Portos e Terminais

Paralisação de práticos chega ao fim na Argentina após acordo com governo

ago, 05, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202632

A paralisação dos práticos portuários na Argentina chegou ao fim após um acordo entre o governo de Javier Milei e representantes do setor, destravando um conflito que interrompeu operações nos principais portos do país e deixou mais de 185 navios sem operar.

Segundo o governo argentino, o entendimento prevê uma redução de 20% nas tarifas dos serviços de praticagem e a retomada imediata das atividades de assistência à navegação. Com isso, a expectativa é que o movimento de embarcações seja reativado nas próximas horas e que a atividade portuária volte a se normalizar gradualmente nos próximos dias.

O Executivo também decidiu suspender a aplicação do decreto que havia desregulamentado a atividade e abrir uma mesa de diálogo com o setor para revisar pontos da norma. O grupo de trabalho será coordenado pelo governo e contará com a participação de áreas como Segurança, Defesa e outros órgãos competentes.

A paralisação havia começado no sábado, 1º de agosto, após a publicação do Decreto 690/2026, assinado pelo presidente Javier Milei e pelo ministro da Desregulamentação e Transformação do Estado, Federico Sturzenegger. A medida alterava o regime de praticagem e pilotagem vigente desde 1991, criando um registro aberto de profissionais sob a órbita da Prefeitura Naval Argentina, permitindo que usuários escolhessem livremente os prestadores do serviço, eliminando restrições à entrada de novos operadores e dando à Agência Nacional de Portos e Navegação poder para fixar tarifas máximas.

O conflito rapidamente se transformou em uma das maiores interrupções recentes da atividade portuária argentina, afetando terminais em La Plata, Dock Sud, Buenos Aires, Zárate-Campana, Quequén, Bahía Blanca e Rosario, além de outros pontos ao longo do rio Paraná. Parte das operações chegou a ser redirecionada para Montevidéu e para o Sul do Brasil.

A incerteza com a paralisação provocou preocupação entre importadores, exportadores e operadores logísticos, diante dos custos adicionais causados por atrasos, desvios de carga e interrupções em cadeias de abastecimento. “É péssimo que isso esteja acontecendo”, afirmou ao Buenos Aires Herald o empresário e importador Martín Zocchio. Segundo ele, navios que enfrentam dificuldades para entrar e operar em determinado destino acabam “descarregando em um porto alternativo”.

Zocchio explicou que transportar um contêiner de Montevidéu para Buenos Aires custa entre US$ 700 e US$ 1.000, incluindo as taxas no destino. “Para os navios que chegam para carregar, talvez haja um pouco mais de margem e eles tenham que esperar, mas isso também gera um custo operacional que alguém acaba pagando”, afirmou.

Impacto sobre energia e agronegócio

A paralisação também afetou a distribuição de combustíveis. A Câmara Argentina de Energia (CADE) informou que 12 navios-tanque estavam parados, criando risco de desabastecimento de gasolina, diesel e óleo combustível.

“Entre as operações suspensas estava a do White Marlin, embarcação necessária para as obras do oleoduto Vaca Muerta Oil Sur (VMOS), que está mais de 75% concluído”, alertou o banco Mariva em um relatório recente.

O setor agroexportador também foi fortemente afetado. Gustavo Idígoras, presidente da Câmara da Indústria de Óleos e do Centro de Exportadores de Cereais (CIARA-CEC), havia alertado para o impacto da situação em Rosario, na província de Santa Fé, principal polo das exportações agrícolas argentinas.

“Neste momento, já temos mais de 45 navios parados. Se isso não for resolvido hoje, teremos outros 30 ou mais, e assim por diante. Cada atraso de um navio é como um táxi com o taxímetro ligado, cobrando entre US$ 50 mil e US$ 100 mil por dia”, afirmou ao Buenos Aires Herald antes do acordo.

Após o anúncio do entendimento, Idígoras disse à Cadena 3 que a retomada das atividades era uma boa notícia e destacou a redução tarifária de 20% como um passo em direção a maior concorrência e transparência no setor.

Reputação internacional em jogo

Embora tenha defendido a redução dos custos portuários, Idígoras criticou a forma como a medida foi implementada e a falta de diálogo prévio com os práticos. Durante o impasse, ele alertou que a Argentina poderia entrar em uma “lista de países problemáticos”, passando a ser vista como uma nação pouco confiável no cumprimento de contratos de exportação — o que beneficiaria concorrentes diretos, como o Brasil.

A Câmara de Portos Privados Comerciais (CPPC) também afirmou que a paralisação representava um “freio direto e imediato à economia nacional” e ameaçava prejudicar a reputação internacional do país.

“A imprevisibilidade operacional e o risco de os navios serem desviados para outros portos da região prejudicam a imagem da Argentina como fornecedora confiável, colocando em risco acordos comerciais construídos ao longo de anos”, afirmou a entidade em comunicado.

A CPPC também alertou que a interrupção afetava o fluxo normal de exportações e importações, paralisava a entrada de divisas e provocava uma ruptura nas cadeias de abastecimento, com efeitos sobre transporte terrestre, armazenagem em terminais e fornecimento de insumos industriais e energéticos.

Com o fim da paralisação, o desafio agora será normalizar o tráfego marítimo acumulado e avançar nas negociações sobre o novo marco regulatório da praticagem sem reacender o conflito que expôs a vulnerabilidade logística do país.

Fonte: Buenos Aires Herald e Portal Portuario

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