Argentina soybean harvest
Economia

Argentina traça plano para acabar com impostos sobre exportações agrícolas até 2028

jul, 07, 2026 Postado porSylvia Schandert

Semana202628

Poucas potências agrícolas tributam seus produtores pela exportação. A Argentina faz isso há mais de duas décadas. Desde 2002, os impostos sobre exportações, conhecidos localmente como “retenciones”, tornaram-se um dos pilares da política agrícola do país, gerando receitas significativas para o governo, mas também reduzindo os incentivos à produção e aos investimentos.

Ao longo de grande parte dos últimos 20 anos, as taxas de exportação representaram entre 6% e 10% da arrecadação tributária total da Argentina, o que explica por que sucessivos governos tiveram tanta dificuldade em eliminá-las. Uma nova proposta legislativa, no entanto, pode mudar essa realidade. O governo estabeleceu um cronograma formal, respaldado por lei, para a redução gradual dessas tarifas até 2028.

O anúncio representa uma das mais importantes reformas da política agrícola argentina nas últimas décadas e pode trazer implicações relevantes não apenas para os produtores do país, mas também para compradores internacionais, tradings e investidores, incluindo empresas dos Países Baixos.

O que são as “retenciones” e por que elas existem?

Impostos sobre exportação são raros no comércio internacional. A maioria dos países tributa importações, enquanto poucos aplicam impostos sistemáticos sobre exportações, especialmente nos setores em que possuem maior competitividade. A Argentina é uma exceção.

Embora os impostos sobre exportações agrícolas tenham sido praticamente eliminados em 1992, eles foram restabelecidos em 2002 como uma medida emergencial para aumentar a arrecadação após a histórica crise da dívida de 2001 e o calote da dívida pública. A crise foi severa: o desemprego atingiu 20%, a pobreza superou 58% e o país perdeu acesso aos mercados internacionais de capitais. Diante desse cenário, o governo de emergência, com respaldo do Congresso, reintroduziu as tarifas de exportação para reforçar as receitas públicas e estabilizar as contas do Estado.

O forte ciclo de valorização das commodities entre 2002 e 2008 fez com que essas tarifas gerassem receitas fiscais extraordinárias. Assim, uma medida inicialmente apresentada como temporária acabou se tornando permanente.

Com o passar do tempo, as retenções passaram a atender também outros objetivos de política econômica. Além de arrecadar recursos, foram utilizadas para manter os preços internos dos alimentos abaixo das cotações internacionais e redistribuir parte da renda gerada pelo agronegócio para outros setores da economia.

No auge, a alíquota incidente sobre a soja chegou a 35%, uma das mais elevadas do mundo para produtos agrícolas. Em 2008, o governo tentou elevá-la ainda mais por meio de um sistema de alíquotas variáveis atreladas aos preços internacionais das commodities. A proposta provocou forte reação do setor agropecuário e resultou em um dos maiores embates políticos da história recente do país. Ao final, o Senado rejeitou a medida por apenas um voto, demonstrando a importância econômica e política que as retenciones haviam adquirido.

Por que os impostos não foram eliminados antes?

Durante anos, sucessivos governos reconheceram os efeitos negativos das tarifas sobre investimentos, produtividade e competitividade. Ainda assim, eliminá-las mostrou-se politicamente e fiscalmente difícil.

A razão era simples: elas se tornaram uma importante fonte de receita para o governo. Em um país marcado por déficits fiscais recorrentes, inflação elevada e acesso limitado ao financiamento internacional, poucas administrações podiam abrir mão dessa arrecadação.

O ex-presidente Mauricio Macri reduziu diversas tarifas de exportação após assumir o cargo em 2015. No entanto, as mudanças coincidiram com o aumento dos preços dos alimentos no mercado interno e enfrentaram forte resistência política. A experiência reforçou uma lição que continua influenciando a política argentina: reduzir impostos sobre exportação sem antes restaurar a estabilidade macroeconômica tende a ser insustentável.

Por que a situação está mudando agora?

A reforma atual está diretamente ligada à melhora do quadro macroeconômico argentino.

Desde que assumiu a presidência, em dezembro de 2023, o governo de Javier Milei concentrou esforços no ajuste fiscal, na redução da inflação e na desregulamentação da economia. Após alcançar o primeiro superávit fiscal primário em mais de uma década, o governo afirma ter conquistado espaço fiscal suficiente para iniciar a redução gradual de um dos impostos considerados mais distorcivos da economia.

