marsh, afirmou que as seguradoras passaram a cobrar valores mais altos para cobrir riscos no Mar Vermelho e que a percepção de risco aumentou, embora em menor intensidade do que no Estreito de Hormuz.
Os prêmios para embarcações que transitam por Bab al-Mandeb estão atualmente em cerca de 0,5% do valor do casco, frente a aproximadamente 0,1% para navios que navegam pelo Mar Vermelho na costa oeste da Arábia Saudita, em direção ao Canal de Suez, fora do alcance dos Houthis.
Como isso pode afetar o transporte marítimo?
Lars Jensen, especialista em transporte marítimo internacional e CEO da Vespucci Maritime, afirmou à Al Jazeera que o custo do seguro não é o principal fator considerado pelas empresas ao decidir se utilizarão determinada rota.
“A disposição das companhias de navegação para atravessar depende da tolerância ao risco de ver a embarcação atacada e do nível de preocupação com a segurança das tripulações”, afirmou.
Já Simone Krummaker, professora associada de seguros da Bayes Business School, em Londres, disse que o forte aumento dos prêmios altera significativamente os cálculos econômicos de exportadores e importadores.
“Em geral, ainda é possível obter cobertura para muitas viagens por Hormuz e Bab al-Mandeb, mas frequentemente em condições mais restritivas e a preços que podem alterar de forma significativa a economia de uma viagem”, afirmou. “O seguro tornou-se uma restrição comercial. Alguns armadores continuarão operando se o frete compensar o custo adicional. Outros poderão desistir, mesmo com cobertura disponível, devido à segurança da tripulação, condições de financiamento, limites internos de risco ou receio de perdas físicas.”
Ela acrescentou que o salto nos seguros contra riscos de guerra poucos dias após o anúncio do bloqueio pelos Houthis demonstra a rapidez com que o mercado reage.
“O mercado e os subscritores já tinham a experiência das interrupções no Mar Vermelho entre 2023 e 2025, o que permitiu reavaliar os riscos e reajustar rapidamente os preços das apólices”, disse, referindo-se às restrições impostas pelos Houthis à navegação de embarcações ligadas aos Estados Unidos e a Israel durante a guerra em Gaza.
Segundo Krummaker, os custos de seguro representam apenas parte do problema.
“A redução da disponibilidade de navios, viagens mais longas, atrasos e custos mais elevados de combustível podem ter impacto ainda maior do que o próprio prêmio do seguro. No caso de Hormuz, as interrupções também podem afetar os preços do petróleo e do gás, com consequências mais amplas para os custos de transporte, energia e produção.”
Fonte: Al Jazeera
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