Petróleo supera soja e se torna principal produto de exportação do Brasil em 2026
out, 07, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202641
O petróleo liderou as exportações brasileiras em setembro e ultrapassou a soja como principal produto da pauta exportadora do país no acumulado do ano. Até agosto, a oleaginosa ocupava a primeira posição.
As duas commodities ajudaram a sustentar o crescimento das exportações, beneficiadas por uma combinação de maiores volumes embarcados e preços mais altos — movimento que também favoreceu outras matérias-primas. Do lado das importações, a atividade perdeu força em setembro quando desconsiderados fatores extraordinários. Economistas esperam que essa tendência permaneça, de maneira geral, nos próximos meses.
Superávit comercial
O Brasil registrou superávit comercial de US$ 7,7 bilhões em setembro, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). As exportações somaram US$ 34,4 bilhões, enquanto as importações chegaram a US$ 26,7 bilhões.
Nos primeiros nove meses do ano, o saldo positivo acumulado alcançou US$ 62,4 bilhões, alta de 34,8% em relação ao mesmo período de 2025. As exportações cresceram 10,4%, para US$ 284,7 bilhões, enquanto as importações avançaram 5%, para US$ 222,3 bilhões.
Luiza Pinese, economista da XP, destacou que as importações recuaram 2,4% em setembro na comparação anual. Segundo ela, porém, o resultado é distorcido pela compra de uma plataforma de petróleo em setembro de 2025, operação que não se repetiu neste ano.
Sem essa transação, as importações teriam crescido 6,6%, ainda assim em ritmo mais lento do que em julho e agosto, afirmou Pinese. Nos 12 meses encerrados em setembro, o superávit comercial ficou em US$ 84,2 bilhões.
Petróleo assume liderança das exportações brasileiras
O petróleo foi o principal destaque das exportações brasileiras em setembro, com embarques de US$ 6,5 bilhões, alta de 77,3% em relação ao mesmo mês de 2025. O volume exportado cresceu 42,2%, enquanto o preço médio avançou 24,7%.
O desempenho levou o produto ao primeiro lugar entre as exportações brasileiras no acumulado do ano.
Entre janeiro e setembro, as exportações de petróleo do Brasil somaram US$ 43 bilhões, crescimento de 28,6% em relação ao mesmo período de 2025.
A soja apareceu logo atrás, com US$ 42,9 bilhões em vendas externas, alta de 14,9%.
Juntos, petróleo e soja responderam por 30,2% das exportações brasileiras nos primeiros nove meses do ano, ante 27,5% no mesmo período de 2025.
O minério de ferro ficou na terceira posição, embora os embarques tenham recuado ligeiramente neste ano. As exportações somaram US$ 20,1 bilhões entre janeiro e setembro, queda de 2,2% na comparação anual.
“Os preços do minério de cobre subiram à medida que aumentou a demanda dos data centers”, afirmou Pinese.
A economista também destacou a recuperação dos volumes exportados de petróleo após duas quedas mensais consecutivas, em linha com a produção doméstica recorde. O minério de cobre também contribuiu para o resultado, com avanço tanto dos preços quanto dos volumes.
Dados do MDIC mostram que as exportações brasileiras de minério de cobre chegaram a US$ 6,2 bilhões entre janeiro e setembro, aumento de 79,8% em relação ao mesmo período de 2025.
O produto ganhou espaço na pauta exportadora brasileira neste ano à medida que a crescente demanda dos centros de dados de inteligência artificial impulsionou os preços do cobre a níveis recordes, segundo Pinese.
Welber Barral, sócio da BMJ, afirmou que o desempenho das exportações vem sendo puxado principalmente pela indústria extrativa, com a alta dos preços exercendo papel importante.
Embora esse cenário favoreça os embarques brasileiros neste ano, ele também deixa a balança comercial mais exposta às oscilações das cotações internacionais das commodities.
Exportações para China e Estados Unidos seguem direções opostas
Entre os principais destinos das exportações brasileiras, setembro foi marcado por queda nos embarques para a China e aumento das vendas aos Estados Unidos. As políticas tarifárias tiveram influência nos dois movimentos.
