Brasil busca oferta emergencial de fertilizantes com Rússia, China e Marrocos
jun, 29, 2026 Postado porSylvia SchandertSemana202627
O governo brasileiro mobilizou um comitê de crise da Casa Civil para garantir o fornecimento de matérias-primas destinadas à produção de fertilizantes fosfatados para a safra 2026/2027. A diplomacia brasileira iniciou negociações com Rússia, China e Marrocos, principais fornecedores do país, para assegurar o abastecimento, mesmo que a preços de mercado.
A preocupação decorre da elevada dependência externa do Brasil, agravada pelo cenário geopolítico internacional e pelas dificuldades no mercado global de fertilizantes.
Em 2025, o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes, de um consumo total de 49,1 milhões de toneladas. As compras externas somaram US$ 14,5 bilhões, representando 92% do consumo nacional. Em 2024, essa dependência chegou a 97%.
Segundo estimativas da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), apenas entre 40% e 45% dos fertilizantes necessários para a próxima safra já foram adquiridos.
O Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) e a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) alertaram o governo para a escassez de fertilizantes fosfatados e de matérias-primas como enxofre e ácido sulfúrico. O Brasil importa praticamente todo o enxofre consumido, e a dificuldade de abastecimento já provocou redução ou paralisação de operações em unidades processadoras.
Nas negociações internacionais, o governo busca avaliar a capacidade de fornecimento dos parceiros e estuda firmar memorandos de entendimento para garantir abastecimento em situações emergenciais.
Os dados obtidos pela Datamar mostram que a importação de fertilizantes pelo Porto de Paranaguá caiu quase 45% nos primeiros quatro meses de 2026 comparado ao mesmo período do ano anterior. Esse movimento se deve, entre outros fatores, pelas dificuldades logísticas associadas a guerra no Oriente Médio e juros altos que apertam as margens disponíveis aos importadores.
Confira a seguir como foi a performance da importação do produto nos últimos anos:
Importação de Fertilizantes | Porto de Paranaguá | Jan-Abr | 2023 – 2026 | WTMT
Fonte: DataLiner (clique aqui para solicitar uma demonstração)
Principais fornecedores
Rússia: mantém capacidade de produção, embora tenha sofrido impactos em algumas fábricas devido à guerra.
Marrocos: possui capacidade de fornecimento, mas um projeto para manter estoque estratégico no Brasil depende de licença ambiental ainda não concedida.
China: discute questões tarifárias com o Brasil. Especialistas consideram um acordo com o país a alternativa mais promissora.
Segundo Bruno Fonseca, do Rabobank, a demanda por fertilizantes deve aumentar diante da perspectiva de um El Niño mais intenso, enquanto dificuldades financeiras dos produtores podem limitar as compras.
Dependência estrutural
A CNA atribui a forte dependência externa à estagnação da produção nacional frente ao crescimento da demanda.
Entre 2015 e 2025:
- as entregas de fertilizantes cresceram 63%;
- as importações avançaram 130%;
- a produção nacional permaneceu praticamente estável, entre 7,2 e 9,1 milhões de toneladas.
Em 2025, os cinco principais fornecedores do Brasil foram China, Rússia, Canadá, Marrocos e Egito, responsáveis por 69% das importações.
Por nutriente, a dependência é de:]
- potássio: 98%;
- nitrogênio: 93%;
- fósforo: 57%.
O potássio é considerado o maior fator de vulnerabilidade por combinar alta dependência externa e elevado consumo.
Produção nacional enfrenta dificuldades
Embora o Brasil possua reservas de rocha fosfática em Minas Gerais e Goiás e tenha inaugurado, em 2024, o Complexo Mineroindustrial de Serra do Salitre, da EuroChem, com capacidade para produzir 1 milhão de toneladas anuais de fertilizantes fosfatados, o setor sofreu forte impacto em 2026.
A Mosaic encerrou definitivamente as operações em Araxá e Patrocínio e suspendeu temporariamente as atividades em Tapira e Catalão devido à crise global do enxofre, cujo preço aumentou mais de 1.100%.
Segundo a CNA, a alta do enxofre decorre principalmente do desequilíbrio entre oferta e demanda, problemas logísticos, redução da produção em grandes fornecedores e da crescente demanda dos setores de baterias para veículos elétricos e da indústria asiática.
Propostas
A CNA defende medidas para reduzir a dependência externa, entre elas:
- aprovação do projeto de lei Profert;
- fortalecimento do Confert, com meta de elevar a produção nacional para atender 50% da demanda até 2030;
- criação de linhas de financiamento para armazenagem de fertilizantes;
- incentivo ao uso de bioinsumos;
- ampliação de pesquisas sobre fixação biológica de nitrogênio.
Para a entidade, garantir o abastecimento de fertilizantes tornou-se uma questão estratégica para a competitividade do agronegócio e para a segurança alimentar do país.
Fonte: Valor Econômico
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