Acordo Mercosul-UE rearranja mercado de vinhos e beneficia importação de alta gama
maio, 06, 2026 Postado porGabriel MalheirosSemana202619
O acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em sua fase de implementação em 1º de maio, começa a reorganizar o mercado vitivinícola brasileiro antes mesmo de seus efeitos financeiros se materializarem por completo.
Importadores brasileiros revisam portfólio e aceleram negociações, enquanto produtores europeus reforçam a ofensiva sobre o país, de acordo com Felipe Galtaroça, CEO da consultoria Ideal.BI, especializada no setor, em entrevista à Bloomberg Línea.
Segundo o executivo, o impacto se dará em frentes distintas e em ritmos diferentes.
Para os espumantes com valor igual ou superior a US$ 8 por litro, equivalente a US$ 6 por garrafa de 750 ml, e que atualmente chega ao consumidor no Brasil atualmente por cerca de R$ 150 (US$ 30), a alíquota de importação foi zerada de imediato.
Para os vinhos tranquilos (que não possuem gás carbônico), a redução será gradual ao longo de oito anos, mas o reposicionamento estratégico do mercado já está em curso. O setor encerrou 2025 movimentando R$ 21,1 bilhões, alta de 9% sobre 2024, segundo dados da própria consultoria.
A leitura macroeconômica de Galtaroça aponta um cenário favorável para quem traz vinho europeu ao Brasil. “A combinação entre desoneração tributária e valorização do real cria um cenário otimista para o importador brasileiro”, disse.
Esse contexto, segundo ele, permite recompor margens historicamente espremidas por câmbio e inflação, e, ao mesmo tempo, oferecer preços mais competitivos ao consumidor, o que tende a impulsionar especialmente o consumo de itens de maior valor agregado.
A ressalva está na base do mercado. “O segmento de vinhos de entrada [que custam até R$ 50] continua pressionado pela perda do poder de compra e pelos juros elevados, que restringem o acesso ao crédito”, afirmou Galtaroça. Ou seja, o efeito virtuoso da redução tributária não chega de forma uniforme à prateleira mais barata.
O segmento que recebe a desoneração imediata é numericamente pequeno, mas relevante em valor. Os espumantes acima de US$ 8 por litro representam cerca de 6% do faturamento total dos importados no Brasil, e a categoria tem alta concentração: Itália, França e Espanha respondem por mais de 80% das vendas.
É nessa fatia premium que a abertura tarifária se traduz em movimento de preço de imediato, com vantagem para espumantes como Cavas e Crémants, que podem ganhar margem competitiva direta sobre concorrentes do Velho e do Novo Mundo. O Champagne não entra na redução imediata por se tratar de outra Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), categoria que hoje tem uma tributação de 20% também terá sua redução de forma gradativa em 8 anos.
Galtaroça também avalia o efeito do acordo sobre o produtor brasileiro, que ele divide em três camadas.
A primeira é a dos espumantes, segmento em que o setor nacional conquistou na negociação uma janela de 12 anos antes que a alíquota sobre similares europeus de entrada caia a zero.
“A proteção aos produtores nacionais mostrou-se altamente assertiva em um de seus principais segmentos: o de espumantes, no qual detêm 83% de market share”, disse.
A segunda camada é a dos vinhos de mesa, produzidos com uvas americanas e híbridas, que respondem por mais da metade do volume vendido no país.
Para essa categoria, o impacto do acordo tende a ser nulo, segundo Galtaroça, em razão das características sensoriais do produto, marcado por alto residual de açúcar, e do vínculo cultural com o consumidor brasileiro.
A terceira camada é a mais delicada, e contraintuitiva. Nos vinhos finos, a produção nacional responde por apenas uma em cada dez garrafas vendidas no país. “Nesse cenário, a pressão de preços acirra a concorrência direta principalmente com os vinhos chilenos e argentinos”, afirmou Galtaroça.
A avaliação é que o produtor brasileiro de vinho fino, embora afetado pelo acordo, sente o aperto sobretudo no embate com os vizinhos sul-americanos, que hoje dominam o segmento e disputam o mesmo espaço de preço.
Confira a seguir os 10 principais países de origem das importações brasileiras de vinho no primeiro trimestre de 2026, segundos os dados da Datamar:
Importação de Vinhos | Principais Origens | 1º tri 2026
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
A reorganização de portfólio já em curso entre importadores sugere que esse rearranjo competitivo deve se consolidar bem antes do fim do ciclo de oito anos previsto para a redução total das tarifas, disse o executivo.
Por Daniel Buarque para a Bloomberg Línea
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