Herlon Brandão, diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, afirmou que a queda de 7,6% nas exportações brasileiras para a China foi explicada em grande medida pela forte retração dos embarques de carne bovina, afetados pela cota imposta por Pequim.
As exportações de carne bovina para a China despencaram 93,5% em relação a setembro de 2025, segundo Brandão.
Como o Valor havia informado anteriormente, as importações chinesas de carne bovina brasileira no âmbito das medidas de salvaguarda já atingiram 100% da cota definida para 2026. Com o limite esgotado, os volumes adicionais enviados ao mercado chinês neste ano ficam sujeitos a uma tarifa extracota de 55%, pressionando os embarques.
Parte da queda das vendas de carne bovina para a China foi compensada pelo avanço dos embarques para outros mercados, sobretudo os Estados Unidos.
Brandão ponderou, porém, que o crescimento em outros destinos não compensa integralmente a perda do mercado chinês. Em 2025, a China respondeu por 53% das exportações brasileiras de carne bovina.
Dados do MDIC mostram que aeronaves e partes de aeronaves foram o principal produto brasileiro exportado para os Estados Unidos em setembro. A categoria havia sido incluída na primeira lista de exceções divulgada pelo presidente americano Donald Trump após o amplo aumento das tarifas adotado em julho de 2025.
As exportações de aeronaves e componentes geraram US$ 443,1 milhões em setembro, alta de 25,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
A carne bovina apareceu em segundo lugar, com US$ 263,5 milhões, mais de seis vezes os US$ 42,2 milhões registrados um ano antes.
Já as exportações de café não torrado somaram US$ 219,9 milhões, mais que o dobro do valor observado em setembro de 2025.
Efeito das tarifas
José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), afirmou que parte desse crescimento reflete uma base de comparação baixa, já que as exportações brasileiras ainda sentiam plenamente os efeitos das medidas tarifárias em setembro de 2025.
A flexibilização mais ampla da política tarifária dos Estados Unidos, que retirou produtos como carne bovina e café das medidas em uma segunda lista de exceções, só ocorreu em novembro.
Em setembro de 2025, esses produtos e outros alimentos ainda estavam sujeitos a tarifas elevadas.
Brandão observou que as tarifas mais severas impostas por Trump, renovadas neste ano sob uma base jurídica diferente, continuaram excluindo produtos importantes da pauta brasileira.
Embora o pacote tarifário dos Estados Unidos atingisse 23% da pauta exportadora do Brasil, itens relevantes, como carne bovina e café, ficaram isentos das tarifas adicionais, segundo ele.
Perspectivas para as importações
Do lado das importações, Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, destacou que as compras brasileiras no exterior cresceram 5% no acumulado até setembro, em relação ao mesmo período de 2025. As importações da indústria de transformação avançaram 5,8%.
Segundo ela, o aumento das compras de veículos, combustíveis, componentes eletrônicos e equipamentos para processamento de dados indica que a absorção doméstica ainda não mostra uma desaceleração generalizada dos fluxos comerciais.
“A moderação esperada da atividade deve começar a aparecer de forma mais consistente nas importações nos próximos meses, especialmente nos segmentos mais sensíveis ao consumo, à produção industrial e aos investimentos.”
Olhando à frente, Pinese afirmou que a XP poderá revisar para cima sua projeção para a balança comercial, diante da recuperação dos preços do petróleo e do aumento da produção brasileira.
“As exportações devem permanecer elevadas nos próximos meses, sustentadas por preços e embarques maiores de petróleo. Do lado das importações, preços mais altos dos combustíveis e compras mais fortes de equipamentos de tecnologia devem manter os volumes em níveis elevados, enquanto as importações de veículos continuam sendo um risco a monitorar.”
Por outro lado, acrescentou a economista, uma desaceleração da atividade econômica pode ajudar a compensar esses fatores.
A XP projeta superávit comercial de US$ 84,5 bilhões em 2026.
Fonte: Valor International
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