O cronograma anunciado reduz imediatamente as tarifas sobre trigo e cevada e estabelece uma trajetória gradual de redução para soja, milho, sorgo e diversos produtos ligados aos biocombustíveis até 2028. Segundo o governo, o objetivo final continua sendo a eliminação completa das tarifas de exportação, preservando o equilíbrio fiscal.

Talvez mais importante do que os próprios cortes seja a previsibilidade que eles oferecem. Pela primeira vez desde 2002, produtores, exportadores e investidores passam a ter visibilidade sobre a trajetória futura da tributação das exportações. Em um país onde a incerteza regulatória frequentemente representou um desafio maior do que os próprios impostos, esse pode ser o aspecto mais relevante da reforma.

O que essa reforma pode representar para a agricultura argentina?

A redução das tarifas melhora a rentabilidade ao longo de toda a cadeia do agronegócio, fortalecendo os incentivos para investimentos em produção, tecnologia e infraestrutura.

Os produtores de grãos e oleaginosas devem ser os principais beneficiados, já que soja, milho, trigo e cevada respondem por uma parcela significativa das exportações argentinas. A maior rentabilidade pode acelerar investimentos em agricultura de precisão, armazenagem, irrigação, tecnologias digitais e processamento com maior valor agregado.

Entretanto, a competitividade agrícola argentina não é novidade. Ela está baseada na fertilidade da região dos Pampas, na produção em larga escala, na adoção precoce do plantio direto e da agricultura de precisão, além de um eficiente corredor logístico centrado no Rio Paraná, um dos maiores polos mundiais de processamento e exportação de soja.

Essas vantagens estruturais permitiram que os produtores argentinos permanecessem competitivos globalmente, mesmo convivendo com mais de duas décadas de tributação sobre exportações.

Paradoxalmente, é justamente por isso que as retenciones sempre foram consideradas altamente distorcivas. Em vez de eliminar a vantagem competitiva da Argentina, elas reduziram a rentabilidade e desestimularam investimentos, inovação e agregação de valor. Assim, espera-se que a reforma não crie competitividade, mas libere um potencial produtivo que já existia.

Uma questão frequentemente levantada é se a maior rentabilidade poderá estimular a expansão agrícola sobre áreas de florestas nativas, especialmente na região do Gran Chaco. Embora esse risco exista, o contexto atual é bastante diferente dos ciclos anteriores de expansão.

O acesso ao mercado europeu está cada vez mais condicionado ao Regulamento Europeu sobre Produtos Livres de Desmatamento (EUDR) e a exigências mais rigorosas de rastreabilidade. Por isso, espera-se que o crescimento futuro seja baseado principalmente em ganhos de produtividade, inovação tecnológica e uso mais eficiente das áreas agrícolas já existentes, e não na expansão da fronteira agrícola.

Uma reforma em meio a um novo ambiente comercial

O momento da reforma é particularmente significativo. Ela coincide com uma maior abertura da economia argentina e com os avanços na relação comercial entre a União Europeia e o Mercosul.

Após o acordo político firmado em dezembro de 2024, o Acordo União Europeia-Mercosul entrou em aplicação provisória em 2026, criando um ambiente mais previsível para comércio e investimentos entre os dois blocos.

Embora a reforma das tarifas de exportação e o acordo comercial sejam processos distintos, ambos apontam para a mesma direção: maior integração da Argentina aos mercados internacionais e fortalecimento dos incentivos para os setores voltados às exportações.

Perspectivas

A eliminação definitiva das tarifas dependerá da capacidade da Argentina de manter a disciplina fiscal e a estabilidade macroeconômica nos próximos anos.

A grande novidade é que, pela primeira vez desde 2002, o país conta com um cronograma oficial e juridicamente formalizado para reduzir as retenciones. Governos anteriores fizeram promessas; o atual estabeleceu um calendário.

Para agricultores que planejam seus plantios, exportadores que negociam vendas futuras e compradores internacionais que administram contratos de fornecimento de longo prazo, essa previsibilidade possui um valor próprio.

Talvez o aspecto mais importante da reforma não seja o tamanho dos cortes tributários, mas o surgimento de algo que a Argentina frequentemente careceu: previsibilidade.

Fonte: Agroberichten Buitenland – Netherlands.

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