Acordo dos EUA com Ásia ameaça exportações brasileiras
jul, 25, 2025 Postado porSylvia SchandertSemana202531
Os recentes acordos anunciados pelos Estados Unidos com Japão, Filipinas e Indonésia podem dificultar a ampliação das exportações brasileiras para Ásia e deixar o Brasil com pouca margem de manobra no mercado internacional, avaliam observadores do comércio exterior ouvidos pelo Valor.
A possibilidade de países asiáticos darem tratamento privilegiado para produtos americanos como contrapartida à redução do tarifaço de Donald Trump é vista com preocupação no contexto em que a sobretaxa de 50% imposta ao Brasil a partir de 1º de agosto demanda uma maior diversificação de mercados para os produtos brasileiros.
Para os especialistas, eventuais condições diferenciadas para produtos americanos na Ásia podem representar barreiras adicionais ao comércio brasileiro de manufaturados e aumentar a competitividade do setor agrícola americano, com prejuízos para o Brasil.
“Parece que há uma prioridade dos EUA em negociarem com países asiáticos. Essa tendência, se confirmada, mexe negativamente o nosso saldo comercial”, avalia a economista Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes).
A pauta de exportações do Brasil para a Ásia é concentrada em produtos de menor valor agregado e é altamente dependente da China, a despeito dos esforços do governo brasileiro para se aproximar de países do sudeste asiático.
A Ásia representou 42,7% das exportações brasileiras no 1º semestre de 2025. O percentual, porém, cai para 14% quando a China é excluída da análise, mostram dados do Comex Stat, sistema de estatísticas do comércio exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic).
Além da China, principal parceiro comercial do Brasil, Singapura é o único país da região entre os 10 principais destinos de produtos brasileiros em 2025. A Índia aparece na 11ª posição e a Coreia do Sul em 12º. O Japão figura em 14º.
“O Brasil sempre evitou a concentração regional, mas isso mudou nos últimos 15 anos e aumentou um pouco a nossa dependência da China”, diz Rios.
Ela observa que apesar de positiva no curto prazo, por representar maior desprendimento dos EUA, a concentração não é desejável a médio e longo prazos. “Hoje o problema é com os EUA, mas amanhã, por algum motivo, pode ser com a China. Então quanto mais diversificado, melhor”, afirma.
Ao contrário das exportações para os Estados Unidos, que têm participação mais ampla de produtos de maior valor agregado, as vendas brasileiras para a Ásia são concentradas em commodities, principalmente soja e minério de ferro, além de carne bovina e açúcar. Essa característica é apontada como um fator que limita o potencial competitivo das exportações para o continente em relação ao mercado americano.
“Basicamente o que o Brasil exporta para a Ásia são commodities, seja do agronegócio ou de minerais, o que favorece que a balança comercial com esses países seja superavitária”, afirma José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).
O perfil dos produtos exportados também deixa o Brasil mais vulnerável a variações de preço das commodities. Exemplo disso foi a queda das vendas do Brasil para a China no 1º semestre, que somaram US$ 47,68 bilhões, o menor valor em dez anos.
As exportações para os demais países da Ásia também caíram: de US$ 32,7 bilhões no primeiro semestre de 2024 para US$ 23,1 bilhões em igual período de 2025. Segundo analistas, a retração é reflexo da demanda internacional menos aquecida e não tem efeito direto do tarifaço americano.
Os especialistas apontam uma série de dificuldades para as manufaturas brasileiras penetrarem o mercado asiático: a distância territorial, o custo do transporte e, principalmente, a concorrência com eletrônicos, máquinas e equipamentos produzidos na região.
“Exportar produtos de manufatura e maior valor adicionado não é uma coisa imediata. Depende também de um redesenho das cadeias de valor e de mais investimento”, diz a economista e pesquisadora associada ao FGV Ibre, Lia Valls.
A economista acrescenta que o setor industrial brasileiro vê com resistência acordos de comércio com os países do sudeste asiático por temer a entrada desses produtos no Brasil, mas pondera: “É uma questão de analisar quais são os setores em que é possível fazer uma negociação. Isso é importante porque o mercado asiático tem mais dinamismo mesmo em um cenário mais sombrio para o mundo.”
O presidente da AEB ressalta que mesmo depois de firmados, os tratados ainda demoram de três a quatro anos até entrarem em vigor e precisam de aval do Congresso Nacional. “A gente, no fundo, precisa fazer nosso dever de casa”, diz.
Castro vê com pessimismo a facilitação para produtos americanos entrarem na Ásia. Para ele, isso restringe ainda mais a possibilidade de o Brasil avançar na exportação de produtos manufaturados.
“Nós ficamos sem muita margem de manobra para competir com os manufaturados porque os países do sudeste asiático vão importar dos EUA sem tarifa enquanto outros países, inclusive o Brasil, vão pagar uma tarifa”, diz.
E continua: “A gente vai ter que tentar criar uma situação para participar desses mercados não em igualdade de condições, mas de forma mais agressiva.”
Ao divulgar os acordos comerciais com a Indonésia e as Filipinas, Trump afirmou que os países se comprometeram em zerar as tarifas de importação para produtos americanos e eliminar barreiras não tarifárias. No caso do Japão, foram anunciadas tarifas recíprocas de 15%. O entendimento com os japoneses também prevê a exportação de aeronaves comerciais americanas e US$ 8 bilhões em produtos agrícolas dos EUA como soja, milho e fertilizantes.
“Pode ser um problema para o Brasil porque a gente concorre nesses mercados com produtos americanos, particularmente do agronegócio. E se de fato esses acordos estiverem sendo fechados com os asiáticos oferecendo tarifa zero para os EUA, isso prejudica a nossa competitividade”, diz Rios.
Professor de economia da Universidade de Brasília e ex-vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), Jorge Arbache reforça que redirecionar as manufaturas brasileiras para a Ásia exige esforços: “Entrar em eventuais acordos na Ásia é algo bem-vindo, mas o Brasil tem que saber jogar o jogo.”
O economista defende que um caminho é explorar mercados em que o Brasil tem vantagens comparativas em relação aos EUA e demais países. “Toda a industrialização da cadeia de alimentos, de minérios e de bioeconomia, além de tudo que é intensivo em energia e os minerais críticos”, exemplifica.
Fonte: Valor Econômico